Carnaval em Recife: quando festejar é preservar a própria história

Mais do que um evento no calendário, trata-se de uma manifestação que preserva saberes populares, tradições centenárias e expressões culturais que resistiram ao tempo

Arrisco-me a dizer que, na memória daquele menino, continuarão vivas as imagens da folia

Do alto do muro de uma igreja histórica de Pernambuco, um menino observa os últimos acordes da orquestra que se despede do Carnaval. Lá embaixo, a troça ainda vibra entre euforia e saudade. Em silêncio, ele tira o chapéu, seu único adereço carnavalesco. No olhar fixo e curioso, há mais do que contemplação; há também a pergunta: “E agora que a festa acabou?”.

Arrisco-me a dizer que, na memória daquele menino, continuarão vivas as imagens da folia: as ruas tomadas por multidões, a alegria vibrante misturada à rebeldia do Carnaval.

Ele guardará as sombrinhas rodopiando ao som do frevo, o brilho intenso do maracatu, o caboclo de lança cruzando a multidão. A La Ursa pedindo dinheiro, arrancando risos e pequenos sustos. E as crianças, como ele, correndo pelas ruas de pedra e se lambuzando de confete, enquanto os adultos celebram ao som de ritmos diversos.

Embora muitos desses elementos façam parte do seu cotidiano, essas são lembranças que ele levará para além das ladeiras e dos dias oficiais de festa. Não por acaso, o Carnaval de Pernambuco se tornou patrimônio cultural nacional, um reconhecimento que ultrapassa o simbolismo e confirma o peso histórico da festa na formação da identidade brasileira.

Mais do que um evento no calendário, trata-se de uma manifestação que preserva saberes populares, tradições centenárias e expressões culturais que resistiram ao tempo. Seja nos blocos, nas troças e nos maracatus que tomam as ruas do Recife e de Olinda, celebra-se mais do que a música e a fantasia: celebra-se o pertencimento.

Ao ocupar o espaço público, o povo reafirma sua cultura, sua história e sua presença. Os números ajudam a dimensionar essa grandeza. Apenas no Recife, mais de 3,5 milhões de foliões passaram pelos polos de animação, movimentando cerca de R$ 2 bilhões na economia.

O Carnaval gera trabalho, sustenta famílias e ativa uma cadeia produtiva que vai do pequeno ambulante aos grandes palcos. Se a história muitas vezes privilegiou poucos, é nas ruas que muitos encontram voz.

Em Pernambuco, festejar é afirmar pertencimento, reconhecer origens e manter tradições vivas: uma forma de celebrar, resistir e continuar existindo.

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Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pós-graduado em Jornalismo nos Ambientes Digitais pela mesma instituição. Possui experiência como repórter, produtor e coordenador de telejornal.

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