ROI da ergonomia: como a saúde do trabalhador virou estratégia financeira

Investir no bem-estar reduz microparadas e potencializa o lucro na indústria; especialista explica como transformar dados clínicos em retorno financeiro

Especialista alerta que maior risco jurídico reside na não caracterização adequada dos riscos ergonômicos

Empreender no setor industrial brasileiro exige um olhar que transcenda a manutenção das máquinas e alcance a complexidade do fator humano. Frequentemente vista como uma mera formalidade gerida pela Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17), a ergonomia tem se revelado um investimento estratégico com impacto direto no balanço contábil. Mais do que evitar multas, trata-se de refinar o processo produtivo para estancar perdas invisíveis.

“A ergonomia deve ser compreendida como um investimento estratégico, com impactos mensuráveis na saúde, qualidade, produtividade e conformidade legal”, afirma a analista de ergonomia Athielly Dias Araújo Rabelo em entrevista à Itatiaia. Para a especialista, a maturidade de uma gestão é medida pela capacidade de enxergar o bem-estar como um motor de eficiência.

Além dos afastamentos: os novos KPIs do setor

Para calcular o retorno sobre o investimento (ROI), as indústrias precisam abandonar a visão limitada de monitorar apenas a redução de afastamentos ou doenças ocupacionais. A eficácia real aparece em métricas que pulsam diariamente no chão de fábrica.
De acordo com Athielly Rabelo, as empresas devem monitorar indicadores como:

  • Produtividade e desempenho financeiro;
  • Índice de retrabalho e volume de refugos;
  • Taxa de absenteísmo e turnover (rotatividade de pessoal);
  • Redução de microparadas e maior previsibilidade do processo

“Na rotina industrial, os projetos ergonômicos podem resultar na redução de microparadas, aumentar a previsibilidade do processo e impactar positivamente o desempenho financeiro, mesmo quando os efeitos clínicos ainda não são plenamente visíveis”, destaca a especialista.

O custo invisível da fadiga

A correlação entre o cansaço físico e o prejuízo financeiro é matemática. Postos de trabalho inadequados geram fadiga muscular, que atua como um sabotador silencioso da precisão operacional.

Athielly Rabelo explica que esse esgotamento compromete a coordenação motora e a tomada de decisão, elevando o índice de falhas. Por outro lado, ambientes ajustados favorecem a estabilidade do processo. Quando há um design participativo (envolvendo o trabalhador no diagnóstico), a adesão às melhorias é maior, reduzindo a resistência a pausas e equipamentos.

Vulnerabilidade jurídica e conformidade

A negligência com o tema não apenas encarece a produção, mas fragiliza a empresa perante a Justiça. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab) mostram que transtornos osteomusculares estão entre as principais causas de concessão de auxílio-doença acidentário no país.

A especialista alerta que o maior risco jurídico reside na “não caracterização adequada dos riscos ergonômicos”, o que prejudica a defesa em ações trabalhistas. Entre as vulnerabilidades enfrentadas pelas indústrias, destacam-se:

  • Avaliações ergonômicas genéricas ou desatualizadas;
  • Falta de integração entre ergonomia, PGR e PCMSO;
  • Documentação insuficiente para fins de fiscalização e perícia judicial
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O desafio do turno da madrugada

O ROI da ergonomia também passa pela gestão de turnos. Durante a madrugada, o corpo sofre um declínio natural de desempenho físico e mental devido à inversão do ciclo circadiano. Para mitigar riscos e manter a produtividade, a medicina do trabalho recomenda:

  • Pausas mais frequentes e estruturadas;
  • Iluminação adequada e homogênea;
  • Alternância de tarefas e programas de ativação muscular

“A integração entre gestão, engenharia, medicina do trabalho e participação ativa dos colaboradores é essencial para que os projetos ergonômicos alcancem resultados sustentáveis”, conclui a analista.

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Amanda Alves é graduada, especialista e mestre em artes visuais pela UEMG e atua como consultora na área. Atualmente, cursa Jornalismo e escreve sobre Cultura e Indústria no portal da Itatiaia. Apaixonada por cultura pop, fotografia e cinema, Amanda é mãe do Joaquim.

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