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123milhas: relatório de CPI pede indiciamento de donos e parentes

Relatório indica que o grupo movimentou cerca de R$ 40 bilhões desde 2019; 123milhas é acusada de pirâmide financeira

O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga pirâmides financeiras no Brasil, deputado Ricardo Silva (PSD-SP), apresentará em sessão na noite de segunda-feira (9) o relatório final da devassa. Três horas antes, ele antecipou que o documento pedirá à Justiça os indiciamentos dos irmãos Ramiro Júlio Soares Madureira e Augusto Júlio Soares Madureira, dois dos três sócios à frente do grupo de viagens 123Milhas. Diretores e parentes dos Madureira também constam no pedido de indiciamento que será remetido se houver aprovação do relatório na reunião da CPI.

A empresa de negociação de passagens aéreas e pacotes de viagem cancelou a emissão de bilhetes e outros serviços adquiridos por clientes. À crise sucederam demissões em massa no escritório em Belo Horizonte e um pedido de recuperação judicial protocolado na Vara Empresarial da capital mineira. O relator Silva classificou o modelo de negócios da 123Milhas como ‘uma das maiores pirâmides financeiras no Brasil, nos últimos anos’. Segundo detalhou à Itatiaia nesta segunda à tarde, o grupo movimentou cerca de R$ 40 bilhões nos últimos quatro anos.

A CPI chegou à 123Milhas após a empresa revelar a suspensão da emissão dos pacotes vendidos e detectou ali a possibilidade do grupo operar em um modelo de pirâmide. O negócio não era sustentável, segundo detalhou o deputado na segunda-feira passada. “O modelo era insustentável desde o início em razão dos fluxos bancários. Por exemplo, se entrava R$ 1.000, eles gastavam R$ 1.500", pontuou. “Sempre entrava menos que saía. E como eles mantinham? Com empréstimos bancários altos e atraindo mais clientes com publicidade”, concluiu.

Ricardo Silva indicou ainda que, no início das investigações, a CPI avaliava que as fraudes ligadas à 123Milhas se referiam apenas ao plano promocional, o que não se sustentou. “Começamos a entender que a empresa opera em situação ilícita desde 2019. Levantamos que era uma empresa insustentável e eles, de fato, se mantinham trazendo mais clientes, cada vez mais clientes. O que justifica os gastos com publicidade”, afirmou. “E para o dinheiro ficar com eles [sócios], os gastos com publicidade eram feitos com a agência do pai. Era um negócio triangulado”, cravou.

CPI das Pirâmides. Além dos negócios da empresa de viagens lotada em Belo Horizonte, a Comissão Parlamentar de Inquérito igualmente se debruçou sobre outros grupos com modelos suspeitos e semelhantes a uma pirâmide financeira. Não à toa, o relatório será apresentado à Câmara dos Deputados solicitando à Justiça os indiciamentos de mais de 40 pessoas. O relator ainda não confirmou se Ronaldinho Gaúcho e o irmão Assis Moreira estão entre os listados.

No mês passado, a CPI conseguiu a quebra dos sigilos bancário e fiscal do ex-esportista. Ele e o irmão são investigados por suposta fraude em pirâmide financeira e marketing multinível a partir do uso de criptomoedas através da 18K Ronaldinho.

Ronaldinho Gaúcho depôs à CPI em agosto

Estrela da Seleção Brasileira e de clubes como Atlético e Flamengo, Ronaldinho Gaúcho compareceu de forma espontânea à CPI das Pirâmides Financeiras após faltar em duas ocasiões anteriores — o que levou, aliás, a um pedido da CPI para que a Polícia Federal (PF) o conduzisse coercitivamente.

No início de suas declarações, o ídolo do Atlético negou envolvimento com a 18K Ronaldinho e afirmou que os proprietários usaram indevidamente sua imagem para negociar moedas digitais em 2019. “Diferente do que está sendo divulgado, não é verdade que sou fundador e sócio da 18K Ronaldinho. Nunca fui sócio da 18K Ronaldinho”, afirmou à época.

O atleta ressaltou que 18K Ronaldinho era uma linha de relógios licenciada pela 18K Watches, uma marca que contratou sua imagem. A empresa de criptomoedas, então, teria usado fotografias do jogador para negociar moedas digitais. “Utilizaram as fotos que eram da propaganda do relógio”, reforçou o ex-jogador. “Mesmo tendo ciência que estavam usando sua imagem, o senhor se calou? O senhor não tomou nenhuma atitude”, perguntou o relator Ricardo Silva. “Vou ficar em silêncio”, respondeu Ronaldinho Gaúcho.

O irmão Assis Moreira apareceu em incontáveis respostas do esportista à CPI das Pirâmides Financeiras. Ronaldinho atribuiu ao irmão — e empresário — a obrigação de ler e assinar seus contratos empresariais. Em depoimento em 24 de agosto, Assis Moreira afirmou à CPI das Pirâmides que conhecia Marcelo Lara, co-fundador da 18K Ronaldinho, e indicou que ele participou de sessões de foto da 18K Watches. “Encontrei algumas vezes em dias de gravação”, afirmou Ronaldinho à CPI.

O ex-jogador declarou que Assis, quando descobriu sobre o uso indevido da imagem, decidiu romper o contrato com a 18K Watches. “Quando meu irmão percebeu que eles estavam usando minha imagem indevidamente, ele cancelou o contrato”, garantiu.

Repórter de política em Brasília. Na Itatiaia desde 2021, foi chefe de reportagem do portal e produziu série especial sobre alimentação escolar financiada pela Jeduca. Antes, repórter de Cidades em O Tempo. Formada em jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais.
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