Prefeitura de Congonhas foi alertada sobre lama em rio antes de extravasamentos

Denúncia cita alto volume de lama sendo carreado para o Rio Maranhão dois dias antes dos vazamentos

Primeiro vazamento registrado no domingo (25), nas Minas de Fábricas, alagou as dependências da CSN Mineração

Dois dias antes dos extravasamentos registrados nesse domingo (25), em Congonhas, na Região Central de Minas Gerais, a população já havia formalizado uma denúncia à Secretaria Municipal de Meio Ambiente. O documento cita “alto volume de lama sendo carreado para o Rio Maranhão”.

A denúncia foi feita por Sandoval Pinto, diretor de meio ambiente da União de Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccon). Ele destacou que houve “carreamento de sólidos em grande volume para curso d'água que cruza a ferrovia, com nascente em áreas da CSN Mineração, que estão sendo descapeadas”.

O primeiro vazamento registrado no domingo (25), nas Minas de Fábricas, alagou as dependências da CSN Mineração. Houve vazamento de 263 mil metros cúbicos de água turva, com sedimentos de minério.

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Na quinta-feira (22), o ambientalista também alertou sobre as águas no Parque da Cachoeira, em Congonhas. Na denúncia, ele destacou que havia “carreamento de sólidos finos com características de minério de ferro na piscina natural do parque”.

A prefeitura confirma que recebeu as denúncias. Em nota enviada à Itatiaia, o município diz que “vistorias foram realizadas após o recebimento de denúncias e tiveram caráter preventivo e técnico” e citou “problemas de drenagem e danos ambientais decorrentes do carreamento de resíduos da atividade minerária”.

“Durante as inspeções, foram constatados episódios de carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem das vias internas da mineradora. No Dique do Fraille, na região do bairro Plataforma, verificou-se carreamento significativo de resíduos, situação que motivou a exigência de adequações estruturais, de forma que a estrutura passe a suportar adequadamente o elevado volume de material proveniente de diferentes direções, evitando riscos de extravasamento. Já na Cachoeira de Santo Antônio, foi observado carreamento de material por fortes enxurradas no sentido do Rio Santo Antônio”, diz trecho do comunicado.

Sandoval ainda explica que o Rio Maranhão, atingido pela água turva dos extravasamentos, é um afluente do Rio Paraopeba. “Nós estamos no Alto Paraopeba, o poço do rio aqui não fica tão longe”.

Por causa da proximidade e da dinâmica da água na região, o Rio Paraopeba provavelmente já foi atingido pela água turva. “Naturalmente chega ao Paraopeba, porque é o único lugar que tem para a água ir embora. Ela só escoa pelo Paraopeba, não escoa por outro lugar”, explicou o diretor de meio ambiente da Unaccon.

Dois extravasamentos em menos de 24 horas

De acordo com a Prefeitura de Congonhas, o primeiro vazamento, registrado nas Minas de Fábrica, aconteceu depois do rompimento de uma barreira de contenção de água. O líquido atravessou o dique Freitas e seguiu carreando sedimentos e rejeitos de mineração, provocando impactos ambientais.

Depois de menos de 24 horas, houve um segundo extravasamento de água com sedimentos na mina Viga. Um sump da Vale se rompeu e atingiu a estrada Esmeril, a cerca de 23 km do local da primeira ocorrência.

A Vale informou que já suspendeu operações nas duas minas, após receber ofício da prefeitura de Congonhas com suspensão do licenciamento. A notificação e a paralisação das atividades ocorreram nessa segunda-feira (26).

O Governo de Minas Gerais afirmou nessa segunda-feira (26) que autuará a Vale por danos causados e demora na comunicação dos extravasamentos. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) determinou que a Vale cumpra uma série de medidas emergenciais, como:

  • Ações de limpeza do local afetado;
  • Monitoramento do curso d’água atingido;
  • Plano de recuperação ambiental para limpeza das margens, desassoreamento e demais medidas necessárias à recuperação do curso d’água afetado.

Nota da Vale

A Vale esclarece que os extravasamentos de água identificados em Congonhas e Ouro Preto no domingo (25) foram contidos. Ninguém ficou ferido e a população e as comunidades próximas não foram afetadas.

Nenhuma das duas situações tem qualquer relação com as barragens da Vale na região, que seguem sem alterações nas suas condições de estabilidade e segurança e são monitoradas 24 horas por dia, 7 dias por semana. A Vale esclarece, ainda, que não houve carreamento de rejeitos de mineração, apenas água com sedimentos (terra).

A Vale realiza periodicamente ações preventivas de inspeção e manutenção de suas estruturas, que são seguras. A empresa reforça esses procedimentos durante o intenso período chuvoso. As causas dos dois extravasamentos estão sendo apuradas e os aprendizados extraídos serão imediatamente incorporados aos planos de chuva da companhia. A Vale segue à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários.

Nota da prefeitura de Congonhas

A Prefeitura de Congonhas esclarece que, conforme vistorias realizadas pela fiscalização ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, no período de 23 a 27 de janeiro de 2026, na área interna da CSN Mineração, não foi identificada qualquer situação de rompimento de sumps ou de outras estruturas do empreendimento.

As vistorias foram realizadas após o recebimento de denúncias e tiveram caráter preventivo e técnico. Durante as inspeções, foram constatados episódios de carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem das vias internas da mineradora. No Dique do Fraille, na região do bairro Plataforma, verificou-se carreamento significativo de resíduos, situação que motivou a exigência de adequações estruturais, de forma que a estrutura passe a suportar adequadamente o elevado volume de material proveniente de diferentes direções, evitando riscos de extravasamento. Já na Cachoeira de Santo Antônio, foi observado carreamento de material por fortes enxurradas no sentido do Rio Santo Antônio.

Diante das constatações iniciais, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas emitiu comunicações e ofícios em caráter emergencial, ainda na sexta-feira, solicitando à CSN Mineração esclarecimentos técnicos atualizados sobre a integridade, a estabilidade e a gestão de riscos das estruturas associadas à atividade minerária no município. A empresa respondeu dentro do prazo estabelecido, informando que não foram identificadas anomalias estruturais.

Ainda que nenhuma estrutura tenha se rompido, ao longo das vistorias, a fiscalização ambiental identificou problemas de drenagem e danos ambientais decorrentes do carreamento de resíduos da atividade minerária que atingiram corpos d’água, ainda que classificados como de natureza moderada. Em razão disso, o Município adotará as medidas administrativas cabíveis, incluindo a lavratura de autos de infração contra o empreendimento.

A Defesa Civil Municipal também realizou vistoria na área na tarde desta terça-feira, 27 de janeiro, após denúncia de moradores, e confirmou as mesmas condições identificadas pela fiscalização ambiental, reforçando que não houve risco à integridade física de pessoas, restringindo-se os impactos aos danos ambientais já descritos.

A Prefeitura de Congonhas segue acompanhando a situação de forma rigorosa e permanente, mantendo o monitoramento técnico das áreas afetadas e adotando todas as providências legais necessárias para a proteção do meio ambiente, a prevenção de novos impactos e a segurança da população.

Formada em Jornalismo pela Puc Minas, Paula Arantes produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil, Mundo, Orações e Entretenimento no portal da Itatiaia. Atualmente, colabora com a editoria Meio Ambiente. Antes, passou pelo jornal Estado de Minas.

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