STF: ministro Flávio Dino 'escala embate' com Mendonça ao anular decisão sobre Nossa Senhora
Na sexta (25), na condição de ministro do TSE, Mendonça havia determinado que plataformas digitais removessem todas as publicações relacionadas ao conteúdo, por considerá-las 'notoriamente inverídicas'

Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), aumentou a tensão interna na Suprema Corte ao cassar, pela segunda vez, uma decisão do colega André Mendonça neste domingo (27). O caso envolve a remoção de publicações digitais sobre uma fake news que associa o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e sua família à intenção de retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
Na sexta-feira (25), na condição de ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Mendonça havia determinado que plataformas digitais removessem todas as publicações relacionadas ao conteúdo, por considerá-las "notoriamente inverídicas".
Uma das pessoas afetadas pela medida foi o humorista Antonio Tabet, que, em um post no X (antigo Twitter), escreveu: "A família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!".
Após a remoção, Tabet recorreu a um processo já existente no STF, no qual Flávio Dino havia cassado uma decisão anterior do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) para restabelecer um vídeo sobre a inelegibilidade de Deltan Dallagnol. O humorista pediu a Dino que o resultado daquele caso fosse estendido a ele.
O ministro acolheu o pedido e derrubou a decisão de Mendonça. Para ele, a determinação do colega produziu censura prévia, o que seria especialmente preocupante durante o período eleitoral, quando é necessária maior cautela com a interferência do Estado na liberdade de expressão e religiosa dos cidadãos.
Dino também afirmou que não era possível concluir que a publicação de Tabet fosse ilegal. Segundo ele, isso exigiria presumir que a expressão "família miliciana", usada pelo humorista, era uma referência direta a Flávio Bolsonaro.
Especialistas ouvidos pela CNN divergem sobre se a decisão de Dino é regular ou se representa uma invasão indevida nas competências do TSE. A crise no STF é um tema em debate, segundo professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A doutora em Direito Processual Civil, Rogéria Dotti, afirma que a decisão abre um precedente "perigosíssimo". Ela defende que a liberdade de expressão não é um direito absoluto e que, havendo uma fake news eleitoral, o TSE é quem deve ter a última palavra.
"O que se teme é uma guerra de liminares em que as Cortes estejam colocadas em lados opostos. As cortes devem trabalhar, como diz a Constituição, em perfeita harmonia. No âmbito eleitoral, quem dá a última palavra é o TSE, e o STF só pode agir se houver, realmente, uma violação a uma garantia fundamental", disse.
Já o doutor em direito constitucional João Carlos Souto defende que não há "nenhuma perplexidade" na decisão de Dino no que diz respeito a competências de tribunais ou de o Supremo estar "atropelando" o TSE.
"A Constituição prevê essa possibilidade. O STF é o tribunal que dá a última palavra a respeito do direito no Brasil. [...] O ministro Flávio Dino entendeu que a decisão impugnada feria a Constituição no que diz respeito à liberdade de expressão e feria precedentes do Supremo", afirmou.
A decisão, porém, ocorre em meio a uma das maiores crises recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), na qual Dino e Mendonça estão em lados opostos. Não é a primeira vez que Dino derruba uma decisão de Mendonça. No início do mês, o ministro determinou a recondução do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, ao cargo. Ele havia sido afastado das funções por Mendonça um dia antes.
Na ocasião, Dino fez críticas diretas ao colega. Afirmou que o Estado Democrático de Direito não permite aos ministros "impor seus apetites ou vontades segundo o próprio tempo".
Também classificou a decisão de Mendonça como uma medida sem precedentes, capaz de interromper centenas de investigações urgentes no país, entre elas apurações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, esquemas de corrupção no Judiciário, uso ilícito de precatórios e atuação de organizações criminosas.
Disse ainda que quaisquer "divergências pessoais" que Mendonça tiver com a PF não podem servir de base para que ele utilize a Suprema Corte para benefício próprio.
Mendonça não se manifestou publicamente sobre a decisão. Segundo apurou a CNN, porém, o ministro procurou o presidente do STF, Edson Fachin, para pedir providências. Ele teria alertado Fachin sobre a necessidade de alguma medida diante do que classificou, segundo relatos, como uma decisão "ilegal".
A crise sem precedentes entre os ministros teve início no primeiro dia de setembro, quando Mendonça, relator dos inquéritos sobre o Banco Master, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que continha registros de conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do banco.
As mensagens indicam que Vorcaro pedia a Moraes que atuasse junto ao diretor-geral da PF e ao procurador-geral da República para conter o avanço das investigações sobre o banco.
Como um contra-ataque, Moraes usou o inquérito das fake news para pedir a Fachin a abertura de uma investigação contra Mendonça por suposto abuso de poder e favorecimento de grupos políticos na condução dos casos relacionados ao Banco Master e às fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Como fundamento, utilizou relatórios de inteligência da PF.
Na divisão da Corte, Dino é um dos aliados mais próximos de Alexandre de Moraes e, além de determinar a recondução de Andrei Rodrigues, tomou outras decisões destinadas a atingir o outro lado da disputa.
Uma delas foi a retirada do sigilo de informações envolvendo o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). O material indica que o deputado era procurado para interceder junto ao ministro Kassio Nunes Marques em assuntos de interesse que tramitavam no Supremo.
Dino também determinou o envio a Fachin de provas que, segundo ele, indicariam possível conflito de interesses na atuação de Mendonça em um processo sobre a concessão de cemitérios em São Paulo, no qual empresas de Daniel Vorcaro tinham interesse direto.
Além disso, foi Dino quem sugeriu uma questão de ordem e fez o pedido de vista que paralisou, por até 90 dias, a análise de uma eventual abertura de investigação contra Moraes em razão das mensagens trocadas com Vorcaro.
O pano de fundo das discussões é a eleição presidencial de 2026. A ala aliada ao ministro Alexandre de Moraes acusa Mendonça de tentar prejudicá-lo como uma forma de fortalecer a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Mendonça nega ter qualquer intenção eleitoreira. Diz que sempre agiu de acordo com o regimento da Suprema Corte e comparou decisões em que determinou a quebra de sigilos de investigados ligados a diferentes grupos políticos para sustentar que adotou o mesmo tratamento nos dois casos. Segundo o ministro, a ala aliada a Moraes distorce fatos e tenta atribuir a ele condutas falsas como uma manobra de intimidação.
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