Uma nova comunidade de empresários foi lançada no Órbi ICT, ambiente de inovação localizado na região da Lagoinha, em Belo Horizonte, com a proposta de oferecer suporte mútuo a empreendedores e enfrentar o que especialistas consideram um dos efeitos colaterais mais recorrentes da vida empresarial: o isolamento.
Batizada de Comú, a iniciativa busca diferenciar-se de eventos tradicionais de networking ao priorizar trocas regulares entre seus membros, em diferentes formatos de eventos com foco em experiências reais, mentorias práticas e convivência estruturada.
O projeto é idealizado por Rafa Lincoln, fundador da agência Lincourt e presidente da Comú Network Brasil. Segundo ele, a proposta surgiu a partir da constatação de que a maioria dos espaços voltados ao empreendedorismo mantém ênfase em resultados e performance, mas oferecem pouco espaço para a exposição de dúvidas e dificuldades.
Dados da Endeavor apontam que 69% dos empreendedores brasileiros classificam sua jornada como solitária. O problema se intensifica conforme o negócio cresce e o fundador acumula funções gerenciais, operacionais e estratégicas.
Sócios Fundadores no lançamento da Comú, da direita para a esquerda, Rafael Lincoln, Jéssica de Paula e Cádmo Binttencourt
Modelo de funcionamento
A comunidade organiza-se em três pilares: vivenciar, experienciar e desenvolver. Os encontros acontecem presencialmente, com grupos reduzidos, e incluem mentorias com empresários experientes, workshops sobre temas como vendas e gestão, além de visitas técnicas a empresas de diversos segmentos.
Há ainda sessões de apresentação de ideias para avaliação coletiva, inspiradas no formato de programas como o Shark Tank. Fora do ambiente físico, os membros mantêm contato por meio de uma plataforma digital própria e grupos fechados de troca.
De acordo com Lincoln, o modelo não é voltado à geração de leads ou fechamento de contratos, mas sim à construção de uma rede de apoio de longo prazo. A tecnologia utilizada na plataforma digital, desenvolvida com base no sistema Lovable, é descrita como um meio, e não um diferencial. “A plataforma é acessível a qualquer um. O diferencial é o compromisso de todos com a construção engajada de uma comunidade”, diz.
Inserção no ecossistema
A Comú está sediada no Órbi ICT, que desde 2025 funciona também como Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), o que permite acesso a recursos públicos e privados para projetos de inovação. Em 2025, o espaço recebeu mais de 12 mil pessoas e promoveu 178 eventos.
O projeto surge em um momento em que Belo Horizonte busca consolidar-se como referência em inovação. A capital mineira foi apontada como o 4º ecossistema de tecnologia que mais cresce no mundo, de acordo com o relatório Global Tech Ecosystem Index 2025 da
Para Lincoln, a proposta da Comú é complementar ao ambiente de negócios tradicional. “Não se trata de mais um evento, mas de um espaço permanente onde empreendedores possam se desenvolver juntos, em um ritmo sustentável”, afirma.
Desafios e contexto
Apesar do crescimento do setor de inovação, especialistas alertam para os riscos associados à saúde mental de fundadores e líderes de pequenas empresas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional, e estudos apontam que a sobrecarga e a falta de apoio estruturado podem comprometer a longevidade dos negócios.
A proposta da Comú, segundo seus idealizadores, não é substituir iniciativas de aceleração ou consultoria empresarial, mas oferecer uma instância complementar, focada na convivência entre pares e na troca contínua de experiências.
A comunidade já realiza encontros semanais no Órbi ICT e pretende expandir sua atuação para outras cidades a partir de 2026.
A diretora de marketing e operações do Órbi, Francis Aquino, ressalta que o ICT está cada vez mais interessado em colaborar com projetos que promovem o fortalecimento dos negócios de base tecnológica e, consequentemente, do ecossistema mineiro de ciência, tecnologia e inovação.
“O Órbi concretiza sua vocação de impulsionar a inovação e a tecnologia a partir de diversas iniciativas de valor, que contribuam com o compartilhamento de saberes e a construção de pontes entre os empreendedores, as empresas e o poder público”, acrescenta Francis.