Depoimento relâmpago de Ganem na Câmara de BH afasta chances de cassação via Legislativo
Comissão processante alega esvaziamento dos trabalhos devido a decisão judicial em favor do vereador e possibilidade de cassação se resumem aos trâmites judiciais

O vereador Lucas Ganem (Podemos) foi ouvido pela comissão processante que apura a possibilidade de cassar seu mandato na manhã desta quarta-feira (20) na Câmara Municipal de Belo Horizonte. Investigado por possível fraude no domicílio eleitoral no pleito de 2024, o parlamentar nascido em São Paulo compareceu à sessão protegido por decisão judicial que impede o grupo de lhe fazer questionamentos sobre o tema da denúncia em si. Esvaziada, a reunião não durou dez minutos.
A sessão se limitou a um depoimento em que Ganem afirma que reside em Belo Horizonte desde que foi eleito, a partir de novembro de 2024. Ele também afirmou que o funcionários de seu gabinete também moram na capital mineira. O parlamentar é natural de Indaiatuba-SP e integra um grupo de políticos que se aventurou eleitoralmente em diferentes estados sob a bandeira da defesa da causa animal.
Ao fim da reunião, Ganem preferiu não dar entrevistas por orientação de seu advogado. O vereador também não quis confirmar se disputará a eleição para deputado estadual em outubro, mantendo a questão aberta para negociações futuras com seu partido.
No fim do ano passado, a Câmara Municipal de BH aprovou a criação de uma comissão processante para averiguar denúncias que apontavam para o fato de Ganem não ter residência fixa na capital ao menos seis meses antes das eleições, conforme determinado pela Legislação Eleitoral.
O grupo composto pelos vereadores Bruno Miranda (PDT), o presidente; Edmar Branco (PCdoB), o relator; e Helton Júnior (PSD), começou a ouvir testemunhas em janeiro, mas o parlamentar investigado conseguiu uma decisão judicial que suspendeu os trabalhos da comissão em fevereiro.
Neste mês, a comissão conseguiu uma liminar que permitiu a retomada dos trabalhos. No entanto, o grupo não pode se debruçar sobre os temas já investigados na Justiça Eleitoral. Sem poder tratar sobre o cerne da denúncia, os trabalhos para a cassação de Ganem na Câmara foram esvaziados e perderam força.
O debate na Justiça
Com a comissão processante da Câmara sem munição, o foco da defesa do vereador agora deve se focar exclusivamente nos trâmites judiciais. Ganem já foi condenado em primeira instância, mas recorreu do processo e aguarda um novo julgamento.
As primeiras suspeitas sobre a possível fraude eleitoral cometida por Ganem foram publicadas originalmente pelo portal O Fator já em outubro de 2024, semanas após a eleição. A reportagem mostrou também que o então vereador eleito integra uma família de candidatos que se baseia na defesa dos direitos dos animais para montar campanhas supraterritoriais em diferentes cidades e estados do país.
O caso então passou a ser formalmente investigado. Rubão, primeiro suplente do Podemos, acionou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Em dezembro de 2025, a corte determinou a cassação do parlamentar. Ganem recorreu da decisão e o caso ainda não foi avaliado por instâncias superiores.
Um mês antes, em novembro de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) já havia emitido um parecer pela cassação do vereador. O documento apontava que a própria Justiça Eleitoral teve dificuldades de encontrar o então candidato no endereço informado como seu domicílio na capital mineira.
No início de abril, a Polícia Federal indiciou Lucas Ganem por fraude na apresentação de domicílio eleitoral. O inquérito concluiu que o parlamentar nunca morou na cidade, apesar de tê-lo alegado ao registrar sua candidatura.
A conclusão da investigação apontou que Ganem nunca residiu ou sequer pernoitou no endereço fornecido à Justiça Eleitoral como sua residência no Bairro Trevo, na região da Pampulha. Segundo o inquérito, a informação foi corroborada por documentos do proprietário do imóvel, moradores locais e o próprio investigado.
Em dezembro de 2025, Ganem pediu uma licença de quatro meses na Câmara de BH e ficou afastado até o mês passado. Neste ínterim, o parlamentar chegou a declarar que pretende concorrer a deputado estadual no pleito de outubro.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.
