Transtornos alimentares: entenda os desafios da recuperação
Mesmo após ganhar peso e a normalização dos exames, pessoas que enfrentaram transtornos alimentares podem precisar de acompanhamento para lidar com efeitos físicos, emocionais e comportamentais

Receber alta depois de um tratamento para um transtorno da conduta alimentar é uma conquista importante, mas nem sempre representa o fim da recuperação, uma vez que, segundo especialistas, a melhora do peso corporal e dos exames é apenas uma parte do processo.
A recuperação também envolve a saúde mental, a autonomia para se alimentar e a retomada da vida social. Em alguns casos, alterações nos ossos, hormônios e sistema digestivo podem permanecer por mais tempo e exigir acompanhamento médico e nutricional, conforme alertam médicos ouvidos pelo site argentino Infobae.
A médica Ángela Nakab, da Sociedade Argentina de Pediatria, destacou que não é correto afirmar que necessariamente ficam sequelas permanentes. No entanto, mesmo quando a condição física melhora, algumas pessoas podem continuar apresentando preocupação excessiva com o corpo, medo de determinados alimentos, restrições e uma relação muito rígida com a comida.
A evolução depende de vários fatores, como o tipo de transtorno, a gravidade do quadro, sua duração, a idade em que começou e os comportamentos envolvidos. Restrição alimentar, compulsão, vômitos provocados e uso de laxantes podem produzir consequências diferentes.
Ossos podem precisar de atenção por mais tempo
Entre as possíveis consequências está a perda de massa óssea, principalmente quando o transtorno alimentar ocorre durante a adolescência e é acompanhado pela ausência de menstruação.
A médica especialista em nutrição Ana Jufe explicou que a maior parte das complicações médicas tende a melhorar ou desaparecer após a recuperação nutricional e do peso. Porém, isso não acontece necessariamente com todas as alterações.
A osteopenia e a osteoporose estão entre os problemas que podem exigir acompanhamento. Quanto maior o período de ausência de menstruação, maior pode ser a perda de densidade mineral dos ossos.
A pediatra Romina Lambert ressaltou que o pico de formação de massa óssea ocorre por volta dos 20 anos. Quando esse processo é prejudicado pela falta de nutrientes e por alterações hormonais, o risco de osteoporose e fraturas no futuro pode aumentar.
Alterações hormonais também podem persistir
Em quadros restritivos, como a anorexia nervosa, a falta prolongada de energia pode provocar alterações na função reprodutiva e em diferentes hormônios.
Segundo as especialistas, muitas dessas mudanças são respostas do organismo à falta de energia e tendem a melhorar conforme a alimentação e o estado nutricional são recuperados.
Mesmo assim, a menstruação pode demorar para voltar depois da recuperação do peso. Isso pode ocorrer quando ainda existe baixo percentual de gordura corporal ou quando pensamentos relacionados à alimentação mantêm um nível elevado de estresse.
Problemas digestivos podem aparecer durante a recuperação
O sistema digestivo também pode ser afetado. Entre os problemas citados estão o esvaziamento mais lento do estômago, trânsito intestinal reduzido e constipação.
Essas alterações podem estar relacionadas a períodos prolongados de restrição alimentar e podem ser agravadas quando houve vômitos provocados ou uso excessivo de laxantes.
Os episódios de vômito também podem provocar refluxo e danos no esôfago. Outro efeito importante ocorre nos dentes: a perda do esmalte dentário provocada pelos vômitos é irreversível e pode aumentar a sensibilidade e o risco de cáries.
As purgas ainda podem provocar alterações nos níveis de eletrólitos e aumentar o risco de complicações cardiovasculares.
A mente pode levar mais tempo para se recuperar
Mesmo depois da melhora física, os pensamentos relacionados ao corpo e à comida podem continuar presentes.
Entre os sinais que podem permanecer estão o medo de engordar, a preocupação excessiva com o peso e a aparência, a culpa depois das refeições e a necessidade de controlar constantemente a alimentação.
Também podem aparecer ansiedade, dificuldade para aceitar mudanças no corpo, rigidez mental e dismorfia corporal.
A especialista Irina Kovalskys alertou que a persistência da desnutrição, a presença de outros transtornos psiquiátricos e uma maior rigidez de pensamento podem dificultar a ampliação da variedade de alimentos e a construção de uma relação mais saudável com a alimentação.
O objetivo é fazer a comida voltar a ser parte da rotina
A recuperação não significa apenas voltar a comer ou atingir determinado peso. O objetivo é fazer com que a alimentação deixe de comandar a vida da pessoa.
As especialistas defendem um tratamento interdisciplinar, que pode envolver profissionais de diferentes áreas e estratégias como terapia cognitivo-comportamental ou terapia dialético-comportamental, dependendo de cada caso.
O tratamento pode incluir a exposição gradual a alimentos considerados difíceis, o trabalho com a imagem corporal e o cuidado de outros problemas emocionais ou psiquiátricos.
A ideia é que a pessoa consiga novamente comer com outras pessoas, participar de festas, viajar e frequentar restaurantes sem que essas situações provoquem medo ou culpa.
Família e amigos também têm papel importante
Depois da alta, o ambiente pode se tornar um desafio. Mensagens sobre dietas, calorias, exercícios, perda de peso e padrões de beleza aparecem com frequência nas redes sociais e em outros espaços.
Por isso, as especialistas recomendam que familiares e amigos evitem comentários sobre peso ou aparência e não transformem a alimentação em uma forma de fiscalização constante.
O apoio familiar não deve significar controlar indefinidamente o que a pessoa come. A intenção é favorecer uma autonomia gradual e ajudar a identificar possíveis sinais de alerta.
Na adolescência, esse cuidado pode ser ainda mais importante. Situações como usar roupas de banho diante de outras pessoas, frequentar academias, estar em ambientes com espelhos ou participar de encontros com poucas opções de comida podem representar desafios para quem está em recuperação.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



