Roteirista de filme indicado ao Oscar é preso no Irã

Mehdi Mahmoudian, co-roteirista de “Foi Apenas Um Acidente” foi preso no último sábado (31)

Foi Apenas Um Acidente

Mehdi Mahmoudian, um dos roteiristas do longa Foi Apenas um Acidente, que concorre ao Oscar de Melhor Filme Internacional e também disputa a categoria de Melhor Roteiro Original, foi preso no último sábado (31), em Teerã, no Irã. Ele foi detido ao lado de outros dois signatários de uma carta que critica ações do governo iraniano.

O roteiro do filme foi escrito em parceria por Mehdi Mahmoudian, o diretor Jafar Panahi, além de Nader Saïvar e Shadmehr Rastin. Segundo informações da revista Variety, a carta que motivou a prisão reúne 17 signatários, entre eles o próprio Jafar Panahi. O cineasta já havia sido preso anteriormente, acusado de fazer propaganda contra o governo do Irã.

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No documento, os autores denunciam brutalidades que vêm sendo cometidas pelo governo iraniano em meio a uma grande onda de protestos contra representações religiosas no país.

“O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que corajosamente saíram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime organizado de Estado contra a humanidade. O uso de munição real contra civis, o assassinato de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de outras dezenas de milhares, o ataque a feridos, a obstrução de cuidados médicos e o assassinato de manifestantes feridos equivalem a nada menos do que um ataque à segurança nacional do Irã e uma traição ao país”, afirma um trecho da carta.

Em suas redes sociais, Jafar Panahi publicou um comunicado repudiando a prisão do colega e manifestando solidariedade. No texto, o diretor relata que conheceu Mahmoudian na prisão, quando ambos eram presos políticos, e que posteriormente pediu sua colaboração para tornar o roteiro do filme mais refinado.

Foi Apenas um Acidente acompanha a história de quatro ex-condenados pelo regime iraniano que acreditam ter identificado seu antigo torturador. O filme está atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros.

Confira a íntegra do comunicado publicado por Jafar Panahi

“Conheci Mehdi Mahmoudian na prisão. Desde os primeiros dias, ele se destacava não apenas pela serenidade e pela postura humana, mas também por um raro senso de responsabilidade em relação aos outros. A cada novo detento que chegava, Mehdi se empenhava em providenciar o básico para ele e, mais importante ainda, em lhe transmitir tranquilidade. Tornou-se um apoio silencioso dentro da prisão; alguém em quem presos de todas as crenças e convicções confiavam e com quem compartilhavam suas dores e desabafos.

Passamos sete meses juntos atrás das grades. Alguns meses após sua libertação, enquanto eu trabalhava no roteiro de “Um Simples Acidente”, pedi sua ajuda para lapidar os diálogos. Os nove anos de prisão lhe deram um conhecimento direto do sistema judiciário e do ambiente carcerário e, somados à sua ampla atuação de campo na área dos direitos humanos, fizeram dele uma fonte confiável e sólida para consultoria.

Quarenta e oito horas antes de sua prisão, falamos por telefone e, depois disso, trocamos algumas mensagens. A última eu lhe enviei às quatro da manhã. Até o meio-dia do dia seguinte, não houve resposta. Fiquei preocupado e entrei em contato com amigos em comum; ninguém tinha notícias dele. Pouco depois, a BBC Persian anunciou oficialmente que Mehdi Mahmoudian havia sido preso junto com Abdollah Momeni e Vida Rabbani.

Mehdi Mahmoudian não é apenas um ativista de direitos humanos com quase nove anos de histórico de prisão; ele é testemunha, ouvinte e uma presença ética rara — uma presença cuja ausência é sentida imediatamente, tanto dentro dos muros da prisão quanto além deles.”

Maria Luíza Mendes é estagiária do portal Itatiaia e estudante de jornalismo na PUC Minas. Apaixonada por esportes e entretenimento, Maria possui experiência anteriores em outros portais online e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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