Roma revela camadas de história a cada esquina, mas seus verdadeiros tesouros nem sempre estão nos roteiros turísticos convencionais. Dos mercados frequentados por romanos autênticos aos vilarejos medievais a poucos quilômetros do centro, a região oferece experiências que vão muito além do óbvio.
Este guia reúne roteiros práticos para quem busca conhecer a Roma local e seus arredores fascinantes. São experiências gastronômicas em bairros populares, sítios arqueológicos pouco visitados e cidades históricas acessíveis de carro, com informações detalhadas sobre como aproveitar cada destino.
Testaccio e Trastevere, bairros autênticos da gastronomia romana
Afastados do circuito turístico principal, esses dois bairros concentram a essência da cultura gastronômica romana. Testaccio fica levemente fora do centro histórico e atrai estudantes universitários e moradores locais.
O mercado local oferece especialidades regionais como porchetta de Ariccia, onde a pele do porco é mantida para criar uma textura crocante característica. O cordeiro é ingrediente tradicional do centro da Itália, mais comum que a carne bovina.
Entre os pratos encontrados na região estão ravioli recheados com trufa, carbonara autêntico (preparado apenas com gema de ovo, queijo pecorino, sem adição de creme), e funghi porcini salteados no azeite. A alcachofra à giudía, frita duas vezes até ficar extremamente crocante, é consumida sem garfo.
Trastevere é conhecido por seu caráter boêmio e pela vida noturna movimentada. O bairro preserva a atmosfera popular e é frequentado tanto por turistas quanto por romanos.
O supplì, rei do street food romano, consiste em bolinhas de arroz fritas recheadas com mozzarella. Quando aberto, o queijo derretido forma fios que lembram um cabo de telefone, daí o apelido telefono.
A origem do nome remonta ao século XIX, quando um soldado francês do exército de Napoleão, ao abrir a bolinha sem saber do recheio, teria exclamado uma surpresa. Daí surgiu a denominação supplì.
Zona arqueológica do Aqueduto Vergine sob a Fontana di Trevi
Poucos visitantes sabem que é possível acessar uma área arqueológica subterrânea a poucos passos da Fontana di Trevi, um dos pontos mais visitados de Roma.
O Aqueduto Vergine possui história singular. Foi inaugurado por Agrippa em 19 a.C. para alimentar os banhos termais construídos no mesmo ano próximos ao Panteão.
Esse aqueduto do século I foi descoberto durante reformas de um cinema antigo nos anos 2000. A água continua sendo o elemento central desta área arqueológica e ainda abastece a própria Fontana di Trevi.
Durante as escavações, foram encontrados diversos artefatos e uma extensa coleção de moedas que provavelmente pertenceram aos trabalhadores do local. Caminhar por Roma é como percorrer camadas de uma lasanha histórica, uma sobre a outra.
Embaixada do Brasil na Piazza Navona
Localizada em um dos pontos mais visitados de Roma, a Piazza Navona, a Embaixada Brasileira ocupa um palácio histórico que pertenceu à família Panfili. Essa mesma família encomendou a fonte monumental em frente ao edifício.
O palácio abriga salas com afrescos de Giacinto de Miniani, datados da primeira metade do século XVII, especificamente de 1640. A Sala da História de Roma e a Sala dos Mitos de Ovídio são destaques arquitetônicos.
Uma restauração iniciada recentemente representa o primeiro trabalho de conservação em 25 anos, desde o ano 2000. Os tetos são originalmente construídos em madeira e preservam o emblema da família Panfili.
Além das funções diplomáticas, o espaço recebe concertos e exposições, funcionando como ponte cultural entre Brasil e Itália. O terraço oferece vista panorâmica privilegiada para monumentos como o Panteão, Universidade Sapienza, Palácio Quirinal, Altar da Pátria, Castelo Sant’Angelo e a fachada do Vaticano.
Professor Jerry Thomas, o speakeasy escondido
Roma oferece vida noturna interessante além dos monumentos iluminados. O bar Professor Jerry Thomas funciona como speakeasy tradicional, exigindo senha para entrada.
O estabelecimento homenageia Jerry Thomas, considerado o pai dos bartenders, e seu livro The Bon Vivant’s Companion, publicado em 1862. O conceito combina receitas históricas e ingredientes esquecidos com técnicas modernas.
As regras da casa incluem peculiaridades características: o bartender sempre está certo, é proibido dormir nas mesas, conversas sobre política e religião são vetadas, falar alto contradiz o princípio speak easy, e pedidos de vodka não são aceitos.
