Cota da carne brasileira na China atinge 78,9% e volume deve superar limite
Embarques pendentes vão estourar o teto chinês para 2026; sem novos mercados para absorver o volume, frigoríficos já reduzem abate e pessoal

A Administração Geral das Alfândegas da China (GACC) divulgou, nesta terça-feira (21), os dados de comércio referentes a junho, confirmando que o país asiático importou oficialmente 872.214 toneladas de carne bovina brasileira no primeiro semestre. O volume já representa 78,9% da cota anual de 1,106 milhão de toneladas fixada unilateralmente por Pequim para 2026.
Os números da GACC, no entanto, registram apenas o produto que já passou pela liberação alfandegária. Como existe um intervalo de tempo entre o carregamento no Brasil e a nacionalização da carga nos portos chineses, projeções que levam em conta os volumes a caminho apontam que o limite da cota já foi ultrapassado no cenário real e deve ser confirmado nos relatórios seguintes.
Em junho, o Brasil embarcou 161,9 mil toneladas do produto para a China (dados da Abiec)— volume que deve desembarcar em território chinês entre julho e agosto. Somado ao desempenho de maio (154,8 mil toneladas), os dois meses acumulam 313,1 mil toneladas a caminho ou aguardando liberação.
Indústria no vermelho e tombo nas exportações
O teto imposto por Pequim desenha um cenário alarmante para a pecuária nacional. De acordo com o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, o "mix tradicional" — equilíbrio que sustenta o consumo doméstico com os altos ganhos das vendas externas — foi severamente abalado pelo atual contexto geopolítico.
A previsão da entidade é de que as vendas para a China despenquem para algo entre 850 mil e 900 mil toneladas em 2026 (que, somadas ao montante residual do ano anterior, totalizam o teto de 1,1 milhão). Isso representa um recuo drástico de pelo menos 700 mil toneladas na comparação com o volume exportado ao mercado chinês no ano passado.
Para Perosa, não há, no curto prazo, parceiros comerciais capazes de absorver esse excedente. "Hoje, a maioria das indústrias está trabalhando no vermelho e tomando medidas como férias coletivas, demissões, redução de abates e readequação de pessoal. As maiores indústrias dependem da exportação para a firmação dos seus preços e de suas margens."
O Vietnã, apontado por alguns como alternativa promissora, deve fechar o ano recebendo um volume modesto de 15 mil a 20 mil toneladas, freado por barreiras culturais de consumo.
Impacto no mercado interno
Historicamente, o mercado brasileiro consome cerca de 70% da produção nacional de carne bovina, mas são as exportações que garantem a rentabilidade e a saúde financeira dos frigoríficos.
Sem o forte apelo do mercado internacional para impulsionar os preços da proteína, a tendência atual é de que o preço da carne ao consumidor final se mantenha estável, podendo registrar altas pontuais no varejo interno, mas sob um cenário de margens extremamente espremidas para o setor industrial.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



