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Um mês de guerra no Oriente Médio: especialistas avaliam impactos do conflito

Conflito gerado com a morte do ex-aiatolá Ali Khamenei completa primeiro mês de duração e notam-se primeiros impactos

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Autoridades iranianas pediram que a população deixe a capital Teerã
Capital do Irã, Teerã, é devastada em meio a ataques da guerra • AFP

Neste sábado (28), a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã completa um mês, com marco nos ataques que levaram à morte do então líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. O período do conflito, inclusive, já ultrapassa a expectativa inicial do presidente estadunidense Donald Trump, que indicou, no início dos ataques, uma duração máxima de quatro semanas para o embate.

Embora seja difícil precisar o número de mortos no conflito por conta das restrições de comunicação que o Irã vive, a mídia estatal divulgou que pelo menos 1.750 morreram e outras 22.800 pessoas morreram com os ataques.

Como forma de retaliar os ataques sofridos, o país asiático iniciou bombardeios em países aliados aos Estados Unidos, como o Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Jordânia e Iraque, além de promover o fechamento do Estreito de Ormuz, que conecta o país aos EAU.

O Estreito de Ormuz se tornou um ponto central no conflito por conta de sua importância para a economia global. A região, dominada pelo governo iraniano, é responsável por 20% do tráfego de petróleo e gás natural de todo o globo, o que levou ao escalonamento dos preços do hidrocarboneto nas bolsas globais.

Como o conflito no Irã afeta a economia global?

“Quanto mais tempo levar para o conflito cessar e a reconstrução começar efetivamente, porque depois do conflito não vai voltar tudo ao normal, afinal, não só o Irã, mas vários países da região tiveram sua infraestrutura de produção de energia, de gás, petróleo, diesel, refinarias comprometidas”, dimensiona o pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Leonardo Paz, sobre o impacto do conflito no Oriente Médio.

“Tem possibilidade de reconstrução, então a gente não sabe quanto tempo isso vai levar ainda para reconstruir, quantas mais vão vão quebrar”, completa. Os Estados Unidos e Israel promoveram ataques em diversos pontos de produção energética iranianos no decorrer do conflito.

Sobre o aumento dos preços do combustível, o professor alerta que “quando os estoques acabarem, ou chegarem próximos do fim, o impacto vai ser muito maior, porque a preocupação de todo mundo vai ser ficar sem petróleo”. Os aumentos dos valores, no momento, seriam a iminência da possibilidade de ficar sem o recurso.

No cenário brasileiro, o professor de Direito Internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), José Luiz Quadros, destaca que os impactos refletem “muito mais especulação que efetivamente um prejuízo real. Inclusive, segundo ele, o governo federal tomou medidas importantes com a retirada da tributação”

Para ele, “falta responsabilidade, inclusive social, com o país das pessoas que estão aproveitando esse momento para especulação”.

Guerra atinge diversos países da região

Com o avanço do conflito no Oriente Médio, uma série de países da região foi alvo de ataques e incursões, como o caso do Líbano, que enfrenta avanços israelenses na região Sul de seu território.

Israel, que já tomou cerca de 30km do território libanês com o avanço por terra, diz que pretende expandir a “Zona Tampão” no país, sob a escusa de proteger sua população do grupo paramilitar Hezbollah.

De acordo com o Ministério da Saúde do Líbano, em levantamento divulgado no dia 19 de março, mais de mil pessoas já morreram durante o conflito e pelo menos 111 crianças estão entre as vítimas.

O professor José Luiz Quadros compara a ação israelense no território libanês com o que é realizado na Palestina, território que mantém conflito com Israel há mais de 60 anos.

“Israel atacando o Líbano, destruindo e matando os civis num novo conceito de guerra que utiliza inteligência artificial. Israel já fez isso em Gaza e está fazendo agora no Líbano, onde eles identificam pessoas que podem significar, no entendimento deles, um perigo para Israel e matam a família toda, destroem edifícios. Agora estão fazendo no Líbano, inclusive ameaçando um percentual do território libanês”, lamenta o professor.

Sendo rodeada por território israelense, os palestinos foram impedidos de frequentar mesquitas durante o ramadã, mês sagrado para a religião muçulmana, predominante no território, além de uma morte por ataque iraniano ter sido registrada na véspera Eid al-Fitr, cerimônia que marca o fim do período.

O conflito em vigor representa uma ameaça grave para a segurança alimentar mundial para a diretora da Organização Mundial do Comércio (OMC), que solicitou que as cadeias globais de abastecimento permaneçam abertas.

O embate entre Estados Unidos e Israel contra o Irã "ameaça a segurança alimentar global, já que as interrupções no transporte e o aumento dos custos energéticos reduzem a oferta e elevam o preço dos fertilizantes", disse Ngozi Okonjo Iweala à jornalistas em Genebra.

"Uma interrupção prolongada no fornecimento poderia se espalhar pelos sistemas alimentares, o que levaria os agricultores a reduzir o uso de fertilizantes e a cultivar menos culturas intensivas em insumos", acrescentou.

Acordo nuclear entre EUA e Irã

No início de fevereiro, representantes de Estados Unidos e Irã negociavam em Omã um possível acordo nuclear entre os países que buscava restringir a criação de um arsenal pelo exército iraniano.

“Não há arsenal nuclear do Irã. Então, como na guerra no Iraque também não haviam armas de destruição em massa e eles atacaram centenas de milhares de pessoas por supostas armas que não existiam, é também o caso do Irã”, explica o professor José Luiz Quadros. 

“Esse ataque para destruir o arsenal, na verdade, a pesquisa nuclear do Irã é mais uma ação irresponsável do ‘Império Norte-Americano’, o império que mais começou guerras na história da humanidade”, conclui.

Para Leonardo Paz, é difícil “ver um cenário pós-conflito em que o Irã realmente aceita fazer um acordo, tendo ele sido atacado duas vezes no meio de negociações de acordo, no ano passado e neste ano, tendo feito um acordo e o Trump ignorado em menos de um ano”.

Acordo de paz entre EUA, Israel e Irã

Representantes dos Estados Unidos informaram que um plano de paz foi enviado ao Irã a fim de encerrar o conflito no Oriente Médio. Os detalhes da possível proposta foram revelados pelas imprensas americana e israelense nessa terça-feira (24).

Conforme indica a imprensa estrangeira, o plano de paz dos Estados Unidos tem 15 pontos e envolve os programas nuclear e de mísseis balísticos do Irã. Um possível rascunho obtido pelo Canal 12, de Israel aponta que, entre as exigências dos EUA, estão:

  • O compromisso do Irã de não desenvolver armas nucleares;
  • A limitação do alcance e da quantidade de mísseis;
  • A desativação das usinas de enriquecimento de urânio de Natanz, Isfahan e Fordow;
  • O fim do financiamento a grupos aliados na região, como Hamas e Hezbollah;
  • A criação de uma zona marítima livre no Estreito de Ormuz.

Em contrapartida, uma conta do X, antigo Twitter, atribuída a Mohammad-Bagher Ghalibaf publicou que nenhuma negociação ocorreu com os EUA, chamando tudo de "fake news" para manipular os mercados de petróleo.

Para Leonardo Paz, a tentativa de acordo dos EUA reflete, em certo nível, um “desespero” do país, que subestimou a potência iraniana. 

“Eles obviamente não calcularam ou não levaram em conta as vozes que indicavam esse tipo de reação da cúpula do Irã, em que parece que perdeu o seu o seu chefe de estado, assumiu rapidamente um outro no lugar e com disposição semelhante de conflito”, aponta. O professor entende que o Irã não deve se render tão brevemente.

Por sua vez, José Luiz Quadros diz que “o Irã coloca [a guerra e o acordo de paz] como uma derrota norte-americana e efetivamente é o que a gente assiste. Alguns especialistas do tema apontam que o Trump tem o seu Vietnã, só que a guerra do Vietnã durou muito tempo e no final da guerra os Estados Unidos perderam. Essa guerra tem já [tempo] além do tempo esperado, mas mesmo assim tem um mês”.

(Sob supervisão de Lucas Borges)

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Gustavo Monteiro é estagiário do Portal Itatiaia e estudante de jornalismo na UFMG. Natural de Santos-SP, possui passagens pela Revista B&R e Secretaria do Estado de Minas de Comunicação Social.