Decisão do STF contra Cunha cita disputa de autoria de emendas com Nikolas e Cleitinho
Ex-deputado é suspeito de operar emendas via parlamentares em atividade. Em conversas com uma assessora, ele cita o deputado e o senador em um contexto de disputa por autoria de emendas

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que bloqueou R$ 6,1 milhões do ex-deputado Eduardo Cunha, aponta indícios de que o antigo presidente da Câmara utilizava uma rede de influência para controlar emendas parlamentares em Minas Gerais. Mesmo sem mandato há dez anos, Cunha é suspeito de operar um "arranjo decisório paralelo" para beneficiar municípios mineiros, visando angariar apoio político para uma futura candidatura no estado.
A decisão cita parlamentares que podem ter operado para favorecer o ex-presidente da Câmara e também nomes com quem Cunha pretendia disputar a autoria de emendas, como é o caso do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
A investigação da Polícia Federal, baseada em diálogos da servidora Mariângela Fialek (conhecida como Tuca), sugere o envolvimento direto ou indireto de diversos políticos mineiros em exercício.
Um dos nomes citados é o do deputado federal Gilberto Abramo (Republicanos-MG), apontado pela Polícia Federal como um braço parlamentar do esquema. De acordo com a decisão, as emendas articuladas por Cunha eram registradas em nome de Abramo para "escamotear o verdadeiro solicitante".
Em um diálogo de setembro de 2025, Cunha solicita que Abramo assine um ofício reivindicando a autoria de uma emenda em Manhuaçu para resolver uma disputa política local. Para os investigadores, Abramo atuava como o titular formal das cotas que, na prática, eram geridas por Cunha.
A reportagem entrou em contato com o deputado Gilberto Abramo e mantém o espaço aberto para a manifestação do parlamentar.
Em situação parecida é citado o nome do deputado estadual João Magalhães (MDB), líder do Governo de Minas na Assembleia Legislativa (ALMG). Ele é mencionado como parte da estratégia de ocultação de Cunha.
Para evitar que o nome de Cunha aparecesse na solicitação de emenda para Manhuaçu, a orientação era que Gilberto Abramo declarasse, via ofício, que a emenda era de sua autoria, mas que o pedido original teria partido de João Magalhães. Essa manobra serviria para dar uma justificativa política legítima ao recurso, escondendo a interferência do ex-deputado cassado.
À reportagem, João Magalhães afirmou que não tem conhecimento sobre qualquer emenda enviada a Manhuaçu e que não fez nenhum pedido desta natureza a qualquer deputado federal.
Nikolas e Cleitinho em disputa com Cunha
O nome de Nikolas Ferreira surge em meio a um descontentamento de Eduardo Cunha. Em mensagens enviadas à assessora Tuca, o ex-deputado fluminense reclama que uma emenda enviada por ele para Manhuaçu estava sendo atribuída pela população local a Nikolas.
Para checar a informação, a servidora consultou o sistema interno e informou a Cunha que "Nikolas não tem de comissão", confirmando que o parlamentar não era o autor oficial daqueles recursos específicos.
O senador Cleitinho também é citado por Cunha como alguém que disputava o protagonismo das verbas em Minas Gerais . Em uma das conversas, o ex-deputado afirma: “Tem Cleitinho aí, que também se arvora lá. Ele pôs 200”
A investigação indica que Cleitinho constava como autor formal de uma emenda de R$ 200 mil para o Governo de Minas em um relatório compartilhado entre os investigados.
Na decisão, o ministro Flávio Dino destacou que é "muito improvável" que os parlamentares mineiros não tivessem consciência de que suas cotas estavam sendo utilizadas por Eduardo Cunha.
Em sua argumentação, o ministro ressalta que, como as emendas são alvo de disputa acirrada, um deputado dificilmente ignoraria que valores em seu nome estavam sendo geridos para finalidades políticas de terceiros.
Nikolas e Cleitinho também foram procurados pela Itatiaia. Até a última atualização desta matéria, não houve resposta por parte dos parlamentares.
Cunha em Minas Gerais
Cunha escolheu Minas para retomar a carreira na Câmara dos Deputados após ter perdido o mandato e sido preso no âmbito da Operação Lava-Jato.
Ele foi preso em 2016, mesmo ano em que tocou a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) na Câmara. Sete anos mais tarde, sua condenação foi anulada pelo STF.
Na decisão do STF que bloqueou bens do ex-deputado, Dino aponta que o possível esquema de emendas parlamentares tinha como objetivo criar uma rede de influências para Cunha no estado onde ele não tem experiência política.
O ministro ainda citou momentos em que o ex-presidente da Câmara se queixou sobre os “mineiros enrolados” em meio às movimentações com parlamentares em exercício do estado.
O que diz o ex-deputado
Em nota enviada à reportagem, a defesa de Cunha diz que tomou conhecimento da decisão de Flávio Dino via imprensa e que não foi intimado, ouvido ou chamado a prestar esclarecimentos no âmbito desta investigação.
“Eduardo Cunha não exerce mandato parlamentar e, portanto, não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas nas reportagens. Ao contrário. Conforme pode-se observar, elas foram oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados, únicos que possuem competência sobre o processo orçamentário. Eduardo Cunha sempre pautou sua vida pública pelo compromisso ético e probidade, respeitando as normas legais, inclusive, enquanto exerceu seu mandato parlamentar”, diz trecho da nota.
A defesa complementa rechaçando que o contato feito por Cunha com deputados e senadores em exercício possa ser caracterizado como um exercício clandestino de mandato parlamentar.
“É igualmente necessário esclarecer que o montante de R$ 6,15 milhões corresponde ao valor global das emendas questionadas, destinadas a municípios ou outros beneficiários públicos, e nem mesmo a decisão imputa recebimento de qualquer vantagem a Eduardo Cunha. Eduardo Cunha desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas. Cabe ressaltar que a própria PGR (Procuradoria Geral da República) considerou prematuro o bloqueio das contas de Eduardo Cunha”, conclui a defesa do ex-presidente da Câmara.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.
Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio




