'Taxa das blusinhas': setor do algodão vê 'retrocesso' em possível fim da medida
Abrapa alerta que isenção para importados de baixo valor ameaça 1,4 milhão de empregos e pode causar rombo de R$ 42 bilhões nos cofres públicos

A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) — em conjunto com cerca 50 entidades representativas da indústria, do comércio e dos trabalhadores — formalizou sua adesão ao manifesto que critica a possível extinção da "taxa das blusinhas" — o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A movimentação ocorre em resposta a discussões internas no Governo Federal e a um projeto de lei na Câmara dos Deputados que visa zerar novamente essa tributação.
Para o presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, a revisão da política tributária é um retrocesso para toda a cadeia produtiva nacional. "A proposta representa um risco concreto para setores fortemente conectados à produção de algodão, como o têxtil e o de vestuário", afirmou.
Impacto no emprego e na economia
O manifesto destaca que a manutenção da taxa, consolidada entre 2023 e 2024, foi um motor para indicadores históricos. Segundo as entidades signatárias, o atual modelo tributário permitiu:
- Geração de empregos: desde a implementação, o comércio criou 860 mil vagas diretas e a indústria outras 578 mil.
- Baixo desemprego: o Brasil encerrou 2025 com taxa de 5,1%, a menor da série histórica.
- Demanda por matéria-prima: o fortalecimento das fábricas nacionais garante o escoamento da pluma de algodão brasileira no mercado interno.
Risco fiscal de R$ 42 bilhões
A preocupação também é arrecadatória. Estimativas apresentadas no documento indicam que a revogação da taxa poderia gerar uma perda anual de R$ 42 bilhões para a União. Em contrapartida, sob as regras atuais, o comércio recolheu R$ 246 bilhões em tributos federais em 2024, um crescimento real de R$ 36,9 bilhões frente ao ano anterior.
De acordo com o jornal O Globo, o governo voltou a avaliar a revogação da chamada "taxa das blusinhas", em meio ao ano eleitoral. O movimento é liderado pela ala política, especialmente o ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), que defende a revogação para reduzir o impacto no bolso do consumidor.
No entanto, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, reforçou na última quinta-feira (2) a necessidade da cobrança para equilibrar a concorrência. Segundo Alckmin, produtos fabricados no Brasil enfrentam carga tributária próxima de 50%, enquanto os importados pagavam muito menos antes da taxa. "É defesa do emprego e da renda", pontuou o vice.
Tendência global de proteção
O manifesto também ressalta que países como os Estados Unidos e membros da União Europeia têm endurecido o cerco contra plataformas globais de e-commerce para proteger suas próprias indústrias de transformação.
O setor produtivo espera investir R$ 100 bilhões no país em 2026, mas adverte que esse aporte depende da previsibilidade e segurança jurídica garantidas pela manutenção da igualdade tributária entre o produto nacional e o importado.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



