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Justiça atende pedido da prefeitura e barra nova CPI da Lagoa da Pampulha

Câmara Municipal de BH aprovou abertura de uma nova CPI depois que a anterior foi encerrada sem aprovação de relatório

Por e 
Câmara Municipal não poderá abrir nova CPI para investigar Lagoa da Pampulha
Eleitores de Belo Horizonte escolhem 41 vereadores que vão ocupar os postos no Legislativo municipal pelos próximos quatro anos • Divulgação/CMBH

A Justiça de Belo Horizonte barrou a instalação de uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os contratos da prefeitura com empresas responsáveis pelas ações de despoluição da Lagoa da Pampulha. A decisão, em caráter liminar, atende a um pedido do prefeito Fuad Noman (PSD) e foi publicada nesta quinta-feira (19), pelo juiz Thiago Grazziane Gandra, da 1ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública Municipal da Comarca de Belo Horizonte.

Na decisão, o magistrado diz que a criação de uma nova CPI com o mesmo objeto que a anterior "parece funcionar como burla".

"A instauração de uma nova CPI, com exatamente o mesmo objeto da anterior, qual seja, a investigação de 'irregularidades na execução dos contratos de limpeza e recuperação da Lagoa da Pampulha', proposta no exato dia do encerramento daquela que caducou, parece funcionar como burla ao requisito constitucional do prazo certo e determinado, promovendo, ao arrepio da norma, a continuidade praticamente ininterrupta dos trabalhos investigativos, para além do prazo máximo fixado pela legislação", diz trecho da decisão.

Reportagem da Itatiaia mostrou que o Requerimento 944/23, que reuniu as assinaturas de 14 vereadores para abrir uma nova CPI tinha 90% do texto idêntico ao Requerimento 267/22, usado para instalar a CPI da Lagoa da Pampulha em novembro do ano passado.

"O segundo requerimento é praticamente uma cópia, ipsis litteris, do primeiro", diz o juiz na decisão.

Câmara vai recorrer da decisão

Em nota divulgada na noite desta quarta-feira (19), a Presidência da Câmara Municipal de Belo Horizonte informou que vai recorrer da decisão assim que for notificada oficialmente pela Justiça. Segundo o Legislativo, é preciso assegurar o dever constitucional dos vereadores de fiscalizar o Poder Executivo.

"É dever do Poder Legislativo defender a sua função fiscalizatória e os trabalhos de qualquer Comissão Parlamentar de Inquérito para apuração de responsabilidade sobre o abandono, o esgoto, a imundice e a sujeira da Lagoa da Pampulha, vez que demonstrada a ausência de relatório com as razões de contrariedade, na forma exigida pelo Regimento Interno", diz o texto.

"A cidade de Belo Horizonte merece uma conclusão das investigações sobre a Lagoa da Pampulha e estranha a Prefeitura estar tão empenhada em impedir essas apurações", continua a Presidência da Cãmara.

CPI da Lagoa da Pampulha

A CPI da Lagoa da Pampulha, instalada após requerimento aprovado no fim do ano passado, investigou, por seis meses, os contratos entre a Prefeitura de Belo Horizonte e empresas contratadas para realizarem ações de despoluição do espelho d'água de um cartões postais da capital mineira. Ao longo do tempo, os vereadores colheram depoimentos de servidores e analisaram documentos sobre o assunto.

Às vésperas do encerramento do prazo de investigação, um relatório apresentado pelo vereador Bráulio Lara (Novo) foi rejeitado por 4 votos a 3. O parlamentar pedia, no documento, o indiciamento de uma série de pessoas - entre elas o secretário municipal de Governo, Josué Valadão, o que provocou uma nova crise entre Executivo e Legislativo.

No mesmo dia, a vereadora Flávia Borja foi designada para apresentar um relatório alternativo - que desconsiderava envolvimento de Valadão com quaisquer irregularidades. No entanto, na sessão marcada para a votação do documento, a parlamentar pediu a retirada do texto da pauta. Sem um relatório, a CPI terminou em "pizza".

Para o juiz Gandra, há "receio" de que uma nova CPI da Lagoa da Pampulha seja usada somente para aprovar um relatório como o de Bráulio Lara, que foi rejeitado pela maioria dos integrantes do órgão colegiado.

"O receio de desvio da finalidade da Comissão é fundado nos indícios de que ela possa ser usada não para apurar fatos novos, mas com o objetivo de fazer aprovar relatório final de indiciamento anteriormente rejeitado, tendo o autor juntado aos autos cópia da decisão de rejeição do relatório final da CPI", diz o juiz em outro trecho da decisão.

Gandra também disse ser urgente a interrupção do requerimento 944, que cria a nova CPI.

"Efetivamente, há urgência na interrupção do prosseguimento do Requerimento nº 944, considerando a iminente possibilidade de, aprovado, retomarem-se as investigações sobre fato já investigado, sem justificativa para tanto", afirmou. Uma sessão de instalação do colegiado havia sido marcada para as 10h30 desta quinta-feira (20).

Nota na íntegra da Câmara Municipal

"Nota da Presidência

Em decorrência da decisão judicial proferida nos autos da ação ordinária Nº 5157308-02.2023.8.13.0024, a Câmara Municipal de Belo Horizonte esclarece e reitera que:

1 – É dever do Poder Legislativo defender a sua função fiscalizatória e os trabalhos de qualquer Comissão Parlamentar de Inquérito para apuração de responsabilidade sobre o abandono, o esgoto, a imundice e a sujeira da Lagoa da Pampulha, vez que demonstrada a ausência de relatório com as razões de contrariedade, na forma exigida pelo Regimento Interno;

2 – Nesse sentido, a Procuradoria do Poder Legislativo adotará, tão logo seja intimada, as medidas jurídicas apropriadas contra a decisão proferida, de modo a assegurar o dever constitucional de fiscalização desta Casa Legislativa;

3 - A instituição reitera seu compromisso com a legalidade e a transparência em todas as suas atividades. Como representantes eleitos pelos munícipes, é nosso dever zelar pela eficiência e pela integridade na gestão pública;

4 - A análise do processo em questão será conduzida de forma imparcial e criteriosa, respeitando todos os princípios constitucionais;

5 – Finalmente, qualquer atualização sobre o andamento do processo será prontamente divulgada à imprensa e à sociedade em geral, demonstrando nosso compromisso com a transparência.

Posto isso, a cidade de Belo Horizonte merece uma conclusão das investigações sobre a Lagoa da Pampulha e estranha a Prefeitura estar tão empenhada em impedir essas apurações.

Ainda assim, a simples ação da Câmara Municipal de Belo Horizonte mostrar que não aceitaria impassível as manobras do Poder Executivo já fez o Prefeito finalmente se mover depois de tanta lentidão, indo encontrar o governador para dizer que o prazo de limpeza foi reduzido de 5 anos para 3 anos sem, no entanto, explicar como isso se dará."

Há um resultado positivo para a cidade. Na política, cobrar funciona. A Câmara Municipal de Belo Horizonte seguirá cumprindo o seu papel fiscalizando, legislando e representando."

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Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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Editor de política. Foi repórter no jornal O Tempo e no Portal R7 e atuou no Governo de Minas. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem MBA em Jornalismo de Dados pelo IDP.