Rota do Tropeiro: prato mineiro aparece em ranking internacional, e origem gera debate
Série especial da Itatiaia e do Oncêvai percorre histórias, preparo e formas de consumo de um dos principais pratos da cozinha mineira

O feijão tropeiro, um dos maiores patrimônios da culinária de Minas Gerais, tem ganhado as mesas e os holofotes do mundo inteiro. Recentemente, o prato alcançou posições de destaque internacional e garantiu o quinto lugar entre os melhores pratos vegetais do mundo. Também conquistou a segunda posição na lista dos 100 melhores pratos com feijão. As duas classificações foram divulgadas pelo guia gastronômico Taste Atlas.
A honraria é o ponto de partida para a série especial "Rota do Tropeiro - Feijão, Farinha e História", produzida pela Itatiaia em parceria com o Oncêvai. Ao longo de cinco episódios, o projeto irá percorrer a história, a cultura e as diferentes versões de um dos pratos mais representativos da identidade mineira.
Uma cozinha nômade e funcional
Para compreender o sucesso do feijão tropeiro, é preciso voltar aos séculos XVIII e XIX. A origem do prato está diretamente ligada ao cotidiano dos “tropeiros” — condutores de tropas de cavalos e mulas que cruzavam o território mineiro ao transportar mercadorias.
De acordo com Ju Duarte, chef, historiadora, pesquisadora e proprietária do restaurante Cozinha Santo Antônio, a receita nasceu da pura necessidade de sobrevivência e praticidade em longas jornadas.
"As origens desse prato estão ligadas a uma cozinha nômade. Os tropeiros precisavam de uma comida prática, fácil de ser transportada e que pudesse ser conservada por longos períodos. O feijão tropeiro ocupou esse lugar tão importante nos primórdios da cozinha mineira", explica.

"O feijão era transportado em caixas de madeira, coberto de gordura. A cada parada, essas porções de feijão com a banha eram jogadas em caldeirões montados em fogueiras improvisadas, com um tripé sustentando a panela. Ali, o feijão ia se incorporando àquela gordura que havia sido utilizada para a conservação dos grãos", detalha Ju Duarte.
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Identidade, cultura e pertencimento
Mais do que uma mistura de grãos, farinha e carnes, o prato se transformou em um campo de expressão de identidade cultural e até de disputa regional. Ao defender a mineiridade do prato, Ju Duarte traz à tona um debate importante sobre a valorização histórica da culinária caipira, com um paralelo direto com o estado vizinho, São Paulo.
"O feijão tropeiro é mineiro. O virado paulista é o que São Paulo faz. É um movimento, porque eles durante muitos anos eles desprezaram a comida caipira, então agora eles precisam fazer esse movimento de resgatar, de identificar. Isso é o movimento deles. Aqui em Minas não é assim", pontua a historiadora.

Segundo ela, enquanto os paulistas hoje buscam reconectar suas raízes com o passado, Minas Gerais nunca rompeu esse elo com a própria tradição.
"A nós, esse reconhecimento do que é a comida mineira é algo que já vem desde o século XIX, período no qual a gente já encontra muitas e muitas receitas com a identificação explícita de origem mineira", explica.
Comida não é ingrediente, comida não é prato pronto, comida é cultura. Em Minas, comida é pertencimento. A gente se identifica com essa comida.
Série especial
A série especial "Rota do Tropeiro - Feijão, Farinha e História" mostra como o prato está presente em diferentes manifestações culturais e gastronômicas do estado. A reportagem foi em busca de histórias, personagens e tradições que ajudam a explicar por que o feijão tropeiro se tornou um dos maiores símbolos de Minas Gerais.
Os conteúdos serão publicados no site e nas redes sociais da Itatiaia e do Oncêvai.
Ana Luiza Pereira é jornalista formada pela PUC Minas. Repórter multimídia na Itatiaia, possui experiência em rádio, televisão, portal e redes sociais. Atua na produção de conteúdo para as plataformas digitais e colabora com as editorias de Entretenimento e Esporte. Acumula passagens anteriores pela TV Horizonte, Rádio Inconfidência e Rede Minas de Televisão.
Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, é repórter da Itatiaia desde abril de 2023, na equipe de redes sociais. Já passou pela redação do jornal Estado de Minas e assessoria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tem experiência principalmente em vídeos, podcasts e reportagens multimídia.
Somos Bernardo e Renata, o primeiro casal a ter uma coluna de rádio sobre gastronomia no Brasil. Apaixonados por boa comida, viagens, histórias e rolês, criamos em 2016 o Oncêvai, perfil para compilar nossas vivências na capital mineira e outros lugares que visitamos. Aqui falamos de eventos gratuitos em BH e promovemos a nossa forte cultura gastronômica.


