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Os eSports são esportes? Entenda o que está por trás da polêmica fala da ministra Ana Moser

Muito além da nomenclatura, definição da modalidade muda estrutura de um negócio bilionário que já recebe incentivo da Lei Rouanet

A discussão se eSports são considerados esportes tomou conta das redes sociais desde terça-feira (10), quando a nova ministra do Esporte, Ana Moser, defendeu a tese que os jogos eletrônicos não devem ser considerados uma modalidade esportiva. A discussão também está presente nas universidades, Congresso Nacional e entre os próprios praticantes, longe de consenso.

Muito além da nomenclatura, ser ou não uma modalidade esportiva muda a estrutura do negócio. Formas de captação de recursos e destino da verba do Ministério do Esporte, recriado recentemente pelo presidente Lula (PT), estão em jogo no debate.

Como não há uma legislação em vigor para definir o que é ou não esporte no Brasil, a questão segue em aberto. Em tramitação no Congresso, a Lei Geral do Esporte pode colocar um ponto final na discussão, ao menos na nos termos da lei. O assunto ainda gera embates entre parlamentares.

Enquanto a lei não é aprovada, os estudiosos também divergem entre si. Professor da escola de Educação Física da USP, Ary Rocco explica que, antes da virada do século, a definição mais aceita do que seria considerado esporte e não englobaria os eSports, mas o conceito está em discussão desde que novos fenômenos ganharam espaço na sociedade.

Eu diria que a mesma polêmica que existe na sociedade, existe também na academia.

“Hoje, embora haja muita controvérsia dentro da academia, muita gente considera esporte todo aquele tipo de competição com uma regra de disputa definida e organizada, uma estrutura organizada que regulamenta a prática da modalidade, e exige dos participantes o esforço periódico físico ou mental, ou ambos. Temos os esportes da mente, onde entrariam os eSports. Não há um consenso, porque esses fenômenos são modalidades relativamente novas. Dentro da academia, não há esse consenso”, explica.

Mercado bilionário do Brasil, os eSports dependem fundamentalmente da iniciativa privada, com as empresas desenvolvedoras do jogos e ligas que criam os torneios no topo da pirâmide do negócio. Entre os incentivos governamentais, os jogos eletrônicos se encaixam como entretenimento, tendo acesso, por exemplo, à Lei Rouanet.

“O mais relevante na modalidade ser considerada ou não um esporte, são os benefícios que ela pode angariar. Se a modalidade for considerada esporte, os praticantes podem buscar benefícios na Lei de Incentivo ao Esporte. Do ponto de vista econômico, isso é o mais relevante”, explica João Tarcízio, advogado especialista em direito desportivo.

Ser considerado um esporte implicaria em uma mudança na forma de buscar recursos e incentivos governamentais.

“Vai ter que ser feita uma escolha. Se a interpretação é que, de fato, não é um esporte, a gente vai ter que encaixar os eSports na Lei Rounet. Se for considerado esporte, que é outra interpretação, a gente encaixa na Lei de Incentivo ao Esporte. Fato é, que em algumas das duas leis, vamos ter que encaixar os eSports. Eles têm que ter a prerrogativa de busca o incentivo de alguma forma”, completou João Tarcízio.

Política pública

Desde que assumiu o Ministério do Esporte, Ana Moser deixa claro que pretende priorizar o esporte como ferramenta de inclusão social e saúde pública em detrimento do alto rendimento. Com essa intenção, priorizar os esportes que têm movimento faz sentido, de acordo com o professor Ary Rocco, da USP.

Na declaração, ela está dizendo onde ela pretende investir

“A Ana Moser está sendo coerente com a vida dela no esporte pós aposentadoria. Ela criou um Instituto Esporte e Educação, que é muito mais voltado para massificar o esporte para que as pessoas tenham saúde e qualidade de vida. Aí é inegável que o movimento faz parte desse processo. Quando você pensa no combate ao sedentarismo e outros problemas como a obesidade infantil, os esportes que levam as crianças as se movimentar têm um efeito muito mais positivo. É uma opção de política pública”, disse.

Opinião dos jogadores

Após a declaração da nova ministra, jogadores profissionais dos jogos eletrônicos se posicionaram. Ana Moser foi criticada pela opinião de que os eSports são previsíveis e pela comparação com a cantora Ivete Sangalo, que também se prepararia para o um show e está encaixada no entretenimento.

Para Guilherme Gonzaga, jogador profissional de Fifa, o incentivo da empresa que produz o jogo não é suficiente para o fomento da modalidade. Ele conta que treinos na academia e consultas psicológicas estão na rotina.

Eu acho que é um esporte. Demanda muito treino, atenção psicológica, física. É uma maratona durante os campeonatos

"É uma rotina pesada. O pessoal acha que é simples, mas tem que fazer academia, consultar o psicólogo, estar com uma rotina de treino afiada todos os dias”.

Regulamentação

Incluir ou não os eSports na Lei Geral do Esporte é um dos principais pontos de debate no Congresso Nacional. Citada na fala de Ana Moser e parlamentar ativa nas pautas relativas ao esporte, Leila do Vôlei disse que reconhece a grandeza do mercado e abriu espaço para o debate, mas ouviu dos protagonistas do setor diferenças entre os esportes eletrônicos e tradicionais. Veja nota completa da senadora sobre o tema:

A senadora Leila do Vôlei reconhece a grandeza e os benefícios econômicos e sociais do mercado de e-sports. Em 2019, a pedido da comunidade gamer, a parlamentar abriu espaço para debater os impactos de uma proposta de regulamentação do setor, em tramitação no Senado. Clubes, pro-players, federações e desenvolvedores dos jogos eletrônicos apontaram diferenças fundamentais entre os esportes eletrônicos e os tradicionais, além de diversos pontos de preocupação nessa proposta, questionando, inclusive, a necessidade dessa normatização.

O e-sports está em constante crescimento, gera empregos e promove inclusão social a partir de uma prática esportiva eletrônica que precisa ser abordada de uma maneira diferente dos esportes tradicionais. É dever do Congresso Nacional ouvir a opinião da comunidade gamer para que não seja criada uma legislação capaz de engessar uma atividade já consolidada e em pleno funcionamento no país.

Hugo Lobão é repórter multimídia do portal Itatiaia Esporte. É formado em Jornalismo pela PUC Minas. Antes da Itatiaia, passou por Hoje Em Dia, Record e Globo Esporte. Amante de esportes olímpicos.
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