Nos últimos dois meses, tenho participado a convite da Daiane Dias, assessora especial do prefeito de Belo Horizonte, de algumas iniciativas promovidas por ela para discutir o exponencial aumento do número de pessoas nas ruas de BH a fim de buscar alternativas reais para transformar a vida dessas pessoas.
O fenômeno da rua como moradia, que já era uma preocupação social, se aprofundou nos últimos anos, impulsionado por uma combinação de fatores econômicos e sociais. De acordo com um levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/Polos-UFMG) em abril de 2025, o Brasil tem 335.151 pessoas em situação de rua. Em Belo Horizonte o número é de14.454 pessoas vivendo nas ruas, sendo a terceira capital do país com mais pessoas nessa condição. A situação não é caótica, calçadas, viadutos e praças da capital mineira tornaram-se o lar de milhares de pessoas, escancarando a urgência de políticas públicas mais eficazes.
“Quando falamos de população em situação de rua, precisamos ser realistas: a rua não é lugar de ficar. Não podemos romantizar e muito menos ignorar essa realidade. Costumo dizer que existem dois tipos de pessoas quando o assunto envolve o morador de rua: os que querem que eles desapareçam e os que desejam carregá-los no colo a vida inteira. Nenhum dos dois resolve o problema, a solução está em construir políticas sérias, responsáveis e que tenham como meta tirar a pessoa da rua e devolver a ela dignidade e autonomia”, diz Daiane Dias.
As razões por trás do crescimento da população em situação de rua são diversas e, muitas vezes, interligadas. A crise econômica, que resultou em altas taxas de desemprego e na precarização do trabalho, é apontada como a principal vilã, pois, a perda de renda levou famílias inteiras para o caminho da informalidade e, em seguida, para a completa ausência de moradia.
Além disso, fatores como o alto custo de vida nas áreas urbanas, a falta de acesso a políticas de moradia popular e a fragilidade das redes de apoio familiar contribuem para o problema. Questões individuais como o uso de álcool e outras drogas e problemas de saúde mental também estão presentes, mas, na maioria das vezes, são agravadas pela ausência de um suporte social.
O primeiro evento em que fui convidada pela Daiane Dias foi realizado com o propósito de escutar as demandas, desafios enfrentados pelas ONGs que atendem a população de rua além de apresentar os equipamentos de assistência social oferecidos pela prefeitura de BH que podem contribuir e fortalecer o trabalho oferecido pelo terceiro setor. O segundo evento foi para apoiar os projetos que precisam ser formalizados e contou com a palestra do advogado, contador e administrador de empresas especializado em terceiro setor, Marcos Miranda. Além dos eventos a prefeitura tem escutado os moradores de rua, comerciantes e feito um amplo diagnóstico afim de buscar traçar uma estratégia que contemple as melhores práticas para trazer solução para esse problema e que dignifique a vida dessas pessoas. A ONG Rede Cidadã também tem realizado um trabalho importante com a população de rua desde 2023 com o Projeto Estamos Juntos. A iniciativa foi criada pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio das Secretarias Municipais de Desenvolvimento Econômico e de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania, com o intuito de fomentar e garantir a inclusão produtiva (empregabilidade) da população em situação de rua ou com trajetória de vida nas ruas.
Soluções e desafios: o caminho para a cidadania
A resposta a esse desafio complexo exige uma abordagem que vá além da assistência emergencial. A solução passa por uma articulação de políticas públicas integradas, que incluam não apenas o abrigo, mas também o acesso à saúde, à educação e, principalmente, ao trabalho.
A criação de moradias de transição, que oferecem um ambiente seguro e de apoio para a reintegração social, é uma alternativa promissora. Além disso, é fundamental fortalecer as políticas de empregabilidade e capacitação profissional, garantindo que as pessoas possam reconstruir suas vidas de forma autônoma. O investimento em programas de saúde mental e no combate à dependência química também é crucial.
O aumento da população em situação de rua é um reflexo das nossas desigualdades sociais. Para reverter esse quadro, é preciso enxergar além do problema e reconhecer a dignidade de cada pessoa, oferecendo caminhos reais para a reconstrução de suas vidas.
“Eu não sou fico dentro de um escritório, estou na rua, conheço de perto o sofrimento dessas pessoas e sei que o problema não se resolve com discursos prontos ou ações assistencialistas. Precisamos parar de fazer ações apenas para aliviar a nossa culpa, a caridade sem propósito vira anestesia. O que precisamos é de projetos que realmente transformem e tirem pessoas da rua, que tratem dependência química, que ofereçam qualificação profissional, suporte emocional e oportunidade de trabalho. O que defendo é uma ação concreta, que une o social à responsabilidade pública”, diz Daiane Dias.
O desafio é enorme, para se obter sucesso é preciso que haja conscientização da sociedade civil quanto ao tema, uma mudança de cultura e entendimento real sobre o problema. Há 25 anos atrás eu comecei a minha caminhada em responsabilidade social como voluntária de um centro espírita apoiando justamente moradores de rua. Foram anos e mais anos acompanhando de perto suas histórias, dores e sonhos. Quando a Terceiro Olhar, minha empresa de Estratégia em Responsabilidade Social, foi convidada a participar junto a Daiane Dias a pensar em soluções para essa “dor social”, fiquei muito grata, porque pela primeira vez vi o terceiro setor ser escutado pelo poder público e alguém falar sobre direitos e deveres das pessoas em situação de rua.
“A vida em sociedade exige equilíbrio entre direitos e deveres. Um direito só existe porque alguém tem um dever correspondente. Se tenho direito à comida, alguém tem obrigação de prover. Se tenho direito à educação, alguém tem obrigação de oferecer. Não podemos viver apenas num discurso de direitos máximos e deveres mínimos. Isso não é justiça social, isso é desequilíbrio”, afirma Dai Dias.
A rua não é a casa de ninguém e isso precisa mudar!