Mais de 40 moradores de Matozinhos, cidade distante 49 km de Belo Horizonte, procuraram a Polícia Civil para registrar golpe aplicado pela financeira Quona Financial, plataforma que oferecia lucro acima do mercado. Entre as vítimas estão médicos, advogados, farmacêuticos, atendentes, motoristas e outras profissões.
Segundo a Polícia Civil, 40 pessoas já registraram Boletim de Ocorrência (BO), mas, conforme vítimas que conversaram com a Itatiaia, o número deve ser muito maior. Isso porque a Quona Financial também teria atuado em outras cidades de Minas, como Juiz de Fora, na Zona da Mata, e em outros estados. Conforme vítimas, o prejuízo pode chegar a R$ 80 milhões.
A Itatiaia conversou com dois moradores de Matozinhos que tiveram prejuízo de R$ 64 mil. Eles explicaram que a financeira oferecia compra de “produtos” com ciclos de 30 dias. De acordo com os relatos, um investimento de, por exemplo, R$ 200,00 gerava juros de R$ 55 ao final do mês, quando a empresa também deveria devolver o capital inicial investido.
Além do retorno direto, a plataforma incentivava o recrutamento de novos membros, oferecendo uma comissão de 10% sobre o valor investido por cada convidado, o que gerou um crescimento frenético da rede na região desde o final do ano passado.
Vítimas relatam que o contato era mantido por uma mulher que utilizava informações pessoais e currículos dos usuários para abordá-los, muitas vezes por chamadas de vídeo, em uma mistura de inglês e português. Esses contatos eram feitos após pessoas que perderam emprego cadastrarem currículos em um aplicativo de vagas de trabalho.
Financeira aplica golpe em Matozinhos, causa prejuízo milionário e deixa caos entre moradores
A desconfiança começou a surgir quando a empresa inventou, na semana passada, uma suposta “eleição” de coordenação estadual, colocando cidades mineiras em disputa para estimular depósitos maiores. No último final de semana antes do colapso, a organização lançou uma promoção agressiva: 100% de cashback para quem realizasse aportes externos via Pix, o que foi visto por alguns como uma tentativa desesperada de arrecadar fundos antes de interromper as operações.
“Desconfiei que tinha alguma coisa errada, porque uma empresa de investimento dando dinheiro assim, tinha alguma coisa errada”, disse uma vítima de 37 anos que perdeu R$ 28 mil.
Na última segunda-feira (26), no horário estipulado para os saques, os usuários foram surpreendidos com a impossibilidade de retirar o dinheiro. A empresa alegou, em comunicado, ter sofrido um “ataque cibernético” e afirmou que hackers haviam alterado os dados bancários dos clientes dentro do aplicativo para nomes de terceiros.
Em uma última manobra, a organização prometeu liberar as contas mediante o pagamento de uma taxa de R$ 900,00. “Desesperadas, algumas pessoas efetuaram o pagamento, mas receberam valores irrisórios em troca. Uma pessoa tinha R$ 15 mil e recebeu apenas R$ 5 mil, após pagar essa taxa de R$ 900.
A situação na cidade é de caos e insegurança. O sistema de indicações, que antes era visto como vantagem, gerou conflitos diretos: as pessoas que convidaram amigos e familiares estão sendo responsabilizadas e culpadas pelas perdas. Uma moradora da cidade, contratada pela Quona Financial para ajudar no recrutamento de clientes, estaria sofrendo ameaças constantes por parte de investidores lesados que buscam culpados pelo sumiço do dinheiro.
“Meu prejuízo no total foi basicamente R$ 36 mil. Conheci a Quona Financial no finalzinho de outubro, mas parece que ela já estava aí antes, já se desenvolvendo no mercado. E eu comecei a fazer aplicação menor, que é de R$ 50, depois foi para R$ 200. Fomos aumentando, porque você aumentava os juros e aplicava valores maiores. Percebi que se tratava de um golpe no final da tarde da sexta-feira (23), porque começou a ter um alvoroço muito grande no grupo pelas promoções e os produtos que eles estavam ofertando, com muitos benefícios para quem adquirisse aquele produto. Mas a hora que vi que ia dar ruim mesmo foi domingo (25), quando eles começaram a oferecer 100% de cashback do valor que você estava comprando o produto e ainda ganhava um outro produto. Isso duplicava, eles chamavam de alavancagem. Em um dia, mais ou menos, mais de 300 pessoas entraram”, lembra a vítima.
Até o momento, o paradeiro dos organizadores reais da plataforma permanece desconhecido. A Itatiaia tenta contato com a Quona Financial. O espaço segue aberto.