Noruega: viagem de cruzeiro pelos fiordes e imersão na cultura viking

Descubra paisagens espetaculares, tradições milenares e experiências gastronômicas autênticas navegando pela costa norueguesa e cidades históricas da Escandinávia

Daniela Filomeno na Noruega

Navegar pelos fiordes noruegueses é mergulhar em cenários que parecem ter sido esculpidos por gigantes. Paredões verdes se erguem a 200 metros de profundidade, cachoeiras despencam de montanhas cobertas de neve, e vilas coloridas se aninham entre o mar e as rochas.

Esta jornada pela Noruega revela muito mais que paisagens espetaculares. É uma imersão em tradições milenares vikings, na aquicultura sustentável de salmão e na gastronomia nórdica que celebra ingredientes locais. Das ilhas Lofoten à histórica Bergen, cada parada oferece experiências que conectam natureza, história e sabores autênticos.

Arquipélago de Lofoten e a cidade azul de Sortland

O arquipélago de Lofoten abriga alguns dos fiordes mais impressionantes da Noruega. A região combina formações rochosas dramáticas com vilarejos de pescadores que preservam tradições centenárias.

Sortland oferece uma história singular de transformação urbana. Um artista local, cansado de ouvir referências à Dark City (cidade escura) por causa dos longos invernos, decidiu pintar dezenas de casas de azul e outras cores vibrantes. A iniciativa transformou a identidade da cidade, que passou a ser conhecida como Cidade Azul.

Na cidade, uma instalação artística provoca reflexão sobre mudanças climáticas. Uma casa tem parte de sua fachada pintada de azul até certa altura, marcando o nível que a água do mar pode atingir em 2150 se nada for feito. A frase acompanhante alerta que “nossos netos verão isso se nada for feito”.

Aquicultura sustentável do salmão norueguês

A Noruega fornece salmão para 14 milhões de consumidores em todo o mundo. A produção acontece em fazendas aquáticas que oferecem passeios educativos para visitantes entenderem os detalhes dessa atividade econômica fundamental para o país.

Nas unidades de criação, cercados com 35 metros de profundidade abrigam cerca de 100 mil salmões. Os peixes são alimentados até atingirem entre 4 e 6 quilos, pesando cerca de 2,3 quilos no meio do ciclo produtivo. O comportamento natural de saltar, observado em rios e oceanos, se mantém mesmo no ambiente controlado.

A indústria norueguesa evoluiu significativamente nas últimas décadas. Segundo explicações dos responsáveis pelas fazendas, há 10 ou 15 anos o uso de químicos e antibióticos era intenso. As práticas atuais eliminaram esses componentes, focando em processos mais sustentáveis que se aprimoram a cada ano, especialmente na alimentação sem anabolizantes.

A degustação de salmão defumado e Arctic Char (uma espécie de peixe local) servidos com sour cream, mostarda e limão representa a forma tradicional de consumo. Conhecer de perto a produção com procedência e preocupação ambiental esclarece aspectos dessa aquicultura cercada de debates.

Experiência a bordo com gastronomia de luxo

Os dias de navegação entre destinos permitem aproveitar a estrutura completa da embarcação. O spa oferece tratamentos como massagens relaxantes e saunas, proporcionando renovação após dias intensos de exploração.

O South Bar se destaca pela coquetelaria autoral inspirada na região nórdica. Drinks como Nordic Smokehouse e Aurora incorporam ingredientes locais, incluindo whisky sueco. A técnica de milk punch, que mistura limão e leite para criar um coquetel completamente claro após filtragem, exemplifica a sofisticação da mixologia a bordo.

restaurante francês La Dame serve experiências gastronômicas com assinatura da família Cases. O menu permite tanto degustação completa quanto pedidos à la carte. Caviar servido com colher de madrepérola, lagosta fresca e harmonização cuidadosa de vinhos compõem jantares memoráveis, com ingredientes adquiridos nas próprias regiões visitadas.

Flam e os fiordes noruegueses

Flam representa uma das paradas mais emblemáticas pela concentração de atrações naturais. A região sul da Noruega apresenta paredões verdes característicos dos fiordes, formações criadas pela erosão de geleiras durante a última grande era glacial.

No caminho para Flåm, cachoeira Tvindefossen é apelidada de “fonte da juventude”

Segundo explicações de guias locais, quando a neve e o gelo derreteram e escoaram para o mar, erodiram vales profundos. A profundidade dos fiordes nessa região chega a 200 metros. Quando o gelo encontrou o mar do norte, a água entrou nos vales esculpidos, criando essas formações únicas.

Voss, nas proximidades, é reconhecida por ter algumas das águas mais puras do planeta. A gôndola que sobe 850 metros de altura permite contemplar a paisagem, embora o clima norueguês seja imprevisível. A previsão do tempo funciona apenas para as próximas três horas, segundo moradores locais.

