Clarissa Nepomuceno | Coisas que ninguém aguenta mais no mês das mulheres

Listamos cinco características que ninguém aguenta mais no Dia Internacional da Mulher; veja quais são

Símbolo gênero feminino

No dia 8 de março, celebramos o Dia Internacional da Mulher, data que nasceu das mobilizações de mulheres trabalhadoras no final do século XIX e início do século XX, que lutavam por melhores condições de trabalho, direitos políticos e igualdade.

Submetidas a jornadas exaustivas, salários inferiores e ausência de direitos, essas mulheres protagonizaram movimentos que culminaram, em 1910, na proposta da ativista alemã Clara Zetkin de criar um dia internacional dedicado à luta pelos direitos das mulheres. Décadas depois, em 1975, a Organização das Nações Unidas oficializou a data.

Mais de um século depois, muita coisa mudou, mas alguns comportamentos continuam surpreendentemente iguais. Por isso, vale listar cinco coisas que ninguém aguenta mais no Dia Internacional da Mulher:

1 - Flores e presentes com a mensagem parabenizando o ‘sexo frágil’

Todo ano é a mesma cena: empresas distribuem flores, chocolates ou lembranças acompanhadas da clássica mensagem sobre “delicadeza” e “fragilidade feminina”.

O gesto pode parecer gentil, mas carrega um simbolismo ultrapassado. A ideia de “sexo frágil” ignora séculos de história, de mulheres que trabalharam, lideraram, resistiram e transformaram a sociedade em contextos mais adversos que os atuais.

E há algo ainda mais incômodo: em um país marcado por altos índices de violência contra a mulher e feminicídio, flores muitas vezes lembram mais velórios do que comemorações.

Celebrar é importante, mas precisamos de mudanças concretas que garantam segurança, dignidade e igualdade.

2 - Instituições que homenageiam mulheres, mas pagam menos a elas - que ainda são minoria na liderança

Não existe homenagem capaz de compensar a desigualdade estrutural.

Em muitas organizações, mulheres continuam recebendo salários menores para desempenhar as mesmas funções e permanecem sub-representadas nos cargos de liderança.

Curiosamente, essas mesmas empresas adoram fazer campanhas bonitas no dia 8 de março. Só que a verdadeira homenagem não está nos posts institucionais.

Está em equidade salarial, transparência nas políticas de remuneração e presença real de mulheres ocupando posições de liderança. Enquanto a igualdade não se refletir nos números e nos espaços de poder, qualquer celebração corre o risco de soar apenas simbólica.

3 - Ambientes de trabalho que celebram mulheres – mas não as protege do assédio

Outra contradição comum: empresas que celebram o Dia da Mulher, mas não possuem políticas efetivas de prevenção ao assédio.

Não basta celebrar mulheres em campanhas institucionais se o ambiente de trabalho não é, de fato, seguro para elas. Em muitas organizações, ainda faltam políticas claras, canais confiáveis de denúncia e medidas concretas de prevenção e responsabilização em casos de assédio moral e sexual.

Criar um ambiente respeitoso exige mais do que declarações públicas: requer protocolos transparentes, treinamento institucional, proteção às vítimas e responsabilização efetiva de condutas abusivas - mesmo que isso implique, eventualmente, no afastamento de alguém “produtivo”. Sem isso, qualquer discurso de valorização das mulheres perde credibilidade.

4 - O mito da rivalidade feminina

A ideia de que mulheres são naturalmente rivais, como se fosse um instinto feminino é um dos mitos mais persistentes - e mais úteis para manter estruturas desiguais. Essas narrativas foram criadas para dividir, silenciar e limitar mulheres em espaços de poder ao uma escassez artificial de oportunidades para mulheres, como se elas precisassem disputar entre si.

Mas os dados contam outra história.

Pesquisas de Harvard e McKinsey mostram que, quanto mais mulheres no topo, maior a probabilidade de outras mulheres também avançarem.

Liderança feminina não fecha portas. Ela abre caminhos.

A presença feminina normaliza a liderança feminina e gera efeitos multiplicadores: mais colaboração, mais inovação e melhores resultados.

5 - Discurso redpill que quer empurrar mulheres de volta para a submissão

Nas redes sociais, viralizaram criadores de conteúdo que defendem que um “homem de valor” não escolhe uma mulher com “energia masculina” – termo usado para desqualificar mulheres que trabalham e têm autonomia sobre a própria vida. Segundo essa narrativa, mulheres deveriam adotar uma postura de submissão para conseguir um bom marido.

O que o discurso convenientemente ignora é as mulheres sempre trabalharam. Durante séculos, estiveram nas lavouras, nas fábricas, no comércio e nas casas, além de realizarem o trabalho doméstico e de cuidado que sustenta a economia - atividades frequentemente tratadas como “papel da mulher” ou “ajuda”, e por isso invisibilizadas.

O que hoje se chama de “energia masculina” - autonomia econômica, ambição profissional e participação no espaço público - sempre fez parte da vida das mulheres. Narrativas que defendem o retorno a papéis “tradicionais” não recuperam uma tradição: reeditam a antiga invisibilização do trabalho feminino ao tentar direcionar as mulheres para papéis de submissão, como forma de limitar a independência conquistada, sujeitando-as ao controle e à aceitação do lugar que lutaram séculos para sair.

Em resumo, o Dia Internacional da Mulher não surgiu para ser apenas uma data de homenagens, mas um marco de reflexão sobre direitos, igualdade e justiça. Celebrar mulheres é importante, mas mais do que flores, campanhas e mensagens protocolares, o que se espera é o combate às estruturas que ainda limitam suas oportunidades, sua segurança e sua autonomia, em um compromisso real com ambientes de trabalho justos, relações respeitosas e oportunidades iguais. Mais de um século após as mobilizações que deram origem à data, o verdadeiro desafio continua sendo transformar reconhecimento simbólico em mudanças concretas que garantam às mulheres autonomia, segurança e plena participação na sociedade.

Leia também

Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

Ouvindo...