Novo tarifaço deve ter influência pontual sobre preço dos alimentos no Brasil
A nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre exportações brasileiras deve ter impacto marginal na economia do Brasil, segundo especialistas

Apesar da nova tarifa de 25% imposta pelo governo americano sobre parte das exportações brasileiras aos Estados Unidos, o impacto na economia do Brasil deve ser limitado. A medida, que entra em vigor em 22 de julho, tem gerado discussões entre especialistas.
De acordo com analistas ouvidos pela CNN Agro, a manutenção e até ampliação da lista de produtos isentos reduzem significativamente os efeitos agregados sobre o crescimento e a balança comercial. No entanto, o consenso é que setores específicos, como madeira e calçados, que fabricam sob demanda para os EUA, verão suas margens industriais se achatar. A indústria já havia alertado para a perda de competitividade brasileira em decorrência da nova tarifa.
Gabriel Barros, analista da G5 Partners, explica que o Brasil permanece uma economia relativamente fechada, com baixa participação do comércio exterior no Produto Interno Bruto (PIB). Isso faz com que choques comerciais como este tenham alcance restrito sobre os principais indicadores macroeconômicos. "O efeito é negativo, mas bastante marginal. Não devemos observar uma desaceleração relevante da atividade econômica nem uma deterioração substancial da balança comercial em função dessas tarifas", afirma.
Segundo Barros, a discussão se torna mais microeconômica do que macroeconômica. Os impactos variarão conforme o setor e, principalmente, o produto atingido pelas tarifas adicionais. Em alguns segmentos, empresas poderão redirecionar as exportações para outros mercados internacionais, o que pode reduzir os prejuízos e limitar a compressão das margens. A lista detalhada dos itens que serão afetados já foi divulgada.
Contudo, há produtos cuja pauta exportadora é altamente concentrada no mercado americano, como o ferro-gusa, em que a substituição de destino é mais difícil. Nesses casos, a empresa pode direcionar parte da produção para o mercado doméstico, aumentando a oferta interna e pressionando os preços para baixo, o que reduz as margens. Outra opção seria exportar para outros países em condições comerciais menos favoráveis. Por isso, a análise dos efeitos deve ser individual, considerando cada cadeia produtiva e a capacidade de diversificação de mercados.
Na mesma linha, Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, considera pouco provável um efeito relevante sobre a inflação de alimentos no Brasil. Qualquer reflexo nos preços domésticos seria "bastante limitado" e "impossível de ser isolado" de outros fatores que influenciam o agronegócio, como a Guerra no Oriente Médio e o fenômeno El Niño. "Em teoria, poderia haver algum efeito sobre a inflação de alimentos, mas, se existir, será muito marginal. E mais do que isso, será muito difícil decompor quanto desse movimento decorreu das tarifas", diz Serigati. As tarifas americanas foram definidas em decisão anterior.
Serigati aponta que o mercado de alimentos atravessa múltiplos choques simultâneos, dificultando atribuir oscilações de preços exclusivamente ao tarifaço americano. As dificuldades na cadeia de fertilizantes, com a interrupção de operações industriais por falta de enxofre, e o elevado custo do crédito rural, são fatores que pesam mais. Ele também ressalta que as oscilações do câmbio, influenciadas por ambiente eleitoral ou fatores externos, tendem a exercer um impacto muito maior sobre os preços internos do que as tarifas. "Qualquer movimento mais intenso do câmbio acaba gerando um efeito que passa por cima desses impactos secundários do tarifaço", pondera.
Assim, Serigati e Barros concluem que os maiores prejuízos da medida ficarão concentrados nas cadeias diretamente afetadas pelas tarifas, sem impactar significativamente o consumidor brasileiro. "O tarifaço incomoda muito mais os setores atingidos do que o mercado interno. Não significa que o efeito seja nulo, mas, se ele aparecer, será bastante marginal e muito difícil de identificar diante de tantos outros choques que hoje influenciam os preços dos alimentos", enfatiza Barros, que também comenta sobre o efeito na narrativa política do tarifaço, mas reitera que o dano econômico agregado é limitado em relação ao cenário anterior com a tarifa de 10%.
O economista cita ainda o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia como exemplo de que grandes anúncios nem sempre se traduzem em mudanças imediatas. "A experiência mostra que grandes anúncios nem sempre se traduzem imediatamente em mudanças significativas no comércio. O acordo com a União Europeia é um bom exemplo: apesar de ser muito positivo em tese, até agora produziu efeitos bastante modestos sobre as exportações brasileiras. Da mesma forma, não devemos esperar um impacto macroeconômico expressivo das novas tarifas americanas", finaliza.
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