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Do cerrado para a savana: mineira trabalha com melhoramento de arroz para alimentar população de Angola

Pesquisadora mineira da UFLA, Flávia Botelho, foi convidada por empresa angolana para levar cultivares de arroz, já testadas no sul de Minas, para o país africano; plantio começa em outubro

Um projeto de melhoramento genético do arroz de terras altas - denominado “Melhor Arroz”, parceria da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Epamig e Embrapa Arroz e Feijão - que vem sendo desenvolvido com sucesso no sul de Minas - acaba de ganhar um braço em Angola, na África.

A melhorista responsável é a engenheira agrônoma mineira Flávia Botelho, atualmente, professora da UFLA e pesquisadora convidada da Universidade do Arkansas, nos EUA. Especialista em melhoramento genético do cereal desde 2010, mestre e doutora em genética e melhoramento de plantas e pós-doutora em biotecnologia aplicada ao melhoramento de plantas, ela conta que em 2021, recebeu um telefonema do dono de uma empresa angolana de produção de sementes, chamada Jardins da Yoba que queria sondar a possibilidade de estender, por meio de uma parceria - o programa “Melhor Arroz” para o país dele.

“Como se trata do carboidrato mais consumido do mundo, eu não tive como dizer ‘não’, ainda mais em se tratando de um país com tantas vulnerabilidades sociais como Angola”, disse a pesquisadora. O contrato de parceria entre a Jardins da Yoba e a Ufla foi firmado em março desse ano, mas os trabalhos para desenvolver genótipos de arroz de terras altas, adequados às condições do país africano já vêm sendo desenvolvidos desde o final de 2022.

Pesquisadora se comoveu com questões sociais do país

De lá pra cá, Flávia visitou Angola pelo menos seis vezes e se impressionou com as péssimas condições sociais, a fome e a alta mortalidade infantil. “Eu e minha equipe fomos para estudar o clima, pluviosidade, a topografia e os solos para ver se seria possível, se teríamos sucesso com a implantação das nossas sementes melhoradas por lá”.

Foram feitos vários plantios-teste e, após três anos, ficou comprovado que Angola tem potencial para ser um grande produtor de arroz de sequeiro, com o apoio incondicional do Governo que decretou que 2024 é o “Ano do Arroz em Angola”.

“Os principais carboidratos consumidos por eles, infelizmente, ainda são a mandioca e o milheto, alimentos, considerados pobres em vitaminas, minerais e proteínas em comparação com o arroz. O desejo deles - empresários e governantes - é aumentar a diversidade e a qualidade alimentar no país. Por isso, antes de ser um projeto de pesquisa é um projeto social. É a minha ‘menina dos meus olhos’ por estarmos trabalhando com a segurança alimentar de um país tão sofrido”, disse a pesquisadora.

O motivo deles quererem o arroz de sequeiro (terras altas) e não o arroz inundado é que é uma cultura zero emissão de carbono, que demanda muito menos água do que o outro sistema.

“Ela também é mais fácil de conduzir e tem um custo de produção menor. Sem falar que proporciona ‘vantagens nutricionais para a cultura que vier na sequência, como o feijão ou o milho”

“Nossas linhagens desenvolvidas na UFLA, tiveram um desempenho muito satisfatório na região de Angola, demonstrando boa produtividade, precocidade, qualidade do grão e resistência a doenças. Nesse momento, estamos trabalhando na incorporação de nutrientes, como o zinco, para termos um arroz biofortificado que irá beneficiar muito a população, principalmente, as crianças”, explicou Flávia.

Cem hectares do ‘melhor arroz’ serão plantados em Angola a partir de outubro, com previsão de colheita em janeiro de 2025.

Brasil poderá se ‘beneficiar’ dessa pesquisa?

Flávia acredita que, não só o Brasil, mas o mundo todo, porque quanto mais arroz houver circulando no mercado, menos seremos impactados por catástrofes - como a que está acometendo o Rio Grande do Sul - e que possam aumentar absurdamente o preço desse cereal tão vital para nossas vidas.

O projeto “Melhor Arroz” deve, inclusive, render um livro. Flávia foi convidada por uma empresa suíça para traduzir em textos toda sua experiência técnica nessa jornada humanitária por Angola. A obra já tem, inclusive título e ele se parece com o dessa matéria que a própria Flávia sugeriu que usássemos: “Do cerrado para a savana africana”

Flávia nasceu em Lavras e começou a carreira acadêmica na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em 2006 quando surgiu a oportunidade de trabalhar com a cultura do arroz em parceria com a Embrapa Agrosilvopastoril. “Esse ano completo 14 anos estudando cultivares de arroz e acho que cheguei no melhor momento da minha trajetória”. Alguém duvida?

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Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais ‘Hoje em Dia’ e ‘O Tempo’ e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.



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