Itatiaia

Canetas emagrecedoras contrabandeadas causam problemas de saúde e preocupam autoridades

Produtos são vendidos por preços mais baixos, mas não têm autorização da Anvisa para comercialização no país

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Imagem ilustrativa de uma caneta emagrecedora • stefamerpik/Freepik

Cerca de 60% da população adulta do Brasil está acima do peso, segundo dados citados na reportagem. Com a popularização de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras”, o tratamento para obesidade ganhou uma nova alternativa, mas o alto custo faz com que os produtos ainda sejam inacessíveis para grande parte da população.

A administradora Fernanda Fraga faz tratamento contra a obesidade e desembolsa cerca de R$ 1,8 mil por mês com o Mounjaro. Para ela, o preço dos medicamentos ainda impede que o tratamento seja democratizado. “É uma coisa muito de elite, que não é tão democratizada, é caro. Eu pago R$ 1.800 por mês no Mounjaro. Pensando na sociedade, não é possível para todo mundo. Meu sonho é que o SUS pudesse dar para todo mundo que é obeso”, afirmou.

Diante do preço elevado, algumas pessoas recorrem ao mercado ilegal em busca de alternativas mais baratas. Produtos comercializados no Paraguai acabam sendo contrabandeados para o Brasil e vendidos sem autorização dos órgãos sanitários brasileiros. Foi o que aconteceu com a empresária Kellen de Oliveira, de 42 anos. Ela conta que decidiu comprar uma versão comercializada ilegalmente depois de encontrar uma oferta nas redes sociais.

“Eu estava com 70 kg, acima do meu peso, e vi o status de um amigo que estava vendendo ampola e o preço estava atrativo. Perguntei se o pessoal estava tomando sem passar mal. Ele me convenceu, disse que mais de 40 clientes já usaram e não passaram mal. Eu confiei nele e comprei”, relatou. Segundo Kellen, os primeiros sintomas apareceram após quatro semanas de uso. Ela começou a apresentar mal-estar, enjoo, dores nas costas e alteração na urina.

“Depois de quatro semanas comecei a passar mal. Mas no começo sentia mal-estar, enjoo com algumas comidas. Perguntei para ele e me disse que era normal. Depois tive dor nas costas, urina vermelha. Foi então que parei e procurei um hospital”, contou.

Kellen passou por diferentes unidades de saúde até que os médicos identificaram alterações em seu quadro. O atendimento também foi dificultado pelo fato de ela não ter informado inicialmente aos profissionais que havia utilizado o produto contrabandeado.“No início, não cheguei a falar, meu esposo nem sabia. Depois eu falei e eles pediram para levar o remédio para o hospital. Só que disseram que não tinha como analisar por não ser brasileiro. Eles ficaram com a dúvida e falaram que só a polícia poderia fazer isso”, afirmou.

A empresária ficou cerca de quatro meses internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e afirma que sofreu diversas complicações. Segundo ela, os cabelos ficaram mais ralos, os músculos mais fracos e as mãos apresentam atrofia parcial.

Uso sem acompanhamento pode trazer riscos

O médico Mauro Jácome, especialista em gastroenterologia, alerta que medicamentos para emagrecimento devem ser utilizados somente com prescrição e acompanhamento médico. “Hoje, essas medicações são de regulação médica, precisam ser prescritas. O uso correto é que evita de ter uma complicação. Esse uso irregular, sem acompanhamento, sempre acaba em problema”, afirmou.

De acordo com o especialista, casos de pacientes que utilizam os medicamentos por conta própria são frequentes. “Eu recebo semanalmente pacientes que estão utilizando por conta própria com complicações. De maneira nenhuma pode se utilizar de forma insegura”, reforçou.

Além dos riscos relacionados à automedicação, os produtos contrabandeados não passam pela avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Dessa forma, há incertezas sobre a composição, a procedência e a segurança das substâncias comercializadas ilegalmente.

Os produtos entram no país de diferentes formas, segundo a reportagem, inclusive escondidos em cargas e até dentro de pneus, dificultando a fiscalização.

Mercado ilegal movimenta bilhões

O crescimento da procura por medicamentos para emagrecimento também impulsionou o mercado ilegal. Segundo dados apresentados na reportagem, o contrabando de medicamentos emagrecedores provenientes do Paraguai movimenta mais de R$ 2 bilhões no Brasil.

O cenário representa um desafio não apenas para os órgãos de fiscalização e segurança, como a Polícia Federal e a Receita Federal, mas também para o sistema de saúde, que precisa atender pacientes que apresentam complicações após o uso irregular dessas substâncias.

Na segunda reportagem da série, a Itatiaia mostra como a Receita Federal atua para combater o contrabando de canetas emagrecedoras e impedir a entrada desses produtos no Brasil. O conteúdo será publicado nesta terça-feira (18).

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Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.

 

 

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