Decisão do STF diz que Cunha demonstrava pouco apreço por MG: 'mineiros enrolados'
Ministro cita mensagem em que ex-deputado chama prefeitos de 'enrolados' e afirma que diálogo reforça indícios de descontrole político na destinação de emendas

Uma mensagem em que o ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) reclama dos "mineiros enrolados" foi usada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, como um dos elementos para sustentar que havia um "descontrole político" na destinação de emendas parlamentares investigadas pela Polícia Federal.
Na decisão que bloqueou R$ 6,15 milhões em bens do ex-presidente da Câmara, tornada pública neste domingo (12), Dino afirma que os diálogos extraídos do celular da servidora Mariângela Fialek, conhecida como "Tuca", mostram que Cunha definia a distribuição de recursos para municípios mineiros mesmo sem exercer mandato parlamentar.
Ao comentar uma troca de mensagens entre Cunha e a servidora, o ministro chama atenção para um aspecto que considera "mais simbólico". Segundo ele, embora nunca tenha construído sua carreira política em Minas Gerais, o ex-deputado tratava diretamente da distribuição de recursos no estado e demonstrava pouco vínculo com os municípios beneficiados.
"Mais simbólico ainda no sentido do descontrole político e desvinculação ao interesse público dessas destinações é o fato de que o ex-deputado nunca manteve vinculação política com o Estado de Minas. Pelo contrário, em algumas passagens simboliza manter pouco apreço pelo Estado e pelos prefeitos com quem mantinha interlocução", escreveu Dino.
Na conversa reproduzida na decisão, Cunha orienta a retirada de uma emenda destinada a Governador Valadares após dificuldades políticas no município.
"Boa tarde, desculpa mas eu não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar."
Para a Polícia Federal, o diálogo reforça que Cunha atuava diretamente na escolha dos municípios beneficiados pelas emendas, apesar de ter sido cassado em 2016 e não exercer mandato desde então.
Em outro trecho citado na decisão, o ex-deputado reorganiza recursos entre municípios mineiros e, ao final da conversa, comenta a dificuldade de distribuir as verbas.
"Desculpa o trabalho mas Minas é muito pulverizado."
Mariângela responde:
"Tranquila. São muitos municípios mesmo."
A decisão também destaca que Cunha nunca foi deputado por Minas Gerais. Ainda assim, segundo a investigação, ele mantinha uma "cota informal" de emendas destinada conforme seus interesses políticos no estado e enviava planilhas com a distribuição de recursos para municípios mineiros. Para Dino, os elementos reunidos pela Polícia Federal indicam que essas movimentações estavam relacionadas à tentativa de formar uma base política para sua anunciada candidatura a deputado federal por Minas Gerais.
Outro lado
Em nota enviada à reportagem, a defesa de Eduardo Cunha afirmou que o ex-deputado não exerce mandato parlamentar e, por isso, não apresentou nem formalizou as emendas investigadas. Os advogados sustentam que a decisão confunde "legítima interlocução política" com o exercício clandestino de mandato, afirmam que Cunha desconhece irregularidades na tramitação das emendas e dizem que recorrerão após ter acesso integral aos autos.
A nota, porém, não comenta os diálogos destacados pelo ministro nem explica as mensagens em que Cunha discute a substituição de municípios, a redistribuição de recursos e a destinação de emendas para cidades mineiras.
Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio



