Cópia? Hits do Carnaval apresentam semelhanças com sucessos e levantam polêmica

As músicas JETSKI, do produtor Pedro Sampaio, e Fanatismo, da Yasmin Sensação, forma alvos de polêmicas nas redes sociais

Artistas são os autores dos principais candidatos a hit do Carnaval 2026

Com a proximidade do Carnaval 2026, a corrida entre cantores e compositores para saber quem vai compor o principal hit de verão do ano está cada vez mais acirrada. Entre os concorrentes, entretanto, polêmicas começaram a surgir sobre a forma como foram compostas.

Em vídeos nas redes sociais, influenciadores e fãs das músicas apontaram diversas semelhanças em músicas de repercussão nas plataformas digitais e questionaram regravações de sucessos em língua portuguesa.

A discussão repercute questões éticas de direitos autorais e o uso de repertórios sem o devido crédito na ficha técnica. A ausência de creditação impacta diretamente em como os artistas são remunerados e reconhecidos.

O advogado Gabriel Moreira, especialista em propriedade intelectual, explicou à Itatiaia que os casos não se tratam de plágio, mas sim contrafações.

Segundo ele, o plágio ocorre “quando alguém se apropria de uma obra de outra pessoa e apresenta como se fosse sua”. A contrafação, por sua vez, “é uma violação de direito autoral”, que envolve o uso de obras protegidas sem a devida permissão para tal.

JETSKI, Michael Jackson e o ‘som do golfinho’

A música JETSKI (2025), do produtor Pedro Sampaio com parceria de Melody e do Menor K, ocupa a 2ª posição entre as mais ouvidas do Spotify em todo Brasil, com mais de 53 milhões de reproduções no aplicativo. Entretanto, ficaram populares em diversas redes sociais vídeos que apresentam acusações de plágio por toda a canção.

Pedro Sampaio publicou um vídeo nas redes sociais em que explica a origem da canção e as referências que utilizou no ritmo. Segundo o autor, a composição surgiu durante uma viagem para Recife em que utilizou recursos da praia para gravar.

“Muita gente não percebeu que a música já começa com um som de golfinho verdadeiro”, disse o produtor como introdução do vídeo publicado nas plataformas digitais. A fala se refere à introdução da batida que é sucesso no começo do ano.

Entretanto, um vídeo publicado pelo produtor vencedor do Grammy Latino Felipe Vassão questiona a origem do áudio utilizado. Na publicação, Felipe compara o som emitido por um golfinho na natureza com a abertura do hit de Pedro Sampaio.

Em seguida, é apresentado um beat intitulado “AFP_AHAE_125_synth_lead_vibracao_Dmin.wav”, disponível na plataforma Splice. O site funciona como um repositório de “samples”, que são bases utilizadas para composição de batidas em músicas.

O áudio faz parte de um pacote chamado “Afrohouse Angolano Essentials”, feito por Boy2shirtz Beatz, Emeraldp ODB e Jodin Beat, nenhum deles mencionados entre os autores de JETSKI.

De acordo com Gabriel, por se tratar de uma plataforma “royalty free”, ou seja, de livre utilização, não é necessário mencionar os autores da batida entre os compositores da música. A discussão, no caso, fica limitada às questões éticas entre os artistas.

Outra acusação que tomou repercussão é a semelhança com a música Somebody’s Watching Me (1984), do artista Rockwell que tem a participação do rei do pop, Michael Jackson, como backing vocal e na cantoria do icônico refrão

A coincidência seria no ritmo das músicas quando comparadas, com a sonoridade próxima e as variações de ritmo em tempos semelhantes ao da canção americana. O recurso utilizado no caso é a interpolação, que recria a melodia a partir de uma já existente.

“Uma interpolação também exige autorização dos compositores originais. Caso isso não tenha sido feito, também pode ser caracterizada uma contrafação, mas que afasta do plágio mais uma vez. Não está falando ali que eles fizeram essa canção, mas basicamente eles não pediram autorização”, explica Gabriel.

Quando utilizado de forma acordada entre as partes, a utilização do recurso não constitui plágio, entretanto, Rockwell não é creditado entre os autores de JETSKI, o que levou fãs a discutirem o assunto nas redes sociais.

A Itatiaia entrou em contato com a equipe do Pedro Sampaio e não obteve respostas até o momento da publicação desta reportagem. O espaço segue aberto

‘Fanatismo’ em Angola

Outra cantora que foi alvo de acusações recentes é Yasmin “Sensação”, de 19 anos, natural de Canindé de São Francisco, no Sergipe. Ela ficou conhecida por regravar a música “Fanatismo”, do artista angolano Anselmo Ralph.

A música foi lançada em 2009 no álbum “O Cupido” do cantor de Angola. No Brasil, ficou conhecida na voz da sensação sergipana que acumula mais de 28,5 milhões de reproduções no Spotify e outras 9,4 milhões de visualizações no clipe do YouTube.

Sobre o caso, Gabriel ressalta a importância de entender a diferença entre os dois âmbitos do direito autoral: o moral e o patrimonial. “O direito autoral moral é o de você ser reconhecido como autor daquela obra, enquanto o patrimonial é o direito de você ganhar dinheiro em cima daquela obra”, explica.

No spotify, Yasmin identifica Anselmo Ralph enquanto compositor da canção, o que afasta a possibilidade de plágio e pode apontar uma contrafação caso a releitura da obra tenha acontecido sem a devida autorização

O cantor angolano se pronunciou sobre a repercussão da canção nas redes sociais e disse “agradecer a todos que carinhosamente têm defendido não só os meus direitos como compositor, mas como dos restantes dos produtores de cada obra”. Estendeu também os agradecimentos aos artistas brasileiros que “têm cumprido os trâmites legais para tais versões”.

Entretanto, o cantor disse que pode derrubar as versões que não seguirem as questões legais envolvidas na publicação das regravações. A versão publicada por Yasmin Sensação segue disponível nas plataformas digitais.

A Itatiaia entrou em contato com a equipe da Yasmin Sensação e não obteve respostas até o momento da publicação desta reportagem. O espaço segue aberto

(Sob supervisão de Lucas Borges)

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Gustavo Monteiro é estagiário do Portal Itatiaia e estudante de jornalismo na UFMG. Natural de Santos-SP, possui passagens pela Revista B&R e Secretaria do Estado de Minas de Comunicação Social.

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