Lima é uma cidade impossível de conhecer completamente em uma única viagem. A capital peruana revela camadas de descobertas a cada visita: desde experiências gastronômicas que unem alta cozinha e ingredientes locais até patrimônios históricos que remontam a civilizações pré-incas.
Esta combinação única faz de Lima um destino que exige múltiplas visitas para ser verdadeiramente compreendido. Entre restaurantes que definem a gastronomia contemporânea, bibliotecas coloniais com milhares de volumes centenários e pirâmides escondidas no meio da expansão urbana, a cidade oferece experiências que vão muito além do turismo convencional.
Astrid y Gastón e a revolução dos ingredientes locais
O restaurante Astrid y Gastón representa um marco na transformação da gastronomia peruana.
Astrid y Gastón é considerado ícone por traduzir a cozinha local de forma sofisticada, mas descontraída.
O casal começou fazendo comida nitidamente francesa, recém-saídos da escola de cozinha. Com o tempo, perceberam que a clientela não estava pronta para experimentar produtos locais. Essa resistência foi gradualmente transformada.
A despensa natural peruana é praticamente infinita. Segundo Astrid, o país oferece frutas, verduras, ervas, recursos marinos, tubérculos dos Andes e grãos em variedade extraordinária. Entre os tubérculos tradicionais estão o choclo, oca, camote, yuco e mashpot.
Pratos icônicos como o porco laqueado e preparações com batata defumada exemplificam essa fusão. A técnica do defumado, por exemplo, deve ser equilibrada para não opacar o sabor da batata-doce.
As sobremesas no Astrid y Gastón merecem atenção especial. A casa oferece um percurso por todas as regiões produtoras de cacau do Peru, transformando a experiência em uma verdadeira viagem gastronômica pelo país.
Osso Carneceria e a arte da maturação
Renzo Garibaldi, do Osso Carneceria, revolucionou o conceito de consumo de carne em Lima. Sua formação como açougueiro é fundamental: cada parte do animal deve ser trabalhada para alcançar sua melhor versão.
Por que maturar carne? Renzo explica três pontos essenciais: mais sabor, textura mais macia e o romanticismo do processo. A comparação com vinho é precisa - assim como um bom vinho precisa esperar de 5 a 10 anos na garrafa para atingir seu melhor momento, a carne se beneficia da espera.
O amor pela cozinha, para Renzo, vinha do desejo de ser anfitrião, uma herança da avó materna. O primeiro prato servido no restaurante foi um tábua de carnes com torresmo e morcilha.
Uma versão especial do pão com chincharrão, café da manhã clássico peruano, exemplifica como tradições locais podem ser reinterpretadas com técnica refinada.
La Picanteria e a obsessão pela qualidade
Héctor, chef do La Picanteria, define o conceito original de picanteria: restaurantes populares nascidos de casas de família convertidas. Pai e mãe cozinham, filhos ajudam, e se come na mesa de casa. O termo “picar” significa compartilhar.
A obsessão pela qualidade levou Héctor a produzir sua própria cerveja artesanal dentro do restaurante. A justificativa é lógica: se o ceviche é feito com peixe pescado um dia antes, a bebida deve ter o mesmo nível de excelência.
Além de cerveja, o estabelecimento produz azeite, pisco com diversos sabores e chocolates. Segundo o pai de Héctor, “não somos magos nem bruxos - se não temos um bom produto, não vamos ter uma boa comida”.
O mar peruano é extraordinariamente rico: chitas, cabrinhas, polvo, espôndilo e lagostas povoam as águas. O restaurante oferece dois tipos de ceviche - um com peixe curado em sal, outro preparado instantaneamente.
Entre as preparações criativas está o Rolling Stone, sanduíche com língua de vitela que combina tradição com apresentação moderna.
Mérito e a nova geração gastronômica
Juan, chef do Mérito, trabalhou no Central antes de criar seu próprio restaurante. Suas raízes venezuelanas combinadas com o nascimento do projeto em Lima definem a identidade do estabelecimento.
A proposta do Mérito é simples: cozinhar comida que emocione as papilas gustativas e permita descobrir algo novo. Um exemplo dessa filosofia é o uso do Sanki, fruto de um cacto super ácido que substitui completamente o limão no ceviche.
Juan acredita que ainda se sabe muito pouco sobre ingredientes locais. Produtos com identidade marcada, encontrados em alturas específicas, montanhas e selva, têm sabores particulares que continuam inexplorados.
Um prato emblemático nasceu de um acidente: milho carbonizado dentro da própria palha, esquecido por uma hora no fogo. O resultado é acompanhado de creme de pimenta amarela com queijo llanero venezuelano - união de dois países em um único prato humilde, mas sofisticado.
Lima Wine e a harmonização perfeita
A Lima Wine é uma loja fechada, acessível apenas por convite. Especializada em Borgonha e Itália, guarda rótulos raros e pequenas produções.
Para harmonizar com ceviche, o vinho recomendado é o PYC rosé 100% Pinot Noir, safra 2022. Trata-se de um vinho complexo, aromático, com muita acidez, sabor e picância - características que complementam perfeitamente tanto ceviche tradicional quanto ceviche brasa.
A produção é limitada: aproximadamente 600 caixas para o mundo inteiro. As poucas caixas que chegam ao Peru frequentemente são direcionadas para restaurantes como o Osso Carneceria.
A versatilidade do vinho permite harmonização também com carnes e massas, demonstrando que a escolha vai além da combinação óbvia com frutos do mar.
