Ilha do Marajó e sua cultura milenar de búfalos, queijos e cerâmica ancestral

A importação de búfalos ocorreu em 1895, e os animais se adaptaram perfeitamente ao ambiente amazônico

A importação de búfalos ocorreu em 1895, e os animais se adaptaram perfeitamente ao ambiente amazônico

Descubra a história, gastronomia e tradições que tornam esta ilha paraense um patrimônio cultural vivo da Amazônia brasileira. No encontro dos rios Tocantins e Amazonas com o Oceano Atlântico, surge um território singular que preserva tradições milenares. A Ilha do Marajó carrega vestígios de ocupação humana que antecedem o ano 1000 a.C., quando comunidades construíam casas sobre elevações naturais chamadas tesos para se proteger das cheias periódicas.

Entre os séculos IV e XIII d.C., floresceu ali a sofisticada cultura marajoara, que desenvolveu cerâmica elaborada, agricultura organizada e estrutura social complexa. Essa herança ancestral moldou uma identidade única que ainda pulsa nas fazendas de búfalos, nos ateliês de cerâmica e nas cozinhas que transformam ingredientes locais em experiências gastronômicas autênticas.

A chegada dos búfalos e a transformação da ilha

Os búfalos não são nativos do Brasil. A história oficial registra que um fazendeiro marajoara, ao passar férias na Europa, conheceu a muçarela italiana e decidiu importar búfalos da Itália para produzir o queijo na ilha. Essa importação ocorreu em 1895 e os animais se adaptaram perfeitamente ao ambiente amazônico.

A espécie Bubalus bubalis encontrou no Marajó condições ideais para prosperar, com quatro raças diferentes estabelecidas no território. O território possui mais búfalos que pessoas. Essa particularidade transformou a cultura local, criando uma economia e gastronomia centradas no animal que molda a identidade contemporânea da ilha.

O queijo do Marajó e seu terroir amazônico

O queijo do Marajó carrega características únicas determinadas pelo ambiente onde é produzido. Feito com leite cru em processo de fermentação espontânea, ele utiliza técnica de massa cozida que resulta em textura peculiar. Essa combinação gera um produto com capacidade tanto para corte quanto para cremosidade.

As búfalas se alimentam do pasto local, e a temperatura ambiente da ilha influencia diretamente o processo de fermentação do leite. A ancestralidade do método de produção garante a manutenção desse saber fazer transmitido por gerações.

Além do queijo, a ilha produz manteiga artesanal feita com creme de leite fresco batido manualmente, doce de leite de búfala e pão de queijo com o queijo regional.

Vivência Mironga e o contato direto com a cultura bufalina

A Fazenda Mironga oferece uma experiência chamada Vivência Mironga, que compartilha a rotina da propriedade com visitantes. O objetivo vai além de fotografias turísticas. A proposta permite que as pessoas compreendam e interajam com os búfalos de forma significativa. Isso inclui a participação na ordenha, observação do manejo dos animais e compreensão das diferentes raças presentes na fazenda.

A experiência culmina em um café da tarde que apresenta todos os derivados do leite de búfala produzidos localmente. É uma imersão que conecta visitantes com o cotidiano que sustenta a economia e cultura da ilha.

Culinária contemporânea com ingredientes ancestrais

A cozinha Tucupi representa a fusão entre tradição amazônica e técnicas culinárias modernas. A chef Carmen desenvolveu sua experiência trabalhando em Santa Catarina com chefes renomados antes de retornar ao Marajó.

O cardápio inclui caldinho de tucupi, preparado apenas com jambu e tucupi, servido com palitinho tradicional. O tartar de filhote com caviar de tapioca, crocante de arroz e manga demonstra a criatividade aplicada aos ingredientes regionais.

O filhote, peixe amazônico gorduroso e firme, é servido sobre purê de caranguejo com ervas locais. A carne de búfalo aparece em preparações como o filé acompanhado de arroz com queijo do Marajó derretido e molho apimentado, reinterpretando o clássico filé marajoara.

Frito do vaqueiro e tradições gastronômicas centenárias

O frito do vaqueiro carrega mais de 150 anos de história culinária. O prato utiliza pedaços pequenos de carne dianteira do búfalo, composta por metade de gordura e metade de carne magra. O processo de preparo dura dois dias, durante os quais a carne frita lentamente em sua própria gordura.

Esse método tradicional surgiu porque os vaqueiros reservavam a carne traseira para charquear e guardar. A carne dianteira, mais dura, era cozida lentamente usando a proteína e gordura próprias até transformar-se em conserva.

Essa técnica de preservação garantia alimento durante longos períodos nas fazendas isoladas da ilha.

Fazenda São Jerônimo e a floresta medicinal

A Fazenda São Jerônimo opera como sistema de agrofloresta em plena Amazônia. O nome vem de uma tradição familiar que atravessa gerações, do trisavô ao avô, todos chamados Jerônimo.

A Fazenda São Jerônimo opera como sistema de agrofloresta em plena Amazônia

A experiência chamada “banho de floresta” conduz visitantes por trilhas que apresentam ervas medicinais, frutas nativas e sementes das quais se extrai óleo. A região preserva tradições de pajelança, conhecimento ancestral sobre plantas e curas.

O tucumã, árvore que dá nome ao bairro Tucumanduba (“muito tucumã"), exemplifica esse conhecimento. Da larva que se desenvolve no caroço do fruto, extrai-se óleo medicinal usado para tratar problemas articulares em joelhos, cotovelos, tornozelos e ombros. A planta caimbé serve tanto como lixa natural quanto para produzir xarope que trata gastrite e úlcera.

O mangue e a economia do caranguejo

A Fazenda São Jerônimo atravessa a maior faixa contínua de mangue do mundo. Esse ecossistema, um dos mais preservados do planeta, está protegido dentro da primeira reserva extrativista marinha do norte do Brasil.

O mangue recebe o apelido de “mãe” porque protege, cuida e alimenta. Aproximadamente duas mil famílias vivem da catação de caranguejo nesse ambiente. Apenas membros da associação dos caranguejeiros podem extrair os animais, seguindo regras rigorosas de preservação.

É proibido comercializar fêmeas, e apenas machos com mais de cinco anos podem ser coletados. Esse sistema garante a sustentabilidade do recurso para gerações futuras.

Turu e a herança do chef Paulo Martins

A Fazenda São Jerônimo serve ceviche de turu, iguaria amazônica preparada com este molusco regional. O chef Paulo Martins dedicou-se a popularizar o prato de forma gastronômica sofisticada. Sua contribuição para a culinária amazônica foi tão significativa que suas filhas mantêm o Instituto em seu nome.

O trabalho continua divulgando e valorizando ingredientes e preparações tradicionais da região. A caipirinha de jambu, erva que causa leve dormência na língua, complementa a experiência gastronômica que celebra sabores únicos do território paraense.

Salvaterra e as ruínas da colonização jesuíta

Salvaterra, conhecida como “princesinha do Marajó", foi o primeiro local de chegada dos colonizadores portugueses. As vilas de Monsarais e Joanes marcam esse encontro histórico.

As ruínas da Igreja do Rosário em Joanes, construída por negros e indígenas, representam o primeiro acampamento jesuíta na região. Foi ali que missionários estabeleceram contato inicial com povos originários. Esse ponto de partida histórico marca o início do Marajó mestiço contemporâneo, formado pela miscigenação de indígenas, negros e brancos.

As populações que resistiram à colonização ocuparam vilas distantes dos centros maiores, preservando tradições que sobrevivem até hoje.

Cerâmica marajoara e seus 3.400 anos de história

A cerâmica marajoara é considerada uma das mais antigas e belas das Américas. Pesquisas arqueológicas datam essa arte em 3.400 anos, antecedendo qualquer outro movimento artístico do continente.

A cerâmica marajoara é considerada uma das mais antigas e belas das Américas

A técnica envolve mistura de argila das terras úmidas do Marajó com concha triturada para melhorar a qualidade do barro. Pigmentos naturais são desenvolvidos a partir de minerais locais.

Os padrões geométricos constituem a característica mais emblemática dessa arte. Esses desenhos carregam significados culturais profundos e continuam sendo reproduzidos por artesãos contemporâneos que mantêm viva essa tradição milenar.

Letras vernaculares e o resgate de tradições perdidas

As letras vernaculares pintadas em madeira representam uma tradição que quase desapareceu do Marajó. Essas madeiras chegam pelas marés, são encontradas nas praias e transformadas em suporte para a arte tipográfica tradicional. As gerações mais novas haviam abandonado essa prática.

Os antigos mestres não conseguiram transmitir o conhecimento antes de falecer, deixando poucas pessoas capazes de executar a técnica. Atualmente, oficinas ensinam e transmitem esse saber, criando um ofício que recupera a identidade visual da região. O resgate preserva não apenas uma técnica artística, mas memória cultural que conecta passado e presente.

Bordados com grafismos marajoaras

Os bordados de ponto cruz com grafismos marajoaras representam expressão artística transmitida entre gerações. Artesãs utilizam os desenhos da cerâmica ancestral para criar peças têxteis contemporâneas. Para artesãs afro-indígenas, usar essas peças significa resistência, ancestralidade e identidade.

A costura carrega história familiar e conexão profunda com as raízes culturais da ilha. A integração entre bordado e carimbó, música tradicional paraense, fortalece essa resistência cultural. Unir grafismo, bordado e música cria teia de significados que celebra e preserva o patrimônio imaterial do Marajó.

Sorvetes de leite de búfala

Tomar sorvete de leite de búfala tornou-se tradição em Soure, principal cidade da Ilha do Marajó. A sorveteria Ice Búfala oferece sabores que combinam o leite com ingredientes amazônicos.

As opções incluem castanha com doce de cupuaçu e açaí com tapioca. O sabor chamado “alemão” combina leite de búfala, queijo do Marajó e calda de maracujá, criando equilíbrio entre cremosidade e acidez.

A leveza característica do leite de búfala diferencia esses sorvetes das versões convencionais. Essa experiência gastronômica simples resume a capacidade da ilha de transformar ingredientes locais em produtos únicos e memoráveis.

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O Viagem & Gastronomia, de Daniela Filomeno, também está na Itatiaia. Viagens pelo Brasil e pelo mundo, experiências incríveis, hotéis, gastronomia, cultura e arte.

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