Rota do Tropeiro: da arquibancada para a cidade, prato é um dos símbolos do futebol mineiro
Segundo episódio da série especial da Itatiaia e do Oncêvai conta como o "tropeirão" do Mineirão ajudou a transformar o feijão tropeiro em tradição dos dias de jogo

Se a origem do feijão tropeiro está nos caminhos percorridos pelos tropeiros dos séculos XVIII e XIX, uma parte importante da história moderna do prato foi escrita dentro dos estádios de futebol. Em Minas Gerais, poucas combinações são tão tradicionais quanto assistir a uma partida e saborear um “tropeirão".
No segundo episódio da série especial "Rota do Tropeiro - Feijão, Farinha e História", produzida pela Itatiaia em parceria com o Oncêvai, a reportagem mostra como o prato deixou as cozinhas familiares e ganhou as arquibancadas para se tornar um dos maiores símbolos da cultura futebolística mineira.
Uma das histórias mais emblemáticas está ligada ao antigo Bar 13, no Mineirão. O local ajudou a popularizar o tropeiro entre os torcedores e transformou a receita em uma marca registrada dos dias de jogo.
Uma tradição nascida no Mineirão
A história começou há cerca de 60 anos. Segundo Eliane Assis, proprietária do restaurante Tropeiro do 13, a família administrava três bares no Mineirão: os bares 11, 12 e 13.
O Bar 13 ficava na arquibancada inferior do estádio e recebia um público menor. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de comercializar o feijão tropeiro aos torcedores.

"A minha tia teve a ideia de colocar esse tropeiro e a minha mãe trabalhava com ela. Depois ela ofereceu esse bar para a minha mãe e ela deu continuidade por mais 34 anos. Aí começou a crescer muito", relembra.
Com o sucesso da receita, os torcedores passaram a procurar a origem do prato. O movimento foi tão grande que outros estabelecimentos do estádio começaram a adotar o tropeiro no cardápio.
As pessoas pegavam comigo, subiam para a arquibancada e começavam a perguntar de onde vinha aquela comida. Fomos nos aprimorando e todo mundo começou a colocar o tropeiro no Mineirão, porque ficou muito grande para um bar só.
A mesma receita, agora fora do estádio
Antes mesmo da reforma do Mineirão para a Copa do Mundo de 2014, Eliane decidiu levar a tradição para além das arquibancadas. Foi assim que nasceu o restaurante Tropeiro do 13, localizado na Avenida General Olímpio Mourão Filho, no bairro Planalto, Região Norte de Belo Horizonte.
O espaço preserva a mesma receita que conquistou gerações de torcedores e mantém viva uma memória afetiva ligada aos tempos do antigo Gigante da Pampulha.
"Vai fazer 20 anos que estou aqui. Minha mãe ficou algum tempo comigo, depois faleceu e eu continuei. Comecei a trazer as pessoas para cá novamente e fui criando uma nova história, mas com a mesma receita e a mesma maneira de fazer o tropeiro", explica Eliane.
Segundo ela, parte desse legado está na transmissão dos conhecimentos acumulados pela família ao longo das décadas.
"Fui passando os segredinhos da minha mãe para as pessoas que trabalham comigo. Tenho colaboradores que estão aqui desde que abri o restaurante. Esse é um dos nossos segredos", afirma.
O molho de tomate que virou marca registrada
Entre os elementos que diferenciam o "tropeirão" servido no antigo Mineirão está um ingrediente que desperta curiosidade até hoje: o molho de tomate servido sobre a couve.
A origem da combinação surgiu de uma necessidade prática. Durante os dias de grande movimento no estádio, não era possível refogar a couve individualmente para todos os clientes.

"A minha tia tinha uma pensão onde fazia um molhinho de tomate. Ela teve a ideia de colocar o molho sobre a couve porque dava uma apurada e parecia que ela estava refogada", explica Eliane.
A solução improvisada acabou se tornando uma das características mais marcantes da receita.
Uma paixão de todas as torcidas
O "tropeirão” se consolidou como parte da experiência de ir ao estádio em Minas Gerais. Ao longo das últimas décadas, o prato ultrapassou até mesmo as rivalidades e passou a integrar a cultura dos torcedores de diferentes clubes.
Atlético, Cruzeiro, América e equipes do interior podem ter cores e histórias distintas. Porém, nas arquibancadas as torcidas têm um elemento em comum: o tradicional feijão tropeiro servido em dia de jogo.
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Série especial
A série especial "Rota do Tropeiro - Feijão, Farinha e História" mostra como o prato está presente em diferentes manifestações culturais e gastronômicas do estado. A reportagem foi em busca de histórias, personagens e tradições que ajudam a explicar por que o feijão tropeiro se tornou um dos maiores símbolos de Minas Gerais.
Os conteúdos serão publicados no site e nas redes sociais da Itatiaia e do Oncêvai.
Ana Luiza Pereira é jornalista formada pela PUC Minas. Repórter multimídia na Itatiaia, possui experiência em rádio, televisão, portal e redes sociais. Atua na produção de conteúdo para as plataformas digitais e colabora com as editorias de Entretenimento e Esporte. Acumula passagens anteriores pela TV Horizonte, Rádio Inconfidência e Rede Minas de Televisão.
Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, é repórter da Itatiaia desde abril de 2023, na equipe de redes sociais. Já passou pela redação do jornal Estado de Minas e assessoria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tem experiência principalmente em vídeos, podcasts e reportagens multimídia.
Somos Bernardo e Renata, o primeiro casal a ter uma coluna de rádio sobre gastronomia no Brasil. Apaixonados por boa comida, viagens, histórias e rolês, criamos em 2016 o Oncêvai, perfil para compilar nossas vivências na capital mineira e outros lugares que visitamos. Aqui falamos de eventos gratuitos em BH e promovemos a nossa forte cultura gastronômica.














