Uma viagem pelo Norte da África em um cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo

Descubra Marrocos, Argélia e Tunísia através de um roteiro cultural único, com dicas práticas sobre medinas históricas, sítios arqueológicos e turismo em destinos emergentes

Vielas e ruas da casbá de Argel, capital da Argélia, são repletas de portas e janelas ricas em detalhes

Navegar no Mar Mediterrâneo pelo Norte da África significa remontar séculos de história concentrados em cada porto visitado. É uma experiência que permite vivenciar o intercâmbio milenar de culturas, povos e civilizações que moldaram essa região estratégica.

Este guia apresenta um roteiro prático por três países - Marrocos, Argélia e Tunísia - revelando desde a estrutura única das medinas até os desafios de viajar por destinos que recém abrem suas portas ao turismo internacional. São informações que ajudam a entender não apenas os monumentos históricos, mas também os contextos culturais e geopolíticos desses territórios fascinantes.

Tânger e a estrutura das medinas históricas

Tânger oferece uma das medinas mais bem conservadas do Marrocos. Diferentemente das rotas turísticas tradicionais como Marrakesh ou Fez, esta cidade portuária permite uma imersão cultural mais autêntica.

Para ser considerada uma medina, a cidade antiga precisa conter elementos específicos. São necessários um forno público, uma mesquita, um hammam (banho público), uma fonte d'água e uma universidade.

Essas cidades históricas preservam a tradição do comércio nas ruelas estreitas. A barganha faz parte da experiência de compra, sendo esperada e até apreciada pelos comerciantes locais.

Descobertas inesperadas

Durante o tempo livre entre visitas guiadas, é possível encontrar riads transformados em hotéis boutique e cafés. Esses espaços combinam arquitetura tradicional mourisca com funcionalidade contemporânea, oferecendo refúgio em meio à agitação da medina.

Tânger possui uma forte cultura de cafeterias, que ficam espalhadas pela medina e ao redor de toda a cidade

A gastronomia local surpreende mesmo com barreiras linguísticas. Pratos preparados com queijo envolvido em massa crocante demonstram a fusão de influências mediterrâneas presentes na culinária marroquina.

Argélia e o contexto de abertura recente ao turismo

A Argélia representa um dos maiores PIBs per capita do continente africano. Ao mesmo tempo, carrega uma história recente de independência, com presença francesa até 1962.

Parque Nacional de Gouraya fica em Bejaia, a “Pérola do Mediterrâneo”, cidade litorânea que recebe muitos turistas da própria Argélia

O país iniciou abertura ao turismo internacional há poucos anos. Algumas cidades receberam apenas dois grupos de visitantes quando da visita registrada, evidenciando o estágio inicial dessa indústria.

Aspectos práticos da visita

Grupos de turistas são acompanhados por dezenas de policiais e batedores. Essa presença maciça visa principalmente proteção dos visitantes, considerando a importância de evitar incidentes nos primeiros anos de abertura.

Equipes de mídia enfrentam restrições adicionais. Gravações devem ser discretas, e nem sempre autoridades locais compreendem a presença de televisão estrangeira, mesmo em programas de viagem e gastronomia.

Turismo não clássico

Especialistas definem esse tipo de experiência como busca por destinos que oferecem uma fotografia de momento histórico específico. O atrativo está na possibilidade de testemunhar cenários em transição, sabendo que mudanças significativas ocorrerão em futuro próximo.

Arquitetura e patrimônio nas cidades argelinas

As três principais cidades visitadas na Argélia — Orã, Alger (capital) e Bejaia — revelam camadas distintas de história arquitetônica.

Alger, a capital

A praça central testemunhou a independência do país. Edifícios construídos pelos franceses dominam a paisagem urbana, incluindo a sede dos Correios de 1910.

Essa mistura de estilos arquitetônicos reflete 130 anos de ocupação francesa. As construções coloniais permanecem sem restauração, levantando questões sobre o valor e a importância da herança cultural francesa para a identidade argelina contemporânea.

Casbah de Alger

Reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, a Casbah significa literalmente “fortaleza”. Posicionada no topo de uma colina, essa cidade antiga impossibilita navegação sem guia local.

As portas das residências chamam atenção pela riqueza de detalhes e conservação artística. Construções possuem fundações que datam dos mercantes fenícios, com passagem posterior do Império Romano.

Design urbano singular

Segundo explicação de guia local, o Casbah foi projetado como “teatro de entrada” para demonstrar respeito ao urbanismo. Cada vizinho tinha direito a espaço específico, resultando em ruas estreitas que acomodam apenas uma ou duas pessoas lado a lado.

As casas tradicionais apresentam cômodos com formato longitudinal e telhados de madeira. Essa estrutura funciona como proteção contra terremotos, técnica construtiva milenar ainda visível.

Ventilação e privacidade

Pátios internos abertos cumprem dupla função. Permitem ventilação natural da residência e refletem a crença de que a beleza da casa deve ser voltada para dentro, para quem nela habita.

O estilo arquitetônico é frequentemente confundido. Muitos identificam como otomano, mas especialistas locais esclarecem que é mouro, apenas construído durante o período otomano.

Bejaia e o turismo emergente na costa argelina

Bejaia é cidade portuária com um milhão de habitantes. Durante o verão, a população quintuplica devido ao turismo, predominantemente local com presença crescente de estrangeiros.

Pico dos Macacos

O Peak de Sange oferece vistas panorâmicas impressionantes. No topo situa-se o farol mais alto do mundo, posicionado a 600 metros de altitude.

A luz desse farol alcança 50 quilômetros de distância, protegendo navegadores que circulam pela região. Historicamente, também permitia identificar navios se aproximando, prevenindo invasões à cidade fortificada.

Infraestrutura turística

A cidade possui parque nacional com trilhas e mirantes. O mar apresenta transparência notável e coloração característica do Mediterrâneo.

Viajantes locais dominam o turismo interno. Próximo aos finais de semana, moradores atravessam o Mediterrâneo pelo Estreito de Gibraltar para passar dias do outro lado, demonstrando padrões de lazer transfronteiriços.

Marcos históricos

A praça central teve nome francês substituído por “Praça 1º de Novembro”, data que marca o início da Revolução Argelina. Essa renomeação ilustra o processo de recuperação e ressignificação da história nacional.

O chamado para a reza ocorre cinco vezes ao dia, pontuando o ritmo urbano. Essa prática religiosa integra o cotidiano das cidades e impacta a programação de visitantes.

Contextualização geopolítica e econômica

A abertura econômica argelina voltada ao desenvolvimento turístico reflete fenômeno comum no mundo árabe contemporâneo. Esse processo iniciou após a Primavera Árabe.

Lideranças regionais reconheceram a necessidade de modelo econômico diversificado. A dependência exclusiva do petróleo mostrou-se insustentável para economia voltada a serviços, turismo e finanças.

Geração de empregos

Setores diversificados podem absorver população jovem que enfrentou décadas de falta de perspectivas econômicas. A transição busca criar oportunidades além da indústria petroleira.

Posição estratégica

O norte da África mantém relevância geopolítica devido à localização mediterrânea. Essas cidades continuam sendo disputadas e observadas internacionalmente, tanto pela exploração de gás e petróleo quanto pela importância estratégica histórica.

A região concentra poder, disputa territorial e intercâmbio cultural milenar. Compreender esses contextos de colonização, independência e abertura atual permite dimensionar adequadamente a experiência de viagem.

Cartago e as ruínas que desafiam a história oficial

Lagoulette, na Tunísia, serve como porta de entrada para as ruínas de Cartago. Esse império rivalizou diretamente com Roma, sendo considerado o único que ameaçou genuinamente o Império Romano.

Versões conflitantes

A história tradicional registra que Roma venceu Cartago. Porém, especialistas locais apresentam perspectiva diferente, argumentando que parte da narrativa histórica é falsa por ser escrita exclusivamente pela visão romana.

Santuário de Tofé

Local sagrado onde foram encontrados túmulos de crianças, bebês e animais sacrificados. A interpretação inicial sugeria sacrifício humano de bebês.

Estudos posteriores revelaram que os bebês encontrados tinham entre um mês e cinco meses de idade. Não apresentavam ossos feridos ou quebrados, indicando mortes naturais. Apenas animais foram sacrificados conforme cultura local.

Ritual funerário

Para os cartagineses, o procedimento envolvia queima de madeira, não do bebê. A fumaça simbolizava a alma ascendendo à vida perfeita, acompanhando o espírito da criança.

Essa correção histórica baseada em evidências arqueológicas demonstra como narrativas oficiais podem distorcer práticas culturais de civilizações derrotadas.

Sítios arqueológicos e camadas de civilização

A Tunísia concentra múltiplas eras históricas sobrepostas. Cidades foram construídas uma sobre a outra através de conquistas e colonizações sucessivas.

Escavações revelam constantemente novas camadas. Ao iniciar trabalhos em sítios romanos, arqueólogos encontram necrópoles de períodos anteriores a Cristo, ampliando continuamente o conhecimento sobre a região.

Termas de Antonini

Construídas pelo imperador romano Antonino, essas termas funcionavam como ambientes sociais complexos. Além dos banhos, incluíam áreas para massagem, descanso e contemplação do mar.

Os romanos passavam tempo prolongado nesses espaços, que serviam tanto para higiene quanto socialização. A prática influencia costumes atuais — na Tunísia contemporânea, banhos públicos ainda são realizados separadamente para homens e mulheres.

Expansão romana

Quando Roma transformou a região em província, baseou-se em monumentos romanos preexistentes. Teatros, anfiteatros, colônias, batalhas térmicas, fóruns e circos espalharam-se pelo território tunisiano.

Especialistas locais afirmam que o território se tornou “Roma número dois”, demonstrando a escala de romanização imposta à região.

Símbolos de poder

Uma pedra específica marca a primeira constituição do império mediterrâneo que desafiou Roma. Esse registro simboliza o único poder que efetivamente ameaçou o domínio romano naquela época.

A quantidade de ruínas, anfiteatros e áreas de banho evidencia civilizações complexas e sofisticadas que precederam e coexistiram com Roma.

Medina de Tunis e gastronomia local

A capital tunisiana preserva medina vibrante com construções majestosas. Edifícios históricos contrastam com mercados tradicionais que mantêm práticas comerciais ancestrais.

Brick tunisiano

Comida de rua típica consiste em massa leve preparada como pastel, recheada com ovo. A técnica resulta em textura crocante por fora e macia por dentro.

A comparação com “pastelzinho x-tudo brasileiro” ajuda visitantes a dimensionar o prato, embora a massa tunisiana seja significativamente mais leve e delicada.

Mercados e qualidade

A área turca da medina concentra produtos tradicionais de qualidade superior. Essa distinção de áreas por origem comercial preserva especializações históricas dentro do mercado maior.

O ambiente de sulk (bazar) mantém atmosfera autêntica onde turistas e locais convivem. A experiência gastronômica acompanha naturalmente a exploração cultural da cidade antiga.

Estrutura e experiência de cruzeiro pelo Mediterrâneo

Cruzeiros marítimos permitem conhecer múltiplos destinos com paradas rápidas. O formato privilegia quantidade de lugares visitados durante a viagem.

Após dias de imersão cultural intensa em cidades, a estrutura do navio oferece momentos essenciais de pausa e contemplação. Essa alternância entre exploração e descanso equilibra a experiência.

Gastronomia a bordo

Restaurantes servem comida local dos destinos visitados. Pratos típicos argelinos incluem frango temperado com azeitonas, pimentão e molho vermelho, além de espetinhos e rolados de carne.

A culinária reflete influências mediterrâneas diversas: grega, espanhola, portuguesa e francesa. Essa fusão gastronômica evidencia os séculos de intercâmbio cultural na região.

Opções adicionais

Além de restaurantes formais, grills externos servem hambúrgueres, hot dogs e peixe fresco diário. A variedade atende diferentes preferências ao longo da viagem.

Momentos de lazer

Piscinas, bares e áreas de convivência completam a infraestrutura. Drinks como amaretto sour (licor de amêndoas com açúcar, limão e gelo) complementam tardes livres entre portos.

Esse formato de viagem combina turismo cultural intensivo com conforto e praticidade logística, eliminando necessidade de múltiplos check-ins hoteleiros.

Reflexões sobre colonização e identidade cultural

Visitar o norte da África levanta questões profundas sobre colonização e suas consequências duradouras. A ocupação francesa da Argélia estendeu-se por 130 anos, encerrando apenas em 1962.

Edifícios coloniais permanecem sem restauração em várias cidades. Essa preservação inerte provoca reflexão: qual valor a herança arquitetônica francesa possui para identidade argelina contemporânea

Recuperação histórica

O país tenta recuperar sua história original enquanto lida com camadas impostas pela colonização. Determinar “qual é a história deles” exige questionar o que foi sobreposto e o que foi apagado.

Renomeações de espaços públicos ilustram esse processo. Praças com nomes franceses recebem denominações que celebram marcos da independência nacional, como o início da Revolução Argelina.

Turismo geopolítico

Especialistas caracterizam esse tipo de viagem como “turismo não clássico”. Visitantes testemunham países em momento de transição histórica, com oportunidade de observar aspectos seculares ao lado de elementos recentes.

Alguns desses aspectos contemporâneos provavelmente desaparecerão conforme o governo implementa planos de abertura econômica e desenvolve indústria turística mais sofisticada.

Perspectiva e alteridade

A experiência confronta visitantes com questão fundamental: quem é diferente? A cultura observada ou a do observador? Essa reflexão sobre alteridade enriquece a compreensão intercultural além dos monumentos históricos.

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O Viagem & Gastronomia, de Daniela Filomeno, também está na Itatiaia. Viagens pelo Brasil e pelo mundo, experiências incríveis, hotéis, gastronomia, cultura e arte.

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