Sem aviso prévio, PRF diz que caminhada de Nikolas impediu planejamento de risco

Especialista avalia que riscos tanto aos pedestres quanto a quem trafega foram amplificados pela falta de aviso às autoridades

Nikolas Ferreira, parlamentares de oposição ao governo Lula e militantes de direita caminham até Brasília, no Distrito Federal

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) não informou à Polícia Rodoviária Federal (PRF) que faria a caminhada entre Paracatu, na Região Noroeste de Minas Gerais, e Brasília, no Distrito Federal, o que, conforme a corporação, “impediu o planejamento antecipado de medidas mitigadoras de risco para o trecho”. Apesar disso, a PRF ressalta que monitora o deslocamento do parlamentar e de militantes bolsonaristas nas rodovias federais que cruzam as duas unidades da federação. A informação foi confirmada à Itatiaia na manhã desta quarta-feira (21).

“A Polícia Rodoviária Federal (PRF) informa que monitora o deslocamento de parlamentares e populares de Paracatu (MG) em direção a Brasília (DF) pela BR-040. Por questões estritamente operacionais e de segurança viária, a PRF ressalta os riscos inerentes ao fluxo extraordinário na via, visto que não houve comunicação prévia do deslocamento junto à autoridade de trânsito, o que impediu o planejamento antecipado de medidas mitigadoras de risco para o trecho”, diz a nota.

A Via Cristais, concessionária que administra o trecho da BR-040 entre Paracatu e Cristalina, informou, também em nota, que “acompanha atentamente o evento” em articulação “permanente” com autoridades competentes. “No momento, o fluxo está lento nas proximidades do km 105, em Cristalina (GO), no sentido norte (Brasília), em razão de interdição parcial da pista. No trecho, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) implantou operação de pare e siga. A Via Cristais mantém comunicação ativa em todos os seus canais de informação, incluindo painéis de mensagens variáveis ao longo da rodovia, alertando os motoristas sobre a presença de pessoas na pista e orientando para a condução segura”, explica.

No terceiro dia de caminhada, Nikolas, que está acompanhado de cerca de 100 pessoas, pretende chegar a Cristalina, em Goiás, no fim da tarde desta quarta-feira. Junto ao parlamentar, estão militantes bolsonaristas e políticos, como os vereadores de Belo Horizonte Vile Santos (PL) e Pablo Almeida (PL) e os deputados federais Carlos Jordy (PL), Zé Trovão (PL) e Gustavo Gayer (PL).

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Nikolas Ferreira publicou, na noite de segunda-feira (19), uma “carta aberta ao povo do Brasil” explicando os motivos que o levaram a começar o percurso de 240 km entre o Noroeste mineiro e o Distrito Federal. No texto, o parlamentar nega que seu gesto seja de “vaidade” ou seja um “espetáculo” e alega ser um “ato de consciência, de amor ao Brasil e de compromisso com a liberdade”. “Que cada brasileiro saiba: a liberdade não se pede de joelhos; defende-se de pé”, argumentou.

Ele defende que os presos do 8 de janeiro são submetidos a “desumanização” e processos “ilegais, parciais e arbitrários”. “São sintomas de algo muito mais profundo e perigoso: o cansaço moral de uma nação que vê o mal triunfar sem consequências, escândalos sucederem escândalos, o crime organizado avançar sobre o território e as instituições, enquanto o cidadão honesto é esmagado por um Estado inerte para proteger o bem, mas voraz para cobrar impostos”, destacou.

A reportagem da Itatiaia procurou a assessoria de imprensa de Nikolas Ferreira, que ainda não respondeu aos questionamentos. O espaço continua aberto.

Especialista destaca riscos

O especialista em trânsito e transporte Silvestre de Andrade explica que Nikolas deveria ter avisado previamente tanto à Polícia Rodoviária Federal quanto à concessionária que administra o trecho entre Paracatu e Cristalina para que os riscos tanto aos pedestres quanto a quem trafega na rodovia fossem minimizados.

“Rodovia não é um local para tráfego de pedestres. Não é preparada para isso. Não tem passeio, não tem vias de pedestre. O tráfego de pedestres é para ser eventual e normalmente tem que ser feito pelo acostamento. Quando se tem uma aglomeração, tem-se um problema muito maior, as pessoas ocupam o acostamento todo e o acostamento é feito também para uma parada emergencial de veículos”, explica.

Para ele, o parlamentar e o grupo que o acompanha deveriam ter informado tanto os horários das caminhadas, quanto a quantidade de pessoas que percorreriam o trecho. “Quando você tem essa aglomeração precisa ter um acompanhamento, precisaria ter avisado a Polícia Rodoviária, e tem uma empresa concessionária também. A concessionária tem que ser avisada e tem que preparar uma operação de apoio. Não pode ser feito de qualquer maneira porque é muito perigoso”, finaliza.

Jornalista pela UFMG, Lucas Negrisoli é editor de política. Tem experiência em coberturas de política, economia, tecnologia e trends. Tem passagens como repórter pelo jornal O Tempo e como editor pelo portal BHAZ. Foi agraciado com o prêmio CDL/BH em 2024.

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