Caso Henay: namorado estudou medicina legal e forjou acidente para ocultar feminicídio

Alison de Araújo Mesquita, de 43 anos, foi indiciado por feminicídio qualificado e fraude processual pela morte de Henay Rosa Amorim, de 31 anos

Imagens do dia 13 de dezembro mostram Alison sobre a vítima, que estava deitada em um colchão na sala

Alison de Araújo Mesquita, de 43 anos, foi indiciado por feminicídio qualificado e fraude processual, pela morte da namorada Henay Rosa Amorim, de 31 anos. Conforme inquérito da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), apresentado nesta sexta-feira (23), Alison forjou um acidente de trânsito ocorrido em 14 de dezembro em Itaúna para ocultar o feminicídio planejado na noite do dia 13 de dezembro.

Provas recuperadas

Segundo o delegado responsável pela investigação, João Marcos Amaral, a frieza do suspeito ficou evidente após a perícia em seu aparelho celular. Logo após matar a namorada, Alison realizou pesquisas na internet para sustentar sua versão dos fatos.

“Ele baixou arquivos de jurisprudência sobre casos idênticos e pesquisou sobre medicina legal, focando em fenômenos imediatos da morte por asfixia”, afirmou o delegado. De acordo com a investigação, o objetivo era obter informações técnicas e jurídicas para se defender de uma eventual investigação. “Como não existe crime perfeito, desvendamos o caso através da análise de dados, imagens e exames complementares”, completou Amaral.

Dinâmica dentro do apartamento

A prova crucial do crime veio de uma câmera interna do apartamento no bairro Nova Suíça, em BH, que o autor tentou esconder. A polícia descobriu a existência do dispositivo ao analisar frames salvos na nuvem dos celulares do casal.

As imagens do dia 13 de dezembro mostram Alison sobre a vítima, que estava deitada em um colchão na sala, com as mãos em seu pescoço. O último sinal da câmera foi registrado às 3h36 do dia 14, momento exato em que o autor desligou o equipamento após o crime.

Mesmo após provocar o acidente na MG-050 e receber atendimento médico, Alison retornou ao apartamento para tentar apagar provas. “Havia sangue na maçaneta, no chão e no sofá. Ele tentou limpar, mas a perícia confirmou, via exame de DNA, que o sangue pertencia à vítima”, detalhou o delegado.

Após matar Henay, Alison colocou o corpo no banco do motorista e dirigiu o veículo sentado no banco do passageiro. Ao passar por um pedágio, uma funcionária notou a imobilidade da mulher e o nervosismo do homem, que recusou ajuda. Nove minutos depois, ele lançou o carro contra um micro-ônibus para simular a colisão fatal.

Indiciamento e qualificadoras

A PCMG indiciou Alison de Araújo Mesquita por feminicídio qualificado, com as agravantes de:

  • Asfixia (causa direta da morte);
  • Recurso que dificultou a defesa da vítima;
  • Fraude processual (pela adulteração da cena do crime, ocultação da câmera e tentativa de limpar o sangue no imóvel).

O investigado, que já possuía histórico de violência contra outras mulheres, permanece preso desde o velório de Henay, quando foi detido em flagrante com lesões de defesa pelo corpo.

Veja linha do tempo do crime

1. Histórico de violência e o crime no apartamento

A cronologia da tragédia começa meses antes do feminicídio. Imagens recuperadas pela perícia mostram que, em agosto, Alison já agredia Henay com socos dentro do apartamento do casal, no bairro Nova Suíça, em Belo Horizonte. Sete minutos após um desses ataques, a própria vítima filmou o agressor retirando o cartão de memória da câmera de segurança para apagar provas.

Na noite de 13 de dezembro, o crime foi consumado. Durante uma discussão, Alison asfixiou Henay até a morte. Como era síndico do prédio, ele acreditava ter controle total sobre as câmeras de monitoramento, mas os registros capturaram o momento em que ele arrastou o corpo da namorada, envolto em um colchão, até a garagem.
“Ele sabia o que fazia, era síndico do prédio e tinha total controle sobre as câmeras de segurança. Descobrimos também uma câmera interna no apartamento. Ele tentou ocultar imagens, mas conseguimos registros que mostram momentos em que ele agrediu Henay”, contou o delegado Flávio Destro.

2. O transporte do corpo e o flagra no pedágio

Na manhã do dia 14 de dezembro, Alison colocou o corpo de Henay no banco do motorista de seu veículo. Para deixar a capital, ele sentou-se no banco do passageiro e, operou o carro a partir daquela posição.

Eles foram flagrados em uma praça de pedágio na MG-050. Uma funcionária percebeu que a mulher ao volante estava completamente imóvel. Ao ser questionado, Alison — que apresentava arranhões recentes no rosto — demonstrou extremo nervosismo, afirmou que a namorada estava apenas passando mal e fugiu do local em alta velocidade.

3. A simulação do acidente

Apenas nove minutos após passar pelo pedágio, no km 90 da rodovia, o investigado lançou o carro propositalmente contra um micro-ônibus de turismo. O objetivo era forjar uma morte por acidente de trânsito. Contudo, a necropsia revelou que Henay já estava morta antes da colisão, com sinais claros de asfixia.

4. Frieza e premeditação

A investigação revelou que o crime foi tecnicamente planejado. No celular de Alison, a polícia encontrou buscas por:

  • Acidentes de trânsito fatais;
  • Jurisprudência de casos similares;
  • Estudos de medicina legal sobre fenômenos de asfixia.

“Ele buscava informações técnicas e jurídicas para construir sua defesa antes mesmo de simular o acidente”, afirmou Destro.

5. Prisão e indiciamento

Alison de Araújo Mesquita foi preso em flagrante durante o velório da vítima, após os policiais notarem as lesões de defesa (arranhões) deixadas por Henay. Ele foi indiciado por feminicídio qualificado e fraude processual e segue à disposição da Justiça.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde

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