O setor vitivinícola da Região Sul do Brasil ganha, a partir desta semana, um reforço estratégico para o mercado de uvas de mesa. A Embrapa apresentou oficialmente a BRS Pérola, uma cultivar de uva branca sem sementes desenvolvida para aliar o desejo do consumidor moderno — praticidade e sabor — à necessidade do produtor por facilidade de manejo e rentabilidade.
Com potencial produtivo de até 30 toneladas por hectare, a novidade foi lançada nesta quinta-feira (19) em Alto Feliz, no Rio Grande do Sul, e terá destaque também na tradicional Festa da Uva, em Caxias do Sul.
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Substituto à altura da uva Itália
Diferente das variedades com sementes que dominam parte do mercado regional, a BRS Pérola chega para ocupar o espaço de uvas finas como a tradicional Itália. Suas características lembram a famosa Thompson Seedless:
- Visual: bagas alongadas de cor amarelo vivo.
- Paladar: textura crocante, firme e sabor equilibrado entre açúcar e acidez.
- Manejo: os cachos são naturalmente mais soltos, o que reduz drasticamente a necessidade de mão de obra para o raleio.
Uva tem formato alongado e amarelada
Para o pesquisador João Maia, da Embrapa Uva e Vinho, a cultivar é ideal para o turismo rural e o sistema “colha e pague”. “O consumidor jovem busca a conveniência de não ter sementes, e o produtor consegue um lucro maior na venda direta”, explicou.
Desempenho técnico e cultivo protegido
O sucesso da BRS Pérola na Região Sul está atrelado ao uso da cobertura plástica (cultivo protegido), técnica essencial para garantir a qualidade sanitária e visual dos frutos.
- Ciclo: médio (cerca de 170 dias da brotação à colheita).
- Colheita: ocorre tipicamente em fevereiro.
- Porta-enxerto: recomendação do uso do Paulsen 1103 para máxima adaptação.
O viticultor Jair Freiberger, que testou a variedade nos últimos três anos em Alto Feliz, confirmou o otimismo: “A coloração e a crocância vão conquistar o cliente. Acredito que ela substituirá as uvas tradicionais na preferência de quem busca qualidade”.
Viticultor Jair Freiberger validou nova cultivar
Exclusiva para o Sul
A recomendação da BRS Pérola exclusivamente para a Região Sul fundamenta-se no rigoroso processo de melhoramento genético iniciado em 2004, que moldou a cultivar para responder com excelência às condições específicas do clima temperado.
Por ser uma planta de ciclo médio, necessitando de cerca de 170 dias desde a brotação até a colheita em fevereiro, ela exige o equilíbrio térmico e o período de dormência proporcionados pelo inverno sulista para garantir uma produtividade de até 30 toneladas por hectare. Diferente do Semiárido Brasileiro, onde o calor constante e a alta radiação aceleram excessivamente o metabolismo das videiras, o Sul permite que a BRS Pérola desenvolva sua textura moderadamente firme e suas bagas elipsoides de 18 milímetros sem sofrer com distúrbios fisiológicos ou perda de qualidade sensorial.
Além da adaptação climática, a cultivar foi validada especificamente para o sistema de cultivo protegido sob cobertura plástica, técnica amplamente difundida na Serra Gaúcha e em Santa Catarina para proteger os parreirais contra o excesso de chuvas e doenças fúngicas.
Esse manejo é o que assegura a integridade da película e a preservação dos traços rudimentares das sementes, que permanecem minúsculos e imperceptíveis ao paladar. No Semiárido, a ausência de validação técnica significa que a planta poderia não responder adequadamente à aplicação de hormônios como o ácido giberélico, resultando em cachos fora do padrão comercial ou em uma longevidade reduzida da planta, o que justifica a restrição geográfica da recomendação da Embrapa.
Como adquirir mudas
Cultivar não é recomendada para a região do Semiárido Brasileiro
O acesso à nova tecnologia já está disponível, mas exige planejamento do produtor:
- Viveiros Licenciados: inicialmente disponível via Viecelli Viveiros (SC) e MP Mudas (RS).
- Antecedência: devido ao sistema de produção sob encomenda, as reservas devem ser feitas com um ano de antecedência.
- Plantio: recomendado para a primavera, utilizando mudas do tipo “raiz nua”.
“A BRS Pérola reafirma o papel da ciência pública como instrumento de inovação e sustentabilidade para a agricultura”, destacou Adeliano Cargnin, chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho.