Embrapa desenvolve modelo inédito para medir captura de carbono na agricultura tropical
Tecnologia criada para as condições brasileiras pode aumentar a transparência do mercado de carbono e avaliar com mais precisão o armazenamento de carbono no solo

A Embrapa está em fase final de desenvolvimento do primeiro modelo desenvolvido em região tropical para mensurar a dinâmica da chamada agricultura de carbono (carbon farming). Essa modalidade de plantio envolve atividades agrícolas que visam retirar o carbono da atmosfera e estocá-lo no solo.
O novo modelo, nomeado de ProCarbon-Soil (Procs), foi apresentado em um artigo publicado no Soil Science Society of America Journal. Além de ser adaptado às condições da agricultura brasileira, o modelo melhora a compatibilidade entre as variáveis mensuradas e simuladas, o que pode contribuir para tornar o mercado de carbono mais transparente para operadores e agricultores.
Enquanto os tradicionais modelos multicompartimentais de carbono no solo usam entre quatro e oito variáveis de estado e entre sete e 20 parâmetros, o modelo proposto utiliza apenas duas variáveis mensuráveis: estoque total de carbono e sua decomponibilidade.
Com base em uma abordagem matemática e no arcabouço teórico sobre a dinâmica do carbono orgânico no solo, o Procs simula com precisão os impactos de práticas agrícolas como rotação de culturas, plantio direto e preparo do solo em diferentes condições climáticas.
Inovação e tecnologia
Para que o desenvolvimento fosse possível, foi usada uma base de dados primários composta por informações de pesquisas da Embrapa e da Bayer, empresa parceira do projeto. A calibragem do modelo exigiu outra extensa base de dados secundários, composta por 4.290 amostras de solo de todas as regiões brasileiras, oriundas de 370 estudos publicados.
“O que a gente precisa para o mercado de carbono é a dinâmica, a variação do carbono total. Uma segunda métrica é associada à qualidade desse carbono, o quão estável ele está. Outros modelos particionam o carbono em diferentes compartimentos. O nosso avalia a qualidade geral do carbono”, afirmou Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (SP) e líder do projeto.
Barioni explicou que, além de ser mensurável, verificável e reportável de um modo mais simples, o modelo proposto traz vantagens para a agricultura brasileira. Até então todos os outros modelos reconhecidos no mercado de carbono haviam sido desenvolvidos em regiões temperadas, onde os sistemas produtivos são diferentes e o comportamento da matéria orgânica no solo também é distinta.
“Entre essas vantagens destacam-se a autonomia e o desenvolvimento contínuo para que não fique obsoleto. É um modelo nosso, temos a propriedade intelectual, o que é outra vantagem importante”, afirmou Barioni.
Para que o Procs possa ser adotado, ele precisa de acreditação por certificadoras que atuam no mercado voluntário de carbono. No momento, os pesquisadores estão elaborando um Relatório de Validação de Modelo para ser enviado à Verra, a maior certificadora de créditos de carbono do mundo.
O Procs foi desenvolvido no âmbito do projeto PRO Carbono, uma parceria entre Embrapa e Bayer. Ele será embarcado em uma grande plataforma da multinacional; além disso, subsidiará o Inventário Nacional de Emissões e Mitigação de Gases de Efeito Estufa e ações de política pública.
“Esse modelo precisa ser reconhecido pela academia e por outros atores. Quanto mais gente usá-lo, maior será a sua credibilidade”, explicou Barioni.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



