Enxaqueca: nova técnica mira casos mais intensos e pode trazer alívio a pacientes
Procedimento com aplicação de lidocaína por cateter é estudado para pessoas com enxaqueca crônica refratária, que continuam tendo crises frequentes mesmo após diferentes tratamentos preventivos

A enxaqueca crônica refratária, uma das formas mais difíceis de controlar da doença, está no centro de uma nova linha de pesquisa. Uma técnica minimamente invasiva que utiliza um cateter para levar lidocaína diretamente a uma artéria ligada às meninges começou a chamar a atenção de especialistas pelos resultados iniciais observados em pacientes que não conseguiram alívio com outros tratamentos.
O procedimento, publicado no periódico científico 'Journal of NeuroInterventional Surgery', ainda é considerado experimental e não faz parte dos tratamentos padrão para a enxaqueca. Os estudos disponíveis são iniciais e envolvem grupos pequenos de pacientes, por isso são necessárias pesquisas maiores para determinar sua eficácia, segurança e duração dos possíveis benefícios.
Como funciona a nova técnica para enxaqueca
A estratégia utiliza um cateter, um tubo extremamente fino, que geralmente é introduzido por uma artéria do punho. Com o auxílio de imagens, o dispositivo é conduzido até a artéria meníngea média, responsável por levar sangue a parte das membranas que protegem o cérebro.
Nesse local, os médicos aplicam uma dose de lidocaína, um anestésico amplamente utilizado na medicina. A intenção é interferir nas estruturas envolvidas na transmissão e manutenção dos sinais de dor relacionados à enxaqueca.
A técnica está relacionada ao chamado sistema trigeminovascular, uma rede que envolve o nervo trigêmeo, as meninges e os vasos sanguíneos da região. Esse sistema tem participação importante nos mecanismos associados à dor da enxaqueca.
Por exigir equipamentos específicos e profissionais treinados em procedimentos neurointervencionistas, a técnica precisa ser realizada em ambiente especializado.
Quem poderia se beneficiar?
A proposta não é destinada a qualquer pessoa que tenha enxaqueca. O foco são pacientes com enxaqueca crônica refratária, que continuam apresentando crises frequentes e impacto significativo na qualidade de vida mesmo depois de passar por diferentes tratamentos preventivos.
Atualmente, existem várias opções para prevenção da doença, incluindo medicamentos que bloqueiam o CGRP, uma substância relacionada à transmissão da dor, além da aplicação de toxina botulínica em determinados casos.
Mesmo assim, parte dos pacientes continua apresentando muitos dias de dor ao longo do mês. É justamente para esse grupo que a nova abordagem está sendo investigada.
O médico Iván Lylyk explicou, ao site argentino Infobae, que a técnica é considerada para "um grupo muito selecionado de pacientes" que permanece limitado pela doença depois de experimentar diferentes alternativas.
Segundo o especialista, neurologia e neurorradiologia intervencionista passaram a se aproximar à medida que o conhecimento sobre os mecanismos da enxaqueca avançou e as técnicas por cateter ficaram mais precisas.
Ele também reforçou que o procedimento não pretende substituir os tratamentos existentes, mas pode futuramente representar uma alternativa para determinados pacientes que não obtiveram resultados satisfatórios com as opções disponíveis.
Estudo mostrou melhora, mas efeito diminuiu com o tempo
O estudo publicado no Journal of NeuroInterventional Surgery acompanhou 45 pacientes com cefaleia refratária.
Nas primeiras 24 horas após o procedimento, 29 pacientes, ou 64,4% do grupo, relataram alívio. Entre os 42 que completaram a avaliação após um mês, 24 tiveram redução superior a 50% nos dias de dor de cabeça por mês.
O benefício, porém, pareceu diminuir nos meses seguintes. A proporção de pacientes com essa redução superior a 50% caiu para 34% após dois meses e para 20,6% depois de três meses.
Os números são considerados promissores, mas precisam ser interpretados com cautela. O estudo avaliou casos já tratados e não comparou os resultados com um grupo que tivesse recebido outro tratamento ou nenhum procedimento.
Por isso, ainda não é possível afirmar que a técnica será eficaz para a maioria das pessoas com enxaqueca crônica.
Procedimento apresenta riscos
Apesar de não terem sido registradas complicações neurológicas no grupo estudado, quatro pacientes apresentaram desconforto no local utilizado para o acesso à artéria.
Como envolve um procedimento vascular e o uso de angiografia, a técnica também pode apresentar riscos, como sangramento, lesão do vaso, reação ao contraste e outras complicações relacionadas ao procedimento.
Por essa razão, a seleção dos pacientes é considerada uma das principais etapas. Antes de realizar o procedimento, os médicos precisam confirmar o diagnóstico, analisar os tratamentos já utilizados e verificar se existem contraindicações.
Pesquisadores também estudam soluções mais duradouras
Além da aplicação de lidocaína, outras pesquisas investigam maneiras de bloquear de forma mais permanente as artérias meníngeas médias.
Em 2025, um estudo inicial avaliou 10 pacientes com enxaqueca crônica refratária. Após responderem à aplicação de lidocaína, eles passaram por um procedimento destinado a bloquear de forma controlada as duas artérias meníngeas médias. Os pesquisadores observaram melhora durante seis meses, mas destacaram que o número de participantes era pequeno e que estudos maiores são necessários.
Também existem ensaios em andamento para descobrir se a resposta inicial à lidocaína pode ajudar os médicos a identificar quais pacientes teriam maior possibilidade de se beneficiar de uma intervenção posterior.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



