Uso excessivo de celular pelos pais pode estar afastando os filhos, alertam especialistas
Saiba como o uso frequente do telefone pode afetar a relação com adolescentes, e veja três momentos do dia em que alguns minutos sem tela podem fazer diferença

O celular se tornou parte da rotina de praticamente todas as famílias, mas o uso constante do aparelho pelos pais pode ter um efeito importante na relação com os filhos adolescentes. Segundo psicólogas, mais do que controlar quanto tempo os jovens passam diante das telas, é importante observar quanto tempo os próprios adultos permanecem conectados ao telefone quando estão com eles.
O assunto foi discutido pela psicóloga clínica Becky Kennedy, fundadora da plataforma Good Inside, em conversa com Sheryl Ziegler, também psicóloga clínica e especialista em adolescentes e pré-adolescentes. As duas analisaram como os hábitos digitais dos adultos podem interferir na percepção que os filhos têm sobre a disponibilidade dos pais.
Adolescentes percebem quando os pais fazem o contrário do que dizem
Um dos principais problemas aparece quando os adultos estabelecem limites para o uso do celular pelos filhos, mas mantêm o próprio telefone sempre por perto.
Kennedy afirmou que adolescentes costumam perceber rapidamente essa contradição. Para ela, quando os pais cobram determinado comportamento dos filhos enquanto fazem justamente o contrário, a situação pode alimentar conflitos dentro de casa.
A psicóloga contou que seu próprio filho já havia pedido que ela deixasse o celular fora do ambiente quando os dois estivessem juntos. Segundo ela, por trás da reclamação existia uma mensagem simples: o adolescente queria sentir que tinha a atenção da mãe.
O celular pode virar um sinal de disponibilidade
Para Sheryl Ziegler, os adolescentes não necessariamente ficam observando quanto tempo os pais passam no celular para fazer uma espécie de contagem. O que eles procuram são sinais de que os adultos estão disponíveis quando precisam deles.
"Os adolescentes controlam sua disponibilidade. O uso do telefone é apenas uma pista", explicou a especialista.
A questão ganha importância porque, durante a adolescência, os filhos podem alternar momentos de afastamento e de busca por proximidade com os pais. Mesmo quando parecem não querer conversar, eles continuam observando se os adultos estão emocionalmente presentes.
Pesquisa citada pelas especialistas chamou atenção
Durante a conversa, Ziegler mencionou uma pesquisa realizada com 600 adolescentes, cujo título era "Mãe, você gosta mais do seu telefone do que de mim?".
De acordo com a explicação apresentada pela psicóloga, adolescentes que percebiam os pais frequentemente absorvidos pelas telas se sentiam menos seguros dentro dos relacionamentos familiares. Eles também tinham maior percepção de que suas palavras eram menos valorizadas, ignoradas ou consideradas pouco importantes.
Pequenos momentos podem fazer diferença
As especialistas destacaram que a solução não seria abandonar completamente o celular. A proposta é criar momentos específicos em que os filhos possam perceber que contam com a atenção dos pais.
Kennedy sugeriu três períodos do dia para isso:
- Os primeiros cinco minutos da manhã
- Os primeiros cinco minutos depois que o filho chega em casa
- Os últimos cinco minutos antes de dormir
Segundo a psicóloga, esses momentos não precisam necessariamente resultar em conversas profundas. O objetivo principal é demonstrar presença e disponibilidade.
Ziegler afirmou que esses poucos minutos de atenção podem até ajudar a evitar discussões posteriores. A ideia é que investir alguns minutos na conexão com o filho possa reduzir a necessidade de longas conversas para resolver conflitos.
Não é preciso deixar o celular de lado o tempo todo
Kennedy também fez uma ressalva importante: a recomendação não significa que os pais precisem parar completamente de usar o telefone ou guardá-lo toda vez que o adolescente estiver por perto.
A sugestão é começar com mudanças pequenas. Uma delas seria escolher um período de cinco ou dez minutos, deixar o celular fora do ambiente e observar como o momento de convivência acontece.
A especialista também defendeu que os pais podem conversar sobre o próprio comportamento antes que o assunto apareça durante uma discussão. Uma possibilidade seria perguntar ao filho se ele considera que o adulto está usando muito o telefone e explicar que está tentando reduzir esse hábito, especialmente durante os momentos juntos.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



