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Tabaco aquecido pode afetar sistema imunológico e favorecer esclerose múltipla; entenda

Estudo da USP identificou alterações em células de defesa e agravamento de quadro semelhante à doença em animais expostos à nicotina

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Imagem ilustrativa. • Banco de imagens | Canva

Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo (USP) identificou que a exposição ao tabaco aquecido pode provocar alterações no sistema imunológico e contribuir para o agravamento de processos relacionados à esclerose múltipla. Os resultados foram obtidos em experimentos com animais e células humanas e levantam preocupações sobre os efeitos dos chamados produtos de tabaco sem fumaça.

As informações foram divulgadas pelo Jornal da USP. O trabalho é resultado do doutorado do biomédico Pablo Scharf, orientado pela professora Sandra Farsky, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da FCF-USP.

O que são os produtos de tabaco aquecido?

Os dispositivos de tabaco aquecido, conhecidos pela sigla HTP, utilizam estruturas semelhantes aos cigarros tradicionais, mas aquecem o tabaco a temperaturas inferiores às necessárias para a combustão. Por esse motivo, esses produtos liberam menos compostos presentes na fumaça convencional e são frequentemente apresentados como alternativas potencialmente "menos prejudiciais".

Segundo o Jornal da USP, porém, ainda existem poucos dados científicos sobre os efeitos de longo prazo desses dispositivos. A pesquisa da USP indica que a redução das emissões não significa ausência de efeitos sobre o organismo.

A nicotina, substância responsável pela dependência, está presente tanto nos cigarros convencionais quanto nos produtos de tabaco aquecido. O estudo investigou justamente como essa substância e a exposição aos produtos poderiam modificar o funcionamento do sistema imunológico.

Relação com a esclerose múltipla

A esclerose múltipla é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central. Nesse processo, o sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura que envolve parte das células nervosas e auxilia na transmissão dos impulsos nervosos. A doença pode provocar sintomas sensoriais e motores e, em alguns casos, levar à perda de mobilidade. De acordo com Pablo Scharf, a esclerose múltipla é multifatorial e envolve tanto fatores genéticos quanto ambientais.

O pesquisador explica que a preocupação aumenta porque os principais usuários dos novos dispositivos de tabaco estão entre jovens e jovens adultos, faixa etária em que a doença também apresenta relevância. Para pessoas geneticamente predispostas, a exposição a determinados fatores ambientais pode funcionar como um gatilho para o surgimento ou a progressão da doença.

A pesquisa, entretanto, não demonstra que o uso de tabaco aquecido cause diretamente esclerose múltipla em seres humanos. Os resultados mostram alterações imunológicas e efeitos em modelos experimentais que podem ajudar a compreender possíveis mecanismos envolvidos na doença.

Testes foram realizados em animais e células humanas

O estudo utilizou diferentes abordagens experimentais. Uma delas envolveu o Caenorhabditis elegans, conhecido como C. elegans, um pequeno verme utilizado em pesquisas toxicológicas e neurológicas. Os pesquisadores observaram que a exposição à nicotina modificou a resposta imunológica do organismo, com efeitos diferentes dependendo do agente infeccioso enfrentado.

Também foram analisadas células humanas. Amostras de sangue foram obtidas de pacientes com esclerose múltipla atendidos pelo Departamento de Neurologia do Hospital da Santa Casa de São Paulo e de pessoas sem a doença. A equipe isolou os linfócitos T CD4+, células do sistema imunológico que estão entre as principais envolvidas no desenvolvimento e na evolução da esclerose múltipla. As células foram submetidas, em ambiente controlado, à exposição aos produtos de tabaco.

Nos experimentos, o comportamento das células variou de acordo com a condição dos indivíduos. Em células de pessoas saudáveis, o tabaco aquecido provocou sinais de imunossupressão. Já nas células de pacientes com esclerose múltipla, houve ativação dos linfócitos T CD4+, em alguns casos superior à observada após exposição ao cigarro convencional.

Tabaco aquecido também agravou doença em camundongos

Outra etapa da pesquisa utilizou camundongos nos quais foi induzida uma doença semelhante à esclerose múltipla. Os animais foram expostos ao cigarro convencional ou ao tabaco aquecido, permitindo que os pesquisadores comparassem os efeitos dos dois produtos. Quando a exposição ocorreu antes do desenvolvimento da doença, os dois produtos provocaram alterações semelhantes e contribuíram para o agravamento do quadro nos animais.

Um dos resultados chamou atenção da equipe: em determinados parâmetros, o tabaco aquecido produziu um perfil mais inflamatório no sistema nervoso central do que o cigarro convencional. Segundo Scharf, os resultados indicam que a menor quantidade de compostos liberados pelo tabaco aquecido não elimina seus efeitos sobre o sistema imunológico.

Avanço nas pesquisas

Os pesquisadores destacam que ainda são necessários estudos de longo prazo em seres humanos para determinar a dimensão dos riscos associados ao consumo desses produtos. Em humanos, a relação entre exposição ao tabaco aquecido e desenvolvimento de doenças como a esclerose múltipla precisa ser acompanhada durante períodos prolongados. Os experimentos com animais permitem investigar mecanismos biológicos em um período muito mais curto, mas não substituem estudos epidemiológicos de longo prazo.

A pesquisa, portanto, acrescenta evidências sobre os efeitos da nicotina e do tabaco aquecido sobre o sistema neuroimune, mas não permite afirmar que esses dispositivos sejam uma causa direta da esclerose múltipla.

A tese de Pablo Scharf, intitulada “Modulação da interface neuroimune por produtos de tabaco: efeitos na imunidade inata, neuroinflamação e neurodegeneração”, deu origem a quatro artigos científicos publicados nas revistas Journal of Neuroinflammation, Environmental Pollution, Toxicology e Journal of Toxicology and Environmental Health – Part B – Critical Reviews.

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Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

 

 

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