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Transplante fecal melhora sono de quem tem insônia crônica, segundo estudo

Pesquisa clínica mostra como cápsulas com microbiota intestinal de doadores saudáveis ajudam a dormir melhor e revelam a conexão entre intestino e cérebro

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Insônia pode ser resolvida com exercícios simples • Freepik

Durante seis meses, um grupo de pacientes com insônia crônica na China recebeu um tratamento incomum: cápsulas contendo bactérias e outros micro-organismos do intestino de pessoas saudáveis. O resultado surpreendeu pela melhora objetiva na qualidade do sono.

A pesquisa publicada no Journal of Internal Medicine fortalece a compreensão do eixo intestino-cérebro como regulador do sono humano. Este guia explica como a microbiota intestinal influencia o descanso noturno e o que a ciência já sabe sobre essa abordagem terapêutica para insônia.

O que é o eixo intestino-cérebro e como ele afeta o sono

O eixo intestino-cérebro representa a rede de comunicação entre o sistema digestivo e o sistema nervoso. Essa conexão funciona através de nervos, hormônios, sistema imunológico e das bactérias que vivem no intestino.

Segundo os pesquisadores, alterações na comunidade de micro-organismos intestinais podem afetar humor, cognição e níveis de estresse. Da mesma forma, emoções e estresse influenciam a digestão, processos inflamatórios e o equilíbrio das bactérias intestinais.

Essa via de mão dupla explica por que desequilíbrios na microbiota intestinal podem comprometer a qualidade do sono. A comunicação entre intestino e cérebro regula processos que determinam quanto e quão bem uma pessoa dorme.

Como funciona o transplante de microbiota fecal

A técnica consiste na transferência de bactérias intestinais de um doador saudável para o intestino de um paciente. O objetivo é reequilibrar a comunidade de micro-organismos que habita o sistema digestivo.

O procedimento já é utilizado em outras condições de saúde, mas sua aplicação específica para insônia ainda é pouco estudada de forma controlada. No estudo chinês, os pesquisadores adaptaram o método para uma versão menos invasiva.

Em vez de colonoscopia ou sonda nasogástrica, os participantes tomaram cápsulas por via oral. Antes do tratamento, receberam antibióticos por curto período para reduzir temporariamente a população bacteriana existente e facilitar a fixação dos novos micro-organismos.

Resultados obtidos no estudo clínico

Um mês após o tratamento, os participantes que receberam as cápsulas com material fecal apresentaram melhora significativa na eficiência do sono. Esse indicador mede a porcentagem do tempo na cama em que a pessoa efetivamente dorme.

Os pacientes também tiveram menos episódios de despertar depois de já terem pegado no sono. Esses dados foram registrados por polissonografia, exame que monitora durante a noite atividade cerebral, respiração e outros sinais corporais.

Questionários respondidos pelos próprios pacientes indicaram melhora na qualidade do sono entre o segundo e o sexto mês após o início do tratamento. A comparação foi feita com um grupo que recebeu placebo.

Segundo Yanping Bao, pesquisadora da Universidade de Pequim e coautora do estudo, "este trabalho fortalece nossa compreensão do eixo intestino-cérebro como um importante regulador do sono humano".

Como foi estruturado o ensaio clínico

O estudo foi randomizado e duplo-cego, o que significa que nem os pacientes nem a equipe avaliadora sabiam quem recebeu o tratamento real e quem recebeu placebo. Essa estrutura evita que expectativas influenciem os resultados.

Oitenta adultos com diagnóstico de insônia crônica participaram da pesquisa. Metade recebeu antibióticos seguidos das cápsulas de microbiota fecal. A outra metade recebeu cápsulas de placebo, sem o preparo com antibióticos.

Dentro de cada grupo, os pacientes também foram sorteados para receber ou não um suplemento adicional de probióticos. Isso permitiu aos pesquisadores avaliar separadamente esse componente do tratamento.

Segurança e efeitos colaterais do tratamento

A abordagem foi bem tolerada pelos participantes. Os efeitos colaterais relatados foram leves e passageiros, incluindo náusea e febre baixa.

Nenhum evento adverso grave foi registrado durante a pesquisa. Isso indica que o método de administração por cápsulas orais apresenta perfil de segurança aceitável para esse tipo de intervenção.

Limitações da pesquisa e o que ainda precisa ser estudado

Os próprios autores destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela. O acompanhamento dos pacientes durou apenas seis meses, o que limita conclusões sobre efeitos a longo prazo.

O exame objetivo do sono através de polissonografia foi feito somente uma vez após o tratamento. Isso restringe a análise sobre a duração do efeito terapêutico.

Os critérios de seleção foram bastante rígidos. Pessoas com obesidade, diabetes tipo 2, apneia do sono e outras condições comuns entre pacientes com insônia foram excluídas.

Por causa dessas limitações, os resultados podem não se aplicar diretamente a qualquer pessoa que apresente dificuldades para dormir. Os pesquisadores afirmam que o tratamento não deve ser visto, por ora, como uma opção de primeira linha.

A técnica deve ser aprofundada em outros estudos antes de se tornar uma recomendação clínica ampla. Novas pesquisas precisam avaliar durabilidade dos resultados e aplicabilidade em populações mais diversas.

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Jornalista graduada na PUC Minas. Trabalhou como repórter do caderno Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, produziu conteúdos para as editorias Turismo, Gastronomia e Emprego/ Concursos. Atualmente, colabora com as editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo.

 

 

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