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Inteligência artificial na escola: para quê?

Se a tecnologia faz parte da vida das crianças, adolescentes e jovens, tentar deixá-la fora da escola, além de impossível, é não usufruir do potencial que ela traz para o desenvolvimento dos estudantes

Pouca gente sabe, mas antes de ser professor, há duas décadas, me formei em jornalismo. Nessa área, já existiu a dúvida se o rádio acabaria com o surgimento da televisão, e, algum tempo depois, o que seria do jornal com a chegada da internet.

Estamos em 2023, o rádio continua sendo uma mídia forte, os jornais ainda são lidos no papel e nas telas, a televisão segue importante, mesmo com a internet estando nas mãos de todo mundo. Ou seja, as várias mídias sobreviveram, de um jeito ou de outro.

O que isso tem a ver com educação? Começo a responder essa questão com outra pergunta: já ouviu falar de ChatGPT? Trata-se, em resumo, de uma ferramenta que de certa forma se parece com o Google, mas incorpora novas funções. Enquanto o Google oferece um conjunto de fontes de pesquisa, ao ser perguntado sobre determinado assunto, o ChatGPT organiza informações de várias fontes e devolve ao usuário um texto estruturado, uma resposta organizada. Nem sempre as informações são corretas (você precisa checar e ajustar o texto), não temos muita clareza de quais foram as fontes utilizadas pelo sistema e há dados desatualizados. Mas que pode ser uma mão na roda quando queremos entender algo que nos importa, isso pode!

Outro dia me perguntaram: a inteligência artificial, como o ChatGPT, pode vir a substituir a escola e o professor? Resposta simples: não. Escola não se resume a promover acesso à informação. Professor faz muito mais do que ensinar conteúdos das áreas de conhecimento: ensina a pensar, a resolver problemas, a analisar criticamente os fatos, dados e situações, a fazer pesquisa complexa, a promover interações respeitosas e empáticas, a compreender os fenômenos de modo contextualizado, a fazer escolhas baseadas no que é valor para si e para o coletivo, enfim, para que possamos ser, conviver, conhecer e produzir.

Mas, claro, ChatGPT e tantas outras tecnologias são ferramentas importantíssimas para promover a aprendizagem, as interações, a comunicação e a produção de conhecimentos. Cada vez mais, as escolas ensinam os alunos, por exemplo, a desenvolver códigos e jogos, a fazer registros e compartilhar informações em diversas mídias, a acessar conteúdos disponíveis na internet, a produzir e disponibilizar conteúdo relevante.

E, muito importante, ensina a utilizar de modo ético os dados, informações e conhecimentos disponíveis online. Afinal, se a tecnologia faz parte da vida das crianças, adolescentes e jovens, tentar deixá-la fora da escola, além de impossível, é não usufruir do potencial que ela traz para o desenvolvimento dos estudantes. Na escola, com a relevante mediação do professor, é possível se apropriar da tecnologia, nas várias situações cotidianas, com sabedoria, empatia, ética e sentido.

Paulo Emílio Andrade é presidente do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É, também, professor da PUC Minas e pesquisador do Núcleo de Novas Arquiteturas Pedagógicas da USP.

Paulo Emílio Andrade é presidente do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É mestre e doutor em educação, pesquisador do Núcleo de Novas Arquiteturas Pedagógicas da USP e professor da PUC Minas.
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