Por que os hamsters passam horas correndo em rodinhas? Ciência revela o que acontece
Pesquisas mostram que o hábito de correr não é causado pelo tédio da gaiola e pode estar ligado à dopamina

Quem já teve um hamster em casa provavelmente conhece a cena: quando a noite chega, o pequeno roedor sobe na roda e começa a correr por longos períodos, muitas vezes sem parar. Durante décadas, esse comportamento foi associado ao estresse, ao tédio ou aos efeitos da vida em cativeiro. No entanto, novas pesquisas indicam que essa explicação pode estar incompleta.
Estudos recentes sugerem que correr na roda faz parte de um impulso natural dos roedores e está relacionado à forma como o cérebro responde à atividade física. A prática pode ativar mecanismos de recompensa que fazem o animal sentir uma experiência positiva e querer repetir o comportamento.
O experimento que mudou a visão da ciência
Uma das pesquisas que mais influenciou essa mudança de entendimento foi conduzida pela neurobióloga holandesa Johanna Meijer. Em vez de observar apenas animais criados em gaiolas, ela instalou rodas de exercício em ambientes naturais e monitorou o comportamento de animais selvagens durante mais de três anos.
As câmeras registraram que ratos silvestres utilizavam as rodas espontaneamente, mesmo sem viverem em cativeiro. Inicialmente, havia alimento próximo aos equipamentos para atrair os animais, mas, mesmo depois da retirada da comida, eles continuaram voltando para correr.
Os resultados mostraram que o hábito não depende de uma recompensa imediata nem do confinamento. Segundo a conclusão do estudo, "os ratos selvagens correm na roda como seus pares enjaulados, o que indica que esse comportamento não é apenas produto do cativeiro".
Explicação pode estar na dopamina
Para entender o motivo desse comportamento, pesquisadores passaram a investigar o funcionamento do cérebro dos roedores.
O biólogo Theodore Garland Jr., que estuda esse tema há mais de três décadas, afirma que uma das principais explicações envolve a dopamina, neurotransmissor ligado ao sistema de recompensa cerebral.
Segundo ele, "a dopamina é vista como o denominador comum", pois ativa regiões do cérebro responsáveis pela sensação de recompensa. Em outras palavras, correr pode proporcionar aos roedores uma experiência semelhante à sensação de bem-estar que muitas pessoas sentem após praticar exercícios físicos.
Experimentos conduzidos por Garland também mostraram que alguns animais continuam correndo mesmo quando poderiam simplesmente sair da roda. Em determinadas situações, eles chegam a realizar pequenas acrobacias antes de continuar a atividade, um comportamento que reforça a hipótese de que a corrida oferece algum tipo de benefício para eles.
Nem todos os animais apresentam esse comportamento
Os pesquisadores observaram que outros animais também se aproximaram das rodas durante o estudo, como rãs, musaranhos e lesmas. No entanto, nenhum deles utilizou o equipamento com a mesma frequência dos roedores.
A explicação pode estar nas características biológicas desse grupo. Os roedores possuem metabolismo acelerado, elevada capacidade aeróbica e, na natureza, costumam percorrer grandes distâncias em busca de alimento ou para escapar de predadores.
Como explica Garland, "um sapo não vai correr 10 quilômetros em um dia, enquanto um esquilo poderia fazer isso". Essas diferenças ajudam a entender por que o impulso para correr aparece com tanta intensidade justamente entre os roedores.
O hábito pode começar ainda na juventude
As pesquisas também indicam que o contato precoce com rodas de exercício influencia o comportamento dos animais ao longo da vida.
Roedores que tiveram acesso ao equipamento desde jovens demonstraram maior tendência a permanecer fisicamente ativos quando adultos. Os cientistas acreditam que essa experiência ajuda a fortalecer os circuitos cerebrais dos hamster relacionados à recompensa, tornando o exercício um hábito duradouro.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