Rua Capuclana: pirâmide pré-inca no centro urbano
No meio de Lima existe uma pirâmide pré-inca. A Rua Capuclana foi construída pelo povo da cultura Lima, civilização que viveu entre 200 e 700 anos depois de Cristo.
Diferente das pirâmides egípcias triangulares, as peruanas têm formato distinto. A engenharia dessas construções impressiona: os tijolos ficam em posição vertical especificamente para que a estrutura resistisse aos terremotos comuns em Lima. A técnica funcionou.
A pirâmide ficou escondida sob a expansão urbana por séculos e só começou a ser escavada nos anos 80. Ainda falta metade da estrutura para escavar, e arqueólogos trabalham diariamente no local.
Qualquer descoberta na próxima semana ou mês pode mudar completamente o conhecimento atual sobre a civilização que construiu Capuclana. A escavação é um processo contínuo de revelações.
Basílica Santo Domingo e o centro histórico
A Basílica Santo Domingo é uma das igrejas mais antigas de Lima. A mistura arquitetônica combina barroco com neoclássico, e preserva azulejos originais de Sevilha, na Espanha, além de afrescos pintados à mão diretamente na parede.
Interior da Igreja de Santo Domingo, uma das mais imponentes de Lima
A torre da igreja foi construída para que os sinos convocassem fiéis às missas. São 135 degraus até o balcão principal, de onde é possível ver a cidade, o convento e, com sorte, até o porto do Callao e parte do oceano.
A construção começou no século XVI, logo após a chegada dos espanhóis, e abriga uma das primeiras bibliotecas da América do Sul. A Plaza São Martim, inaugurada em 1921 para celebrar o centenário da independência do Peru, homenageia o herói que proclamou a libertação.
O Teatro Colón, hotel cinco estrelas mais antigo do Peru, completou 100 anos. Outros edifícios ao redor surgiram entre 1940 e 1960.
A Jirón de la Unión, rua exclusiva para pedestres, conecta áreas centrais mostrando a fusão entre passado colonial e vida urbana atual. A Igreja de la Merced possui uma das portadas barrocas mais belas de Lima.
Convento São Francisco: biblioteca e catacumbas
Daniela Filomeno na Basílica e Convento de São Francisco, um dos passeios imperdíveis em Lima
O Convento São Francisco, residência dos franciscanos desde 1547, é um dos pontos históricos mais importantes de Lima. A Escalera Conventual exibe cúpula em estilo Mudéjar, superfície convexa comum nas principais igrejas do Novo Mundo. Esta cúpula é a mais simbólica da América na época.
O efeito visual criado é de um teto estrelado. A arquitetura representa o auge da ocupação espanhola na cidade.
A biblioteca guarda 25.107 livros, não apenas do século XVI, mas volumes ainda mais antigos. Os primeiros eram bíblias e obras relacionadas à expansão do catecismo e da doutrina, fomentados pela Igreja Católica e pelos reis. Entre 75% e 80% dos livros antigos estão escritos em latim.
Biblioteca do convento tem mais de 25 mil livros, muitos datados antes mesmo do século 16
A quantidade de livros centenários e a riqueza arquitetônica da biblioteca fazem dela uma joia única e uma das mais importantes do mundo.
Abaixo da igreja estão as criptas sepulcrais, erroneamente chamadas de catacumbas. Diferente de catacumbas verdadeiras (cemitérios gigantes subterrâneos), as de São Francisco são enterramentos menores. O local guarda aproximadamente 100 mil restos mortais.
Os ossos visíveis na parte externa são os mais resistentes: fêmur e crânio. As criptas funcionaram de 1556-1557 até 1845, período de 285 anos de enterramentos contínuos.
Hotel B: hospedagem com história no bairro Barranco
O Hotel B é um hotel boutique instalado em uma casa de 1914 no bairro de Barranco. Membro da rede Relais & Châteaux, combina gastronomia, estrutura, história e localização privilegiada.
A casa segue o estilo Belle Époque. Cada quarto é único, com detalhes característicos de propriedades que carregam o selo Relais & Châteaux: delicadeza, serviço atencioso e a sensação de estar em casa, sem ostentação.
O luxo está nos detalhes: bom colchão, travesseiro adequado, cordialidade no atendimento. O hotel possui rooftop, bar e restaurante.
O bairro de Barranco oferece casas históricas conservadas ao lado da orla, com vista para o mar. É um lugar agradável para circular a pé e vivenciar o cotidiano local, combinando conforto de hospedagem com acesso fácil à vida urbana.
Calau: transformação social através da arte
Calau é um bairro no norte de Lima, conhecido como polo cultural e artístico fora do centro tradicional. O coração do bairro é o Edifício Ronald, hoje Casa Fugaz, que abriga ateliês, galerias e espaços de convivência comunitária em torno da arte.
A casa possui seis pisos e quatorze salas de arte, reunindo artistas e pensadores. O provérbio chinês guia a iniciativa: “Dê um peixe a um homem e ele comerá um dia. Ensine-lhe a pescar e ele comerá toda a sua vida”.
A proposta é despertar na comunidade interesses, referências e ferramentas ligadas ao mundo cultural e turístico, afastando-a da violência. A tentativa é trazer arte, cultura e gastronomia para gerar turismo, atrair visitantes e criar nova ocupação para a população local.
Calau representa um modelo de transformação social através da cultura: em vez de apenas combater problemas, oferece alternativas concretas de desenvolvimento econômico e cultural para os moradores.