Após sete anos de pesquisas intensas, a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) validou nove novas variedades de uva que se adaptam com sucesso à técnica da
O estudo, iniciado em 2015 com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), foi realizado em parceria com a vinícola Casa Geraldo, em Andradas, no Sul de Minas. Ao todo, doze cultivares foram testadas entre 2018 e 2022 para verificar quais respondiam melhor ao manejo (dupla poda) que desloca a colheita para o período seco do ano, quando a amplitude térmica e a insolação favorecem a maturação da fruta.
De acordo com a pesquisadora Cláudia Souza, a diversificação era uma forte demanda do mercado. “Buscamos diversificar a produção dos vinhos de colheita de inverno que, até então, se concentrava apenas na utilização das uvas Syrah e Sauvignon Blanc. Havia uma grande demanda para abrir o leque de opções de variedades para atender aos diferentes perfis de consumidores de vinho”, ressaltou a pesquisadora. Com a validação de novas opções, a produção mineira e nacional ganha robustez e capacidade de inovação frente aos vinhos importados.
Veja as cultivares
Entre as variedades brancas, o aproveitamento foi total. Todas as quatro testadas — Vermentino, Muscat à Petits Grains Blanc, Viognier e Marsanne — demonstraram excelente potencial agronômico e enológico.
Já entre as tintas, as recomendações recaíram sobre Tempranillo, Grenache, Touriga Nacional, Marselan e Mourvèdre. Por outro lado, as variedades Carménère e Petit Verdot não atingiram a produtividade necessária para o cultivo de inverno e foram descartadas para este manejo específico.
Um dos grandes destaques da pesquisa é a uva francesa Marselan. “A Marselan brota com facilidade, é produtiva e apresenta excelente potencial de acúmulo de açúcar, entre 23 e 25 °Brix, além de manter a acidez elevada”, explicou Francisco.
Os resultados das pesquisas já estão sendo aplicados pelos produtores. As variedades Merlot, Cabernet Sauvignon, Tempranillo e Marselan já vêm sendo utilizadas na produção de vinhos de colheita de inverno por meio do manejo da dupla poda.
O que é a dupla poda?
A dupla poda, ou poda invertida, é uma técnica que envolve duas podas anuais na videira para inverter o ciclo natural de produção, permitindo que a colheita ocorra no inverno, ao invés de somente no verão.
Segundo a enóloga da Epamig, Cristiane Rota, a técnica contribui para regiões que jamais pensariam que teriam viticultura.
“Nessa poda, que a colheita acabou de acontecer a planta começa a brotar, essa frutificação é retirada da planta. Então a planta continua vegetando e ganhando energia, acumulando para quando chegar no começo do ano, janeiro e fevereiro, realizar a segunda poda. E aí sim, essa poda vai ser a poda de produção. Então a gente deixa o fruto crescer e isso vai culminar lá na colheita de inverno”, explica Cristiane Rota.
Ela explica que o período de evolução da planta e do fruto acontece quando as condições climáticas são ideais para concentração de composto fenólicos, de açúcares e para deixar essa maturação completa e alcançar um vinho de qualidade através dessa matéria-prima.
"À noite eu tenho temperaturas amenas, faz com que a videira preserve esses compostos e acumule reservas. Então a concentração desses compostos é maior. E aí eu vou ter uma maturação completa desse fruto, tendo uma uva de qualidade. Evito doenças, porque nessa época a gente não tem chuva, não tem umidade, é um clima seco, isso favorece muito a maturação. Então a gente consegue alcançar vinho com mais compostos fenólicos, vinhos mais estruturados”, pontua a enóloga.