O Blue Blazer é um dos drinks marcantes do cardápio, preparado com técnica de flambar que aquece intensamente a bebida. O resultado visual e sensorial justifica a performance.
Castel Gandolfo e a região dos lagos vulcânicos
A 50 minutos de Roma, Castel Gandolfo é pequena cidade que abriga a residência de verão papal. O local formou-se em uma cratera de vulcão extinto, criando um lago espetacular.
O pôr do sol na região dos lagos é tão famoso que moradores e visitantes se posicionam estrategicamente para contemplar o fenômeno diário. A combinação de colinas, lago e luz crepuscular cria cenário único.
A gastronomia é atração central. O Giulio Duarte Vino é restaurante-adega de família com várias gerações dedicadas à culinária local. O estabelecimento ocupa construção histórica do século XVI no centro antigo.
O subsolo revela cisterna romana de 2.000 anos com revestimento original (tonaco romano) preservado. O local forma labirinto de túneis que conectam diferentes pontos sob a rua principal, ligando estabelecimentos de forma subterrânea.
A coleção de objetos e vinhos acumulada ao longo de 30 a 40 anos transforma o restaurante em experiência imersiva. Os antepastos regionais incluem fava, repolho, feijão, lentilha, porchetta e embutidos artesanais.
Entre os pratos, o espaguete com atum e molho à romana combina azeitona negra, cebola, peperoncino e tomate. A carta de vinhos apresenta rótulos temáticos, como linha dedicada ao Pinóquio, com Chardonnay envelhecido três meses em madeira.
Castel Gandolfo integra a região Castelli Romani, conjunto de castelos romanos medievais que formam rede de vilarejos visitáveis nos arredores.
Ariccia, capital da porchetta tradicional
Ariccia é reconhecida como terra da porchetta autêntica. Diversas fraschette (tavernas tradicionais) competem pela melhor versão do prato.
A Osteria Sorallela mantém a alma de taverna característica da região do Lázio. A porchetta é servida fria, derretendo na boca com tempero equilibrado e textura que revela o preparo artesanal.
Os embutidos são produzidos na própria casa. O feijão é ingrediente típico do Lázio e acompanha os pratos principais. Vinho da casa e simplicidade definem a experiência.
Entre as massas, carbonara e matriciana são preparadas segundo receitas tradicionais. O carbonara autêntico utiliza apenas gema de ovo, queijo pecorino e guanciale, sem adição de creme de leite.
Vila Adriana em Tívoli, patrimônio imperial romano
A Vila Adriana em Tívoli começou a ser construída em 1118 d.C. (a transcrição indica essa data, possivelmente referindo-se à era romana). O imperador Adriano escolheu o local pelo clima ameno, colinas e fontes naturais.
Adriano viajava extensivamente e incorporou arquitetura e decoração de diversas culturas conquistadas. A vila não é residência simples, mas miniatura do Império Romano com mais de 120 hectares (equivalente a 150 campos de futebol).
Visitar toda a área em um dia é impossível. O percurso longo leva aproximadamente três horas, enquanto o roteiro curto requer uma hora e meia.
Entre as estruturas estão sala de filosofia e primeira biblioteca. O Canope é o cartão-postal da vila, inspirado em santuário egípcio. Consistia em grande canal decorado com estátuas e arcos, utilizado para lazer e banquetes ao ar livre.
Cada área visitada demonstra a magnitude do projeto arquitetônico e a ambição imperial de Adriano em consolidar simbolicamente o poder romano.
Dicas práticas para explorar os arredores de Roma
Conhecer a região de carro oferece flexibilidade e acesso a estradas cênicas. As distâncias são curtas: Castel Gandolfo fica a 50 minutos, permitindo bate-volta confortável.
Reservações antecipadas são recomendadas, especialmente em cidades pequenas onde restaurantes tradicionais têm capacidade limitada. A imersão em cada destino, permanecendo algumas horas, revela camadas culturais inacessíveis em visitas rápidas.
A gastronomia regional varia sutilmente entre vilas. Ingredientes locais como pecorino (queijo de ovelha), cordeiro, alcachofra e porchetta definem a identidade culinária do Lázio.
Patrimônios históricos menores, como cisternas romanas sob restaurantes ou aquedutos subterrâneos acessíveis, oferecem experiências arqueológicas sem multidões. Explorar além do óbvio transforma a viagem em descoberta autêntica.