Itatiaia

Compulsão alimentar e ultraprocessados: a relação que a ciência comprova

Entenda por que 70% dos episódios de compulsão envolvem alimentos ultraprocessados e como fatores biológicos somam-se aos emocionais nesse transtorno

Por
Compulsão alimentar tem ligação direta com consumo de ultraprocessados
Compulsão alimentar tem ligação direta com consumo de ultraprocessados • Gemini

Quarenta e um estudos publicados ao longo de cinco décadas revelaram um padrão que desafia a visão simplista sobre compulsão alimentar. Cerca de 70% dos alimentos consumidos durante episódios do transtorno são ultraprocessados, enquanto apenas 15% são minimamente processados. Nenhum estudo identificou compulsão exclusiva com alimentos in natura.

A descoberta, publicada no International Journal of Eating Disorders por pesquisadores dos Estados Unidos, coloca os próprios alimentos no centro da discussão. Bolo, sorvete, biscoitos, chocolate, pizza e salgadinhos lideram a lista de produtos consumidos nos episódios. O transtorno afeta entre 1% e 3% da população e pode levar ao consumo de até 5 mil calorias em um único episódio — mais do que o dobro da ingestão diária recomendada.

O que caracteriza a compulsão alimentar

A compulsão alimentar se define por episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de comida acompanhados de sensação de perda de controle. Para fins diagnósticos, esses episódios devem ocorrer ao menos uma vez por semana durante três meses.

O contexto importa tanto quanto a frequência. Segundo a psicóloga Patrícia Cristina Gomes, especialista em transtornos alimentares do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental do Einstein Hospital Israelita, é essencial observar o sofrimento emocional associado à ingestão.

A média diária recomendada para a população geral fica entre 1.800 e 2 mil calorias. Uma pessoa com compulsão alimentar pode consumir até 5 mil calorias em um único episódio, evidenciando a gravidade do transtorno.

Por que ultraprocessados dominam os episódios de compulsão

A revisão de quatro décadas de pesquisas não encontrou nenhum caso de compulsão alimentar exclusiva com frutas, hortaliças ou outros alimentos in natura. Os ultraprocessados concentram 70% dos alimentos ingeridos nos episódios.

Esses produtos possuem características que favorecem o consumo excessivo. São muito palatáveis, combinam açúcar e gordura em proporções inexistentes na natureza, são absorvidos rapidamente pelo organismo e ativam intensamente o sistema de recompensa cerebral.

Não é apenas questão de preferência ou falta de controle. A composição dos ultraprocessados cria condições biológicas para o consumo compulsivo, segundo Gomes. Algumas pessoas apresentam maior sensibilidade a esses estímulos, o que amplia o risco de desenvolver o transtorno.

Os alimentos mais consumidos durante a compulsão

A lista de ultraprocessados típicos nos episódios de compulsão revela um padrão claro. Bolo, sorvete, biscoitos, chocolate, pizza e salgadinhos aparecem com frequência nos relatos clínicos.

Patrícia Gomes confirma que, na prática clínica, pacientes relatam compulsão com doces, fast-food ou snacks. Dificilmente o relato envolve alimentos naturais, o que reforça os achados da revisão científica.

Como fatores emocionais e biológicos se combinam

Embora fatores psicológicos continuem centrais no transtorno, a pesquisa amplia o entendimento sobre o papel dos alimentos em si. As escolhas alimentares somam-se a outros elementos importantes na compulsão.

Restrição alimentar excessiva aumenta o risco de episódios. Quando a pessoa entra em contato com alimentos proibidos após períodos de dieta rígida, há maior chance de perda de controle.

Situações de estresse, ansiedade e tristeza também favorecem a busca por ultraprocessados. A combinação entre vulnerabilidade emocional e as propriedades dos alimentos cria um ciclo difícil de interromper.

A compulsão alimentar é multifatorial e envolve aspectos emocionais, cognitivos, sociais e biológicos. Nem todas as pessoas expostas a ultraprocessados desenvolvem o transtorno, pondera a psicóloga do Einstein.

A importância de rotina alimentar sem culpa

Manter uma rotina regular de alimentação ajuda a prevenir episódios de compulsão. Trabalhar a relação com a comida sem pensamentos de "tudo ou nada" faz parte do tratamento.

A culpa após episódios de compulsão tende a perpetuar o ciclo. Evitar restrições excessivas e desenvolver uma relação mais equilibrada com todos os tipos de alimentos pode reduzir a frequência dos episódios.

Quando buscar atendimento especializado

Nos casos em que há suspeita de compulsão alimentar, vale procurar atendimento especializado. O ideal é contar com equipe multidisciplinar que inclua nutricionista, psicólogo e médico psiquiatra.

A abordagem integrada permite trabalhar simultaneamente os aspectos emocionais, comportamentais e nutricionais do transtorno. O tratamento não se resume a controlar a alimentação, mas a compreender e modificar os padrões que mantêm o ciclo da compulsão.

Por

A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.

 

 

Belo Horizonte