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Por que tanta gente está usando IA para voltar aos anos 80?

Fotos criadas por inteligência artificial despertam nostalgia nas redes sociais e, segundo especialistas, podem revelar uma busca por segurança, vínculos mais próximos e um passado idealizado

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Na imagem, Virginia Fonseca e Marcos Mion, aderiram a trend dos anos 80
Reprodução | Redes sociais

Uma nova tendência tomou conta das redes sociais e está fazendo milhares de pessoas viajarem no tempo sem sair do lugar. Com a ajuda da inteligência artificial, selfies atuais são transformadas em imagens que parecem ter sido feitas nos anos 80, com cabelos volumosos, roupas coloridas, maquiagem marcante, luzes de neon e aparência de fotografia analógica.

À primeira vista, parece apenas mais uma brincadeira com ferramentas de inteligência artificial. Mas, para especialistas consultados pelo Infobae, o fenômeno pode revelar algo bem mais profundo.

A procura pelas chamadas fotos oitentistas estaria relacionada à nostalgia, mas também ao desejo de recuperar uma sensação de previsibilidade, proximidade e esperança em relação ao futuro. E existe um detalhe especialmente curioso: muitas das pessoas que participam da tendência sequer viveram os anos 80.

Viagem ao passado em poucos segundos

A tendência ganhou força principalmente no Instagram, onde usuários compartilham as imagens em histórias e participam de correntes com o recurso 'Add Yours'. Uma pessoa publica sua versão dos anos 80 e convida outras a fazerem o mesmo.

O resultado costuma seguir uma fórmula visual facilmente reconhecível. As imagens apresentam cabelos com bastante volume, roupas em tons fortes, maquiagem colorida, acessórios grandes, jeans de cintura alta, luzes de neon e textura semelhante à de fotografias antigas.

Celebridades também entraram na brincadeira e compartilharam versões inspiradas na estética da década. Mas o sucesso dessas imagens não parece estar relacionado somente à aparência.

Para o psiquiatra Alejandro Bègue, integrante da Associação Psicanalítica Argentina, o interesse pelas imagens representa algo maior do que simplesmente brincar com um estilo antigo.

"A foto dos anos 80 recriada por IA é o desejo por uma época em que havia previsibilidade, em que havia menos incerteza e em que havia vontade de viver o futuro", afirmou.

A interpretação ajuda a entender por que uma imagem produzida hoje pode provocar uma sensação de saudade de um período que algumas pessoas nem sequer conheceram.

Na visão do especialista, a nostalgia estaria relacionada ao contraste entre a maneira como a vida é vivida atualmente e a percepção de que, décadas atrás, as mudanças aconteciam em um ritmo mais lento.

Bègue também chamou atenção para a forma como os relacionamentos mudaram. Para ele, os encontros presenciais tinham um peso maior na experiência cotidiana. "A vida era vivida nos encontros presenciais", afirmou.

Segundo o especialista, naquela época as transformações culturais e tecnológicas aconteciam de maneira mais gradual. Isso dava às pessoas mais tempo para compreender e se adaptar às novidades.

Bègue também relacionou a tendência ao ritmo acelerado da sociedade atual. "A hipervelocidade do presente, da qual quem nasceu neste século não se dá conta e que parece normal, não é saudável nos ritmos humanos", avaliou.

A ideia é que a sensação de excesso de informação, mudanças constantes e novas tecnologias pode aumentar o desejo por uma época percebida como mais previsível.

Nesse sentido, a fotografia criada pela IA funciona quase como uma pequena viagem para um tempo imaginado como mais controlável. O especialista também fez uma crítica à forma como os vínculos humanos são percebidos atualmente. Para ele, a conexão entre as pessoas teria perdido intensidade em comparação com o que existia nos anos 80.

"A conexão que existe entre as pessoas hoje não chega nem a 10% de ser tão genuína, intensa e afetivamente vinculada quanto era nos anos 80", afirmou.

Visão idealizada

A lembrança de uma época, porém, não significa necessariamente que ela tenha sido melhor em todos os aspectos. A especialista em comportamento Ana Corniglio chamou atenção justamente para esse mecanismo. Segundo ela, diante da angústia provocada pelo mundo atual, as pessoas podem idealizar períodos anteriores.

"A sensação de estar perdido na angústia do mundo nos leva a idealizar uma época pensando que ela era melhor", explicou.

Esse processo faz com que determinadas lembranças ganhem destaque enquanto outras sejam deixadas de lado. Uma pessoa pode se recordar das músicas, das festas, das roupas, das férias ou das reuniões familiares, mas não necessariamente dos problemas econômicos, conflitos familiares, dificuldades sociais e outros medos que também existiam naquela época.

Por isso, a fotografia criada pela inteligência artificial pode acabar apresentando uma versão bastante filtrada dos anos 80.

Até quem não viveu os anos 80 pode sentir nostalgia

Como alguém pode sentir saudade de uma época que não viveu? A resposta está, em parte, na forma como construímos nossa imagem do passado. Filmes, músicas, fotografias, programas de televisão, roupas e relatos familiares ajudam a criar uma representação de determinadas décadas.

A inteligência artificial consegue reunir todos esses elementos em uma única imagem. Assim, uma pessoa que nasceu depois dos anos 80 pode se enxergar com roupas, cabelo e iluminação típicos daquela época e experimentar uma sensação de familiaridade, mesmo sem ter memórias pessoais daquele período.

A nostalgia, nesse caso, não precisa estar ligada a uma lembrança vivida. Ela pode nascer de uma representação cultural compartilhada.

Redes sociais aumentam a vontade de voltar ao contato presencial

Ana Corniglio também relacionou a tendência à expansão das redes sociais e à redução do contato presencial. Segundo a especialista, existe atualmente um desejo de recuperar experiências físicas e sensoriais que parecem ter perdido espaço.

A ideia ajuda a entender por que uma estética associada a encontros, música, festas e convivência presencial pode ganhar força justamente em um ambiente digital.

Existe uma espécie de paradoxo: as pessoas usam uma tecnologia extremamente moderna para criar imagens que representam uma época associada a uma vida menos digital.

A inteligência artificial, portanto, não apenas reproduz o passado. Ela permite que o usuário experimente visualmente uma realidade que talvez nunca tenha vivido.

Cores e música como uma fuga da realidade atual

Outra especialista em comportamento, Sandra Lazo apresentou outra interpretação para o sucesso da tendência. Para ela, o visual alegre e exagerado dos anos 80 pode funcionar como uma espécie de contraponto emocional ao presente.

"Isso nos permite aproveitar a música, o pop, o topete e as cores para não enfrentar a angústia deste presente tão estranho e caótico", afirmou.

A especialista relacionou essa sensação de insegurança a acontecimentos e transformações que fazem parte do cotidiano atual, incluindo guerras, avanços da inteligência artificial, desemprego e dúvidas sobre o futuro.

Nesse contexto, os anos 80 podem aparecer no imaginário coletivo como uma época mais colorida e otimista. Lazo também destacou que, na Argentina, a década carregava um significado particular relacionado à redemocratização.

"Nos anos 80 vivemos o início da democracia, a liberdade e o julgamento das juntas. Havia muitos valores de liberdade que hoje não vemos", afirmou.

Dessa maneira, a nostalgia não estaria necessariamente ligada apenas à moda ou à música. Ela também pode envolver valores e sentimentos associados a um determinado momento histórico.

Década também é lembrada como período de liberdade e criatividade

A socióloga Liliana María Revuelta também apresentou uma interpretação semelhante. Para ela, os anos 80 foram marcados por uma espécie de abertura depois de uma década em que muitas pessoas não podiam se expressar livremente.

"Nos anos 80 houve um período de florescimento depois de uma década em que não era possível falar", afirmou.

Na visão da especialista, o retorno dos elementos visuais daquela década, como cores, música e criatividade, pode representar uma tentativa de recuperar aquela sensação.

"Queremos voltar a isso, mas não conseguimos. Então voltamos às cores e à criatividade daqueles anos", explicou Revuelta.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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