O quinto dia de
Entre os depoentes esteve Leandro Borges Cândido, sobrevivente que trabalhava no carregamento de vagões de minério das minas de Jangada e
Leandro contou que, no momento do rompimento, havia cerca de 30 pessoas no refeitório. Após o desastre, ele afirmou que a única assistência recebida da Vale foi um plano de saúde, que já não possui mais. O sobrevivente também relatou os impactos na cidade onde mora. “A tristeza lá é enorme por causa da tragédia. Pela perda de pessoas, todo mundo lá é próximo, conhecido. Difícil passar perto de alguém que não perdeu um familiar”, disse.
Forte barulho
Também prestou depoimento Elias de Jesus Nunes, que trabalhava como operador mantenedor de saneamento. Ele contou que havia saído do refeitório para realizar um serviço próximo à barragem quando ouviu um forte barulho e percebeu a lama avançando.
Elias disse que chegou a parar o carro, ligar o pisca-alerta e começou a rezar. A lama atingiu a caminhonete e a empurrou, mas ele conseguiu sair do veículo e ainda ajudou um operador a sair de dentro de uma máquina. Segundo ele, apesar de já ter participado de treinamentos para rompimento de barragem, tudo aconteceu muito rápido. “Pra gente que trabalhava lá a sensação é que não iria romper nunca. Tinha máquina e vegetação em cima. Tinha dia que eu passava por baixo dela duas, três vezes. Se eu ao menos sonhasse que poderia romper eu jamais passaria”.
Prejuízos a agricultores
A agricultora Soraia Aparecida Campos também foi ouvida. Ela relatou que perdeu a produção agrícola após o rompimento e que fazia parte de uma comunidade de dez famílias que viviam da agricultura na região. Segundo ela, 42 corpos foram retirados da horta próxima à casa onde morava.
Soraia afirmou que nunca foi procurada pela Vale para ser informada sobre riscos de rompimento da barragem e falou sobre as consequências econômicas e sociais do desastre. “O que a gente pede hoje é justiça”. Ela também relatou a mudança na rotina após perder a principal fonte de renda. “Quando você vive da agricultura, você não sabe fazer outra coisa. É assim no interior. Virei cozinheira porque é o que sei”.
Funcionárias de pousada
O último depoimento do dia foi do sobrevivente Jefferson Custódio Santos Vieira, que na época era estudante e perdeu a avó e a tia na tragédia. As duas trabalhavam na pousada que foi tomada pela lama. Ele contou que ouviu um barulho semelhante ao da energia elétrica acabando e tentou contato com familiares antes de receber a notícia de que a barragem havia rompido.
Ao tentar chegar à região do Córrego do Feijão, Jefferson disse que encontrou apenas destruição. “Meu tio me ligou e falava ‘acabou tudo, não tem mais nada aqui’”.
Ele também relatou o impacto do desastre na comunidade. “A gente ficou ilhado, sem luz, sem água, aquela noite foi horrível, a gente não sabia o que podia acontecer”. Segundo Jefferson, cerca de 600 pessoas moravam no Córrego do Feijão e 27 morreram na tragédia.
O sobrevivente afirmou ainda que a comunidade era muito próxima. “A gente era quase uma família, todo mundo participava da vida de todo mundo”. Ele contou que, após as perdas familiares, precisou assumir responsabilidades dentro de casa. “Perdi minha bisavó depois disso, porque ela adoeceu depois de perder a filha. Tive que virar pai dos meus irmãos”.
Jefferson contou que faltava cerca de um ano para a avó se aposentar, e a tia estava no último dia de seu aviso prévio na pousada.
As audiências fazem parte da fase de instrução do processo criminal, etapa dedicada à produção de provas e à oitiva de testemunhas e sobreviventes antes das próximas decisões judiciais sobre o caso.