Nova crise do petróleo e insumos? Guerra no Irã pode encarecer agronegócio no Brasil

Morte de líder supremo iraniano pode elevar preços do fertilizantes

Irã é um produtor relevante de ureia, insumo estratégico para culturas como milho e trigo

Os recentes ataques dos Estados Unidos ao Irã, que resultaram na morte do ex-líder supremo aiatolá Ali Khamenei e de seus familiares no último sábado (28), reacenderam a instabilidade no Oriente Médio e colocaram o agronegócio brasileiro em estado de atenção. Embora a dimensão real do conflito ainda esteja sendo calculada, os primeiros reflexos já atingem mercados estratégicos como o de petróleo, fertilizantes e o comércio exterior de grãos.

Diferente da previsão do presidente norte-americano, Donald Trump, que estimou um conflito de cerca de quatro semanas, analistas acreditam que o Irã pode buscar um confronto mais duradouro e desgastante. Para o professor de Relações Internacionais da PUC Minas, Danny Zaredine, os próximos dias serão cruciais para entender a profundidade desse impacto no Brasil.

“Os próximos dias serão essenciais para a gente poder entender até que ponto isso vai impactar diretamente o Brasil e o mundo. Já temos impactos nisso. O Brasil exporta muito milho e muitos grãos para o Irã. O Irã, por sua vez, exporta elementos de fertilizantes e petróleo para nós. Há uma relação importante que não fica restrita apenas ao território iraniano”, explicou Zaredine.

Risco energético e a ‘segunda crise do petróleo’

Uma das maiores preocupações globais reside na logística marítima. O Estreito de Ormuz, ponto de passagem vital para a economia mundial, corre o risco de ser bloqueado caso as hostilidades avancem.

“Não conseguimos ver claramente os impactos no petróleo ainda, porque se o Estreito de Ormuz de fato continuar fechado, estamos falando de uma via por onde passa de 20% a 30% de todo o petróleo distribuído pelo mundo. Viveríamos quase uma segunda crise do petróleo, o que é muito grave”, alertou o professor.

Impacto direto nos custos de produção: ureia e milho

Para o produtor rural brasileiro, o risco imediato não é o desabastecimento, mas o encarecimento da produção. O Irã é um grande produtor de ureia, fertilizante nitrogenado essencial para culturas como milho e trigo. Como a fabricação desse insumo depende do gás natural — que acompanha a valorização do petróleo —, o custo de importação tende a subir.

Mesmo com sanções internacionais, qualquer redução na oferta global eleva os preços internacionais, pressionando as margens da próxima safra brasileira.

Radiografia do comércio bilateral: Brasil e Irã

O Irã é um parceiro comercial estratégico para o Brasil, ocupando a 31ª posição no ranking global de parceiros. No ano passado, as trocas comerciais somaram US$ 3 bilhões.

  • Exportações brasileiras: o milho é o protagonista, representando 67,9% das vendas (US$ 1,9 bilhão), seguido pela soja (19,3%). Açúcares e farelo de soja também compõem a pauta.
  • Importações: embora mais modestas (US$ 84 milhões em 2025), são altamente concentradas: 79% do que o Brasil compra do Irã são fertilizantes e adubos.

No curto prazo, o impacto nas exportações de grãos é limitado pelo calendário das safras, mas uma escalada duradoura exigirá que o Brasil reacomode sua estratégia de comércio exterior para evitar perdas em um de seus principais mercados no Oriente Médio.

Leia também

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde

Ouvindo...