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Por que padres não se casam? Desejo, doutrina, enigmas...

O que a gente deseja, na verdade, é a afirmação de uma existência que tenha sentido

De onde nasce o desejo? Bom, eu diria que essa é uma daquelas perguntas mais óbvias. É daquele tipo de coisa que a gente, ou só sabe até que nos questionem, ou só pode responder com cinismo. Tipo, se a amiga te pergunta, depois do porre, em que quase perdeu o réu primário, se deu vexame. Todo mundo sabe que, no geral, o “certo” a responder é: “imagina! Você não disse nada demais...”. Quem pergunta não quer saber. Quem fala, não acredita. Ninguém fica com raiva. E tá tudo resolvido.

Eu diria que nenhum de nós dá conta do desejo. O desejo é o grande enigma da condição humana. Todo desejo se funda numa falta.

Basta uma pesquisa rápida nas Escrituras, ou em textos clássicos e a gente encontra suspeitas sobre o “desejo”. Basta lembrar de Eva e a sua dentada na “maçã", da ambição de Ícaro que voa com asas de cera que se derretem com o sol, da curiosidade da jovem Pandora...

Seguindo a tradição do pensamento greco-romano, o desejo é, fortemente, associado na Bíblia, e no Cristianismo como “concupiscência”. Ele é entendido como uma disputa, em nós, entre o impulso e a virtude; o conflito entre o “bem” e o “bom”. No fundo, a impressão é de que tudo o que é bom mesmo é: “imoral, ilegal ou engorda”.

Ninguém duvida de que o desejo é violência. A história do judaico-cristianismo se confunde, um pouco, com a de uma desconfiança sobre o prazer, o gozo, o sexo. Pensadores como Freud, Nietzsche tocam o dedo nessa ferida. A gente até poderia pensar: será que é por isso, que os padres não se casam ou não tem “intimidades subsequentes”? Eu diria, talvez não só (haha). Porque se o desejo da Igreja Católica fosse que os padres tivessem um celibato ainda mais fiel, certamente o melhor seria decretar que se casassem todos. Quem tá casado, geralmente, pensa e se ocupa mais de boleto, cunhado, sogra. Só, de vez em quando faz sexo... Como dizia, ironicamente, Dostoievsky: “o casamento é a morte da alma”.

O desejo, na verdade, nasce sempre da busca da conexão. Conexão com a vida, com a felicidade, com algum sentido...Por isso, sobretudo, nos momentos de maior angústia e tensão, é que ele aflora da maneira mais radical. Esse, aliás, é o grande contributo dos mestres da suspeita: Nietzsche, Freud, Marx... (Sim, eu sei que eles eram ateus e que disseram algumas furadas. Não manda carta pro meu bispo, pois tenho que pagar meus boletos! hahaha). Não larguemos bandeiras certas, mesmo que elas estejam em mãos erradas. Vamos nos deixar provocar:

O que a gente deseja, na verdade, é a afirmação de uma existência que tenha sentido. Bons propósitos não se sustentam na negação de quem somos. Não adianta lutar diretamente contra o desejo. Se você não morder acordada(o), cedo ou tarde explode ou você sonha. O Éros só se deixa vencer por rendição.

Somo seres, não de “instinto”, mas de pulsão. Por detrás de uma “noitada”, “uma pulada de cerca” há uma criança precisando de escuta, de comunhão e de ternura.

Ah, e vamos tomar cuidado com o cartão de crédito. Tem um bocado de loja (e de Igreja também!!) por aí, querendo nos vender aquilo de que a gente não precisa. Mão cheia, coração vazio...

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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