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Vai bater em outro lugar

Quem perdoa é Deus. A internet é implacável!

Uma das grandes características da sociedade contemporânea é a dúvida. Essa que começa na liquidez das relações e impregna todos os nossos “contratos”, inclusive o social. Somos a sociedade da suspeita, onde todos se julgam espertos demais para cair no “felizes para sempre”.

Hoje, qualquer grande ideia, qualquer discurso inflamado sobre a moral ou sobre o respeito que se deva ter às mulheres é desmentido por uma fala vinda dos “subterrâneas” da própria história, no TikTok. Quem perdoa é Deus. A internet é implacável!

Alguns olham com bastante suspeita essa crise da verdade. É certo que todo relativista está a um passo da idiotice, já que: “se todas as verdades são relativas”, também deveria ser essa. Todavia, há algo de lúcido nessa “descrença” contemporânea, a saber: “todo ponto de vista, é a vista de um ponto”.

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Dogmas se atualizam

Até nós que cremos em dogmas, sejam os científicos, sejam os pronunciados na Basílica de São Pedro, temos que dar o braço a torcer: dogmas se atualizam. Sim, a ciência tem dogmas: sem negar a gravidade, nomeada por Newton, alguns séculos depois, aprendemos que espaço e tempo são relativos.

A Igreja, mesma, se desdizer o que já disse, progride em sua própria doutrina (Dei Verbum 8). Ou nós ainda celebramos missa em aramaico e grego? Até os protestantes tem revisões para chamar de suas. Pode olhar aí no TikTok. Sim, ele já usou bandeira vermelha. Sim, ele já foi contra a teologia da prosperidade.

Ironias kierkegardianas à parte, está tudo sob suspeita. Descartes dizia que a gente pode duvidar de tudo, menos da dúvida. “Penso, logo existo”. Hoje diríamos: “duvido, logo existo”. Sim, a dúvida traz angústia. O mais fácil é ser o intelectual de meio livro, é atacar o diferente, é proclamar o Apocalipse, é buscar refúgio em alguma “doutrina”. 

Claro, crer em alguma coisa é inevitável e muito importante. Se a gente não crê em algo, passa a crer em qualquer coisa (Chesterton). Todavia, ao crer, que aquilo em que cremos nos esclareça. E não o contrário! Lá onde a gente tenta ser luz, régua e defesa, terminamos sendo holofote, limitação e muro. 

Nessa perspectiva mais lúcida, o “crente” e o “relativista” podem jogar sinuca e tornar cerveja em paz, juntos. Que perspectiva? A de ser um pouco mais humilde quanto à capacidade humana de chegar à verdade e de interpretar o mundo.

Em primeiro, porque, já nas páginas iniciais da Bíblia, vemos que esse negócio de querer ser “como deuses” costuma não dar certo. Deus não se esgota em nenhuma igreja, templo ou doutrina. Se couber, não pode ser Deus.

Em segundo, porque como lembra Nietzsche, em Zaratustra, a “razão faz parte das vísceras”. Por mais clareza que a gente julgue ter sobre uma pessoa ou uma situação, a nossa capacidade de discernimento nunca é neutra e total.

Todos temos medos, traumas, vícios, ressentimentos. A razão, em perspectiva nietzschiana, é apenas mais um dos muitos impulsos conflitivos, fluidos, impermanentes, que nos habita. 

E quem não sabe disso ou ignora a vida como ela é, ou é perverso ou é cínico. E está cheio de gente assim nas redes sociais. Gente do Magistério do Whatsapp. Acaba de receber um vídeo e já o eleva à dignidade de formulação absoluta da realidade. 

“Quem nos salvará de nós? Quer bater? Vai bater em outro lugar! Bandido bom é bandido morto! Mas e os do nosso partido? E os móveis? Ah, devem estar com os que conduzem os semoventes. Meu Deus, mas é ano de eleições: ‘ah, então me dá seu abraço aqui companheiro.”

Ah, o Brasil não é para amadores. Afinal: “o que é a verdade” (Jo 18, 38) talvez ela seja uma coisa que só nos encontra quanto a gente está em companhia do silêncio e da dúvida.


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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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