A cachoeira Twin Defossen, com 116 metros de altura, é um dos cartões postais da região. Suas águas são consideradas fonte de juventude segundo tradições locais. A força da natureza se manifesta no spray e no volume impressionante da queda d'água.

Imersão na cultura viking em Gudvangen

O vale de Gudvangen significa “lugar onde adoram os deuses” e abriga uma vila viking reconstruída. O local foi criado há 28 anos e recebe até 80 famílias no verão, pessoas que buscam não apenas visitar, mas vivenciar e aprender sobre essa cultura através da imersão.

Segundo especialistas locais que atuam na vila, a maioria das pessoas no período viking eram agricultores, não piratas profissionais como frequentemente retratado. “Viking significa um pirata profissional, mas você esquece isso na escola”, explica um dos responsáveis. “Na escola, os vikings eram apenas vagabundos e pessoas não muito boas. E isso não era a verdade sobre as pessoas que moravam na Escandinávia.”

O sistema de escrita rúnica representa uma das principais heranças culturais. As runas do Futhark antigo (há três variações: Futhark alemão ou anglo-saxão, Futhark antigo e Futhark novo) são letras com significados específicos. Láhut, por exemplo, é uma das runas associadas ao deus Loki.

Os barcos vikings surpreendem pela engenharia avançada. “Os barcos dos vikings são muito melhores do que você imagina”, explica um especialista em embarcações históricas. “Eles são construídos de diferentes maneiras, com pranchas mais leves, fazendo-os mais manobráveis.” Com essas embarcações, os vikings viajaram até a África do Norte, Turquia e Rússia.

Sobre a reputação de violência, o mesmo especialista esclarece: “Eles eram basicamente como você e eu, moravam em lugares como este, tinham pequenos recursos. Muitos eram comerciantes e navegadores, não violentos, mas é claro são mais famosos pela violência.”

Atividades práticas como arco e flecha, arremesso de machado e visitas a casas vikings reconstituídas completam a experiência cultural. Apresentações de flauta nórdica em meio às montanhas adicionam profundidade emocional à compreensão dessa herança milenar.

Bergen e o patrimônio hanseático

Bergen encerra a jornada pelos fiordes noruegueses como a cidade mais completa em termos de história e gastronomia. É a segunda maior cidade da Noruega, ficando atrás apenas de Oslo.

Fundada em 1070, Bergen foi importante centro comercial e porto hanseático durante toda a Idade Média. A Liga Hanseática representava uma aliança comercial entre cidades europeias, e Bergen desempenhava papel central nessa rede de comércio.

A cidade é conhecida como a cidade das sete montanhas. Um funicular permite subir uma delas para contemplar a extensão urbana cercada por elevações. Do topo, a compreensão da geografia e da posição estratégica do porto histórico fica evidente.

O bairro de Bryggen, com suas casas coloridas à beira-mar, é o cartão postal mais emblemático. As construções antigas foram remodeladas e hoje abrigam comércio e restaurantes, contrastando barcos vikings expostos com navios modernos atracados.

Uma estátua peculiar homenageia Madame Fellé, nascida em 1831 e figura conhecida nos pubs da cidade durante o século XIX. A escultura mostra a senhora com caneca de cerveja na mão e um pub retratado ao fundo, celebrando o espírito social de Bergen.

O mercado de peixe concentra dezenas de peixarias, bares e restaurantes. Frutos do mar fresquíssimos como ouriço-do-mar, caranguejo rosa e vieiras gigantes são degustados diretamente nas bancas. Uma loja de queijos oferece o queijo marrom norueguês, produzido há quase mil anos através da caramelização do soro de leite (whey) cozido por horas.

A cervejaria viking local produz uma IPA que foi eleita cerveja do ano em 2012 no país. Com cor cobre e amargor característico, representa bem a tradição cervejeira da região.

Copenhague como porta de entrada e saída

Copenhague, na Dinamarca, serve como porto de embarque e desembarque para cruzeiros pela Escandinávia. A cidade combina sofisticação com simplicidade, refletindo valores dinamarqueses que priorizam qualidade de vida.

A cultura de mobilidade sustentável é evidente. Moradores utilizam bicicletas para deslocamentos urbanos, combinando o modal com trens para trajetos maiores. A integração entre bicicleta e transporte público facilita a locomoção por toda a cidade.

A gastronomia de Copenhague é reconhecida como a mais desenvolvida da região escandinava. Pães de canela de tamanho generoso e outras especialidades nórdicas representam a tradição de panificação e confeitaria local.

A filosofia dinamarquesa resume-se na frase mencionada por moradores: “O nosso luxo é em viver e não em ter”. Essa mentalidade se reflete na arquitetura, nos espaços públicos e na forma como a cidade equilibra modernidade com preservação histórica.

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O Viagem & Gastronomia, de Daniela Filomeno, também está na Itatiaia. Viagens pelo Brasil e pelo mundo, experiências incríveis, hotéis, gastronomia, cultura e arte.

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