No coração da Amazônia, existe um território onde a preservação ambiental e a atividade econômica aprenderam a conviver. São mais de 800 mil hectares de floresta protegida, 22 mil fontes de água preservadas e quase 4 mil espécies de fauna e flora catalogadas.
Esse equilíbrio acontece no Mosaico de Carajás, no sul do Pará. Aqui, apenas 3% do território é usado para mineração, enquanto 97% permanece como mata nativa intocada. A região abriga também um dos maiores bancos genéticos de espécies amazônicas do Brasil e funciona como laboratório vivo de sustentabilidade.
Mas como é possível extrair recursos minerais e, ao mesmo tempo, manter a biodiversidade? A resposta está na combinação entre fiscalização rigorosa, pesquisa científica contínua e envolvimento direto das comunidades locais. Este é um modelo que desafia a percepção comum sobre mineração na Amazônia.
O que é o Mosaico de Carajás e sua importância ambiental
O Mosaico de Carajás é um conjunto de seis unidades de conservação localizadas no sul do Pará. Composto por florestas, reservas e parques nacionais, o território é gerido em parceria entre a empresa Vale e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A área total protegida representa 1,2 milhão de hectares de floresta amazônica contínua. Desses, cerca de 800 mil hectares fazem parte da Floresta Nacional de Carajás (Flona), criada nos anos 1990 especificamente para conciliar extração mineral e preservação ambiental.
Dentro desse território estão catalogadas aproximadamente 4 mil espécies de fauna e flora. O número continua crescendo conforme novas pesquisas são realizadas. A região funciona como um dos maiores corredores de biodiversidade da Amazônia.
A proteção não se limita à vegetação. São 22 mil fontes de água protegidas, garantindo a manutenção dos ciclos hidrológicos essenciais para o ecossistema. Essa combinação de fatores torna Carajás uma das florestas mais estudadas do Brasil.
A Floresta Amazônica de Carajás e suas características únicas
Ao contrário do que muitos imaginam, a Amazônia não é uniforme. Em Carajás, a floresta apresenta características distintas por fazer parte do chamado corredor seco da região amazônica.
Nessa área, a luminosidade chega com maior intensidade até o solo florestal. Isso possibilita o desenvolvimento abundante de cipós e outras plantas trepadeiras, criando uma mata mais fechada nas camadas inferiores. A vegetação se adapta a essas condições específicas de luz e solo.
Daniela Filomeno em trilha na Floresta Nacional de Carajás, nos arredores de Parauapebas
Uma das descobertas mais fascinantes da região é a Hipoméia cabalcantei, conhecida como flor de Carajás. Essa espécie existe exclusivamente em um raio de aproximadamente 20 quilômetros na região. As pétalas menores, textura aveludada e coloração vermelho-sangue são adaptações ao solo rochoso rico em ferro.
O processo de decomposição na floresta funciona como reservatório natural de carbono. Quando uma árvore morre, ela libera carbono ao solo lentamente, ao longo de décadas. Esse carbono fixado na madeira faz parte da composição da celulose e representa um estoque ambiental fundamental.
Banco genético e pesquisas científicas na região
A conservação em Carajás vai além da proteção física do território. A região abriga um dos maiores bancos genéticos de espécies amazônicas do país, resultado de décadas de pesquisa científica.
O jaburandi é um exemplo do valor dessa biodiversidade. Essa planta medicinal nativa de Carajás é coletada por uma cooperativa de extrativismo em Parauapebas. O material é enviado para a Alemanha, onde seu princípio ativo é usado na produção de colírio para tratamento de glaucoma.
Outra espécie notável é a mirindiba, árvore utilizada por comunidades tradicionais como meio de comunicação. Batendo em sua raiz exposta, é possível transmitir códigos sonoros que se propagam por grandes distâncias na floresta, funcionando como um “telefone amazônico”.
As pesquisas científicas são apontadas como a maior contribuição para manter a floresta preservada. Quanto mais se conhece sobre as espécies e seus papéis no ecossistema, mais efetivas se tornam as estratégias de conservação. A riqueza descoberta estimula a proteção contínua.
Cavernas ferríferas e biodiversidade subterrânea
Carajás abriga a maior província de cavernas ferríferas do planeta. São quase 2 mil cavernas catalogadas até o momento, número que pode aumentar com o avanço das prospecções e pesquisas geológicas.
Essas formações subterrâneas possuem relevância científica excepcional. Quando pesquisadores encontram organismos troglóbios dentro das cavidades, a caverna automaticamente recebe classificação de máxima relevância ambiental.
Troglóbios são animais que nascem, vivem, reproduzem-se e morrem exclusivamente dentro das cavernas. Nunca saem para o ambiente externo. Sua presença indica um ecossistema único e extremamente especializado, resultado de milhões de anos de evolução isolada.
As cavernas também funcionam como abrigo para colônias de morcegos, essenciais para o equilíbrio ecológico. Esses animais controlam populações de insetos, polinizam plantas e dispersam sementes. Cada colônia estudada recebe marcação e monitoramento contínuo para preservação das espécies.
Bioparque Vale e a conservação de espécies ameaçadas
O Bioparque Vale-Amazônia funciona como centro de conservação e reabilitação de fauna silvestre ameaçada. Não se trata de um zoológico tradicional, mas de uma instituição focada em recuperação de animais e educação ambiental.
BioParque tem viveiro de imersão com mais de 100 aves de 24 espécies
Os animais recebidos passam por diagnóstico veterinário completo. Quando recuperados, são incorporados ao plantel para estudos e reprodução. Entre as espécies abrigadas estão onças-pintadas, arpias (gaviões reais), primatas e diversos répteis, todos ameaçados de extinção.
Um caso emblemático é o de Chicó, macaco-aranha de testa branca. Esse primata ficou acorrentado por 20 anos em um bar, onde recebia bebidas alcoólicas e cigarros. Após denúncia e resgate, foi reabilitado e integrado a um grupo que o aceitou.
Além da função de resgate, o bioparque trabalha com visitação educativa. A experiência imersiva permite que o público conheça a fauna amazônica e compreenda a importância da conservação. A estrutura mantém o ecossistema natural, preservando floresta nativa para que os animais vivam em ambiente semelhante ao habitat original.
Projetos sociais e empoderamento de comunidades locais
A conservação ambiental em Carajás caminha junto com desenvolvimento social. São mais de 400 projetos acelerados e apoiados pela Vale, beneficiando direta e indiretamente cerca de 60 mil produtores rurais, extrativistas e suas famílias.
O projeto Mulheres de Areia nasceu de uma necessidade comunitária. A extração irregular de areia deteriorava estradas, impedindo que crianças chegassem às escolas. Após um protesto que fechou a via por três dias, a líder comunitária foi questionada sobre seus sonhos.
A resposta transformou a realidade local: criar fonte de renda para mulheres da comunidade. Assim surgiu uma cooperativa com 60 integrantes que produz macarrão artesanal à base de mandioca cultivada em solo arenoso. As participantes trabalham tanto no plantio quanto na produção.
Outro exemplo é a Copemusa, cooperativa de 52 mulheres dedicadas à horticultura. Antes, muitas viviam isoladas em casa, enfrentando problemas como depressão e violência doméstica. O trabalho coletivo trouxe independência financeira e permitiu que várias estudassem, inclusive iniciando cursos superiores como administração.
Produtos regionais e economia sustentável
As cooperativas locais valorizam produtos típicos da Amazônia, criando cadeias econômicas sustentáveis. A pimenta-do-reino cultivada na região é conhecida como “diamante negro da Amazônia” pela qualidade excepcional.
Os produtos desenvolvidos vão além da alimentação básica. Incluem macarrão artesanal de mandioca, hortaliças frescas, temperos naturais e diversos itens da culinária paraense. O trabalho fortalece a identidade cultural e gera renda permanente.
As agricultoras trabalham em sistema integrado. Cultivam nas hortas familiares e levam a produção para as cooperativas, onde os produtos são pesados, etiquetados e comercializados. Essa rede permite que todas ganhem tanto pela produção quanto pela participação nas atividades coletivas.
Além da renda financeira, os projetos trouxeram benefícios sociais mensuráveis. Mulheres relatam poder investir na educação dos filhos e na própria formação. O modelo demonstra como atividades econômicas podem fortalecer comunidades quando estruturadas de forma cooperativa e sustentável.
Como funciona a mineração em apenas 3% do território
A área destinada à mineração dentro do Mosaico de Carajás representa apenas 3% dos 800 mil hectares protegidos. Os 97% restantes permanecem como mata nativa intocada, formando um cinturão verde de proteção.
A Mina N4E, que começou a operar em 1984, foi pioneira no complexo de Carajás e continua ativa. Essa mina foi também a primeira a implementar tecnologia de equipamentos autônomos na operação brasileira.
Os caminhões autônomos funcionam sem operador embarcado. Os profissionais são capacitados e transferidos para salas de controle, de onde monitoram as operações remotamente. Essa tecnologia reduz o consumo de combustível e pneus, aumentando a eficiência produtiva.
Por litro de diesel consumido, equipamentos autônomos produzem mais do que os convencionais. Isso permite reduzir o tamanho da frota, diminuindo automaticamente as emissões de carbono. A mineração tecnológica se alinha aos objetivos de sustentabilidade e transição energética.
A importância da mineração legal e regulamentada
A diferença entre mineração legal e ilegal fica evidente em sobrevoos pela região. Dentro dos limites da Floresta Nacional de Carajás, a mata permanece íntegra e preservada. Fora dessa área protegida, predominam pastagens e garimpos ilegais.
A divisão é nítida: onde termina a responsabilidade de preservação, a floresta dá lugar a solo degradado e cursos d'água contaminados. Garimpos ilegais causam destruição ambiental irreversível, prejudicando ecossistemas e comunidades.
Especialistas apontam que o grande desafio é demonstrar que mineração legal responsável é aliada da transição energética. Os minérios extraídos são fundamentais para tecnologias verdes, como baterias de veículos elétricos e equipamentos de energia renovável.
Sem mineração, não existiriam celulares, instrumentos cirúrgicos, aviões, carros ou mesmo copos de vidro. A questão não é eliminar a atividade, mas garantir que seja realizada com responsabilidade ambiental, fiscalização rigorosa e benefícios para as comunidades locais.
Visitação e educação ambiental nas trilhas da Flona
A Floresta Nacional de Carajás oferece estrutura para visitação educativa. Trilhas como a da Lagoa da Mata permitem que visitantes conheçam o ecossistema amazônico com segurança e orientação especializada.
Essa trilha tem aproximadamente um quilômetro de extensão e termina em uma lagoa cercada por ambiente ferruginoso. No caminho, é possível observar características únicas da floresta, como a decomposição natural de árvores gigantes e o papel de cada organismo no ecossistema.
Por conta da riqueza natural e mineral, Floresta Nacional apresenta tipo de solo específico e vegetações únicas no mundo
A Lagoa da Mata é ponto ideal para observação de vida selvagem. Abriga jacarés, tracajás (tartarugas de água doce) e diversas espécies de aves aquáticas. Famílias de marrequinhos aproveitam o ciclo chuvoso para reprodução, retornando anualmente ao mesmo local.
Outras atrações incluem mirantes, grutas e cavernas. A Trilha do Mirante do Vale do Rio Azul oferece visão panorâmica da imensidão verde preservada. A visitação consciente promove educação ambiental e reforça a importância da conservação para gerações futuras.