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Transgênicos: quem tem medo da modificação genética na agricultura? Veja o que é fato ou fake

Brasil é o segundo maior produtor de plantas transgênicas, atrás apenas dos EUA. Muita desinformação ronda o tema. Especialista ouvido pela Itatiaia esclarece algumas das principais dúvidas

Todos nós consumimos alimentos feitos a partir de plantas transgênicas no nosso dia a dia. É que a variedade de alimentos desse tipo, em nosso país, é grande, indo da banana à soja, que é a base de muitos outros produtos.

De acordo com o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), o Brasil tem 49 milhões de hectares destinados ao cultivo dos transgênicos, o que coloca o país em segundo lugar no ranking mundial, atrás apenas dos Estados Unidos.

Transgênico é sinônimo para a expressão ‘organismo geneticamente modificado - OGM’, ou seja, aquele que recebeu o gene de outro organismo. E essa alteração permite que ele mostre uma característica que antes não possuía.

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Para tirar as principais dúvidas sobre o assunto, a Itatiaia conversou com o engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa e membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Décio Luiz Gazzoni. Segundo ele, o uso de organismos geneticamente modificados é muito comum na medicina, na indústria farmacêutica e na agricultura.

Nas áreas da medicina e da farmácia, praticamente não há contestações. Afinal, dificilmente alguém vai se engajar numa luta contra a produção de insulina por bactéria transgênica, pois isso significaria sofrimento ou óbito de pessoas próximas. Já na agricultura, de acordo com o pesquisador, nunca houve aceitação incondicional de alimentos geneticamente modificados.

“Há movimentos organizados que se auto impuseram a missão de combater o uso de modernas ferramentas de biotecnologia na agricultura. A explicação mais aceita pelos analistas é que os movimentos contrários a alimentos derivados de organismos geneticamente modificados se localizam em países ricos, com elevada renda per capita, onde não há escassez de alimentos, e a parcela do orçamento familiar destinada ao consumo de alimentos é pequena. “Portanto, o alimento não vai faltar, e se dobrar de preço, pouco afeta o orçamento doméstico”, disse ele.

Avanços em culturas como soja, milho, algodão…

Apesar desses posicionamentos contrários, o uso da biotecnologia avançou muito no campo, em especial em culturas como soja, milho, algodão, trigo, arroz e canola.

De acordo com o professor, o sucesso dessas tecnologias foi tanto, que hoje é muito difícil encontrar variedades dessas culturas que não sejam resistentes a um herbicida ou a insetos-pragas.

E, apesar de bilhões de toneladas desses alimentos terem sido produzidas e consumidas nos últimos 20 anos, sem que houvesse uma única evidência de algum problema de saúde derivado desse consumo, a oposição acirrada dos grupos organizados permanece ativa.

“É onde aparece a má Ciência, que tenta demonstrar problemas causados pelo uso da biotecnologia, ou de insumos a ela associados. Entretanto, essas publicações não resistem a uma análise de especialistas no assunto, que demonstram que são estudos que carecem de credibilidade”.

Vejamos alguns exemplos:

😢É fake Glifosato influencia o surgimento de Autismo, Parkinson e Alzheimer. O composto é um herbicida utilizado em conjunto com variedades transgênicas, resistentes aos herbicidas. É comum a veiculação de notas nas redes sociais afirmando que o glifosato pode influenciar na ocorrência de Autismo, Parkinson e Alzheimer – No entanto, não há qualquer evidência científica da relação entre glifosato e as doenças citadas.

😊É fato: a modificação genética cria organismos mais resistentes, mas também gera pragas resistentes ao próprio OGM. Verdade. Mudando o DNA dos organismos, eles se tornam mais resistentes às pragas agrícolas. Porém, essas pragas podem acabar tornando-se resistentes também. De acordo com Gazzoni, essa resistência acontece da seguinte maneira: vamos supor que em uma lavoura de soja, cultivada com soja RR (resistente ao herbicida glifosato) exista uma infestação de plantas daninhas. O agricultor vai pulverizar herbicida e as plantas daninhas vão morrer.
Mas, após alguns anos e diversas pulverizações de glifosato, pode acontecer que uma planta, de uma determinada espécie, sobreviva à aplicação do herbicida. Isso porque ela possui , em seu DNA, um gene que a torna resistente ao glifosato. Essa planta que sobrevive vai produzir sementes e se espalhar na lavoura e, eventualmente, também para outras lavouras. É assim que surge a resistência, que é muito prejudicial para o agricultor.
Para evitar esse problema, os agrônomos recomendam o uso de “refúgios”, ou seja, de áreas da lavoura onde o glifosato não é utilizado, o que permite que as plantas invasoras mantenham sua característica de suscetibilidade, o que será transmitida para sua descendência.

😢É fake - Transgênicos podem causar inflamações estomacais - Um estudo investigou a ocorrência de inflamações estomacais e aumento do útero em porcos alimentados com OGMs. Mas tudo ficou na hipótese, nada foi provado e o artigo que falava sobre o assunto foi duramente criticado por cientistas.

😊É Fato: alimentos transgênicos são mais baratos do que os convencionais.
Verdade. Os transgênicos são geralmente mais baratos, pois seus custos de manejo e controle de pragas são menores, o que torna o seu plantio e cultivo mais em conta.

😢É fake - DNAs dos alimentos transgênicos podem ser transferidos para humanos - Ativistas acenam com o risco de incorporação do DNA de OGMs, em seres humanos. Na realidade, foram detectados genes de alimentos OGMs em plasma humano, concluindo que flutuam no espaço intercelular, sem nenhuma integração ao genoma. Portanto, não há transferência.

😊É fato - Organismos geneticamente modificados podem afetar o meio ambiente. Existem diversos estudos que são requisitados pelos órgãos governamentais, para atender a legislação que demonstra o não impacto de OGMs no ambiente. Entretanto, alguns impactos podem ocorrer a médio e longo prazo. Por exemplo, receia-se que a presença dos transgênicos possa levar à extinção de espécies vegetais, uma vez que enfraquece a biodiversidade local, por sua maior capacidade de competição. “No entanto, isso demoraria muito tempo para acontecer e, nesse período, a espécie transgênica pode ser substituída por outra, com características diferentes, o que reduz o risco de impacto”.

😢É fake: Alimentos transgênicos causam alergia ou câncer. Nos testes que são efetuados pelos órgãos oficiais, a eventual ocorrência de alergia ou câncer, associada a alimentos que têm como base plantas transgênicas, significa que o mesmo não será liberado para comercialização e consumo. Dessa forma, não existem pesquisas que comprovem que o consumo de alimentos derivados de plantas transgênicas está associado ao crescimento de tecidos ou qualquer outro sintoma do câncer.
No caso da alergia, é mais provável que ela esteja associada com a composição do alimento ou com algum elemento modificador utilizado, como corantes ou conservantes. Esses alergênicos e outras informações devem ser indicados no rótulo do produto, que é imprescindível para a sua comercialização. Portanto, o consumo de alimentos geneticamente modificados não tem relação comprovada com o câncer ou com o aparecimento de alergias.

😢É Fake - Os transgênicos ainda não são considerados seguros e não estão regulados adequadamente. Não existem evidências comprovadas de que os transgênicos são menos seguros que os tradicionais. Sua segurança é avaliada por uma série de estudos que permitem sua produção e comercialização. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) é o órgão responsável por verificar a segurança dos organismos geneticamente modificados para comercialização no Brasil. Por meio da Lei de Biossegurança e Biotecnologia (Lei nº 11.105/2005), realizam-se muitos testes com produtos geneticamente modificados, que têm por função avaliar a segurança alimentar destes organismos antes de liberar sua comercialização.

😢É Fake - Os alimentos com modificação genética podem acabar com a fome mundial. A alteração dos genes dos organismos pode sim aumentar a produção, mas a fome mundial não pode ser resolvida considerando apenas por esse fator.

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Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais ‘Hoje em Dia’ e ‘O Tempo’ e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.



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