'Confio plenamente na vacina contra a dengue', diz diretor do Butantan
Em entrevista a 'O Globo', Esper Kallás disse que quem já completou as três semanas desde a imunização não tem motivo para se preocupar

O diretor do Instituto Butantan, o infectologista Esper Kallás, afirmou nesta terça-feira (9), em entrevista a "O Globo", que "confia plenamente na vacina contra a dengue. "Nas avaliações que fizemos de benefício e risco são todas favoráveis (à vacina). Ela tem seu lugar e ainda é a melhor ferramenta que temos para enfrentar a dengue no Brasil", disse.
Segundo Kallás, quem já completou as três semanas desde a imunização não tem motivo para preocupação e pode contar com a proteção que a vacina promete. Ele destacou que os estudos clínicos apontaram uma proteção de aproximadamente 65% contra a infecção por dengue ao longo de cinco anos e de cerca de 80% contra as formas graves da doença.
A decisão do Ministério da Saúde de interromper a vacinação ocorreu após o sistema de farmacovigilância identificar 42 casos de reações graves entre cerca de 500 mil pessoas vacinadas, incluindo duas mortes que seguem sob investigação. De janeiro até 30 de maio, foram registradas 3.703 notificações de eventos adversos após a vacinação, o que equivale a 0,7% do total de imunizados.
Dentro desse universo, os 42 pacientes que apresentaram sinais graves — como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos — representam 0,008% dos vacinados. O Ministério da Saúde classificou essas reações como raras e inesperadas por não terem sido observadas durante os estudos clínicos e nem constarem na bula do produto.
Entre as 42 ocorrências graves, três receberam atenção especial das autoridades sanitárias. Uma mulher de 39 anos desenvolveu um quadro de dengue grave e precisou ser internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas se recuperou. Por outro lado, dois pacientes — uma mulher de 48 anos e um homem de 58 anos — morreram após apresentarem sintomas compatíveis com dengue grave. Apesar do cenário, o Ministério da Saúde ressalta que, até o momento, não há elementos suficientes para comprovar uma relação direta de causa e efeito entre a vacina e os casos graves ou os óbitos.
A recomendação das autoridades de saúde é diferente para quem recebeu a vacina há menos de 21 dias. Para esse grupo, a orientação é ficar atento ao surgimento de sinais de alerta e procurar atendimento médico imediatamente em caso de agravamento. Os sintomas que exigem atenção incluem febre, dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, tontura, sangramentos, sonolência excessiva, irritabilidade, sinais de desidratação e piora do estado geral. Além disso, os cidadãos vacinados nesse período devem comunicar qualquer tipo de reação às secretarias municipais de saúde para auxiliar no monitoramento dos casos.
Uma investigação conjunta será conduzida pelo Ministério da Saúde, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo próprio Instituto Butantan. Kallás afirmou que as análises precisam ser concluídas o mais rapidamente possível, embora tenha evitado estimar um prazo para a divulgação dos resultados.
Apesar da suspensão temporária, o diretor defendeu a continuidade do desenvolvimento do imunizante, argumentando que as evidências disponíveis até agora indicam que o produto continua sendo uma importante ferramenta de combate à dengue. O Ministério da Saúde reforçou esse posicionamento, lembrando que a interrupção tem caráter estritamente preventivo e não invalida os estudos que comprovaram a eficácia e a segurança da vacina. Enquanto os trabalhos de investigação estiverem em andamento, estados e municípios deverão manter a aplicação das doses suspensa.